Curso | Mercado editorial hoje: novas possibilidades e novos agentes – Parte I: Clepsidra, Lote 42, Tag e Leiturinha

Oies Bookaholics!

O Centro de Pesquisa e Formação do Sesc tem oferecido nesse mês de agosto um curso voltado ao mercado editorial, organizado pela Débora Butruce e Ricardo Rodrigues, o curso se foca nas novas possibilidades adotadas por profissionais nesse momento de crise das livrarias.

O mercado editorial sofreu um baque considerável nos últimos anos. Diante do encolhimento do número de livrarias e da crise de um modelo de comercialização que se mostra em vias de esgotamento, novas iniciativas se apresentaram para oxigenar o comércio de livros, gerando novos modelos de negócio. Neste ciclo de quatro encontros pretendemos abordar as propostas que vicejaram em meio à crise editorial. O curso convida agentes que vêm se destacando no novo cenário, profissionais que atuam em diversas frentes de forma independente e criativa e que transformam a crise em oportunidade de expansão, inclusão e congregação de forças. 

Uma amiga me indicou o curso e eu fiquei fascinada porque como vocês sabem eu sou apaixonada por editoração / mercado editorial, me inscrevi na primeira oportunidade e tive sorte porque em pouco tempo as inscrições se encerraram. Vou compartilhar com vocês um pequeno resumo dos pontos discutidos e quais têm sido as estratégias adotadas.

1º Encontro – Novas abordagens ante a crise: feiras, coletivos e espaços alternativos (Clepsidra e Lote 42)

Cid Vale é sócio e um dos empreendedores do Sebo e Editora Clepsidra e muito mais. Ele contou da sua experiência como um editor mais tradicional ao trabalhar com livros didáticos e sua experiência como livreiro. Formado em Letras pela FFLCH-USP viu que nem necessariamente era algo que se relacionava diretamente com o trabalho que desenvolvia. Ele aponta os desafios de abrir uma editora em um momento de crise, um pouco mais de um ano, sem nenhum investidor e vendo a maior distribuidora de livros do país (Saraiva) declarando falência. Como estratégia diz que num primeiro momento a decisão foi abrir um sebo para construir um público e conhecer o perfil atual dos leitores. Para isso, o planejamento com os demais sócios se deu desde a escolha do local, Vila Buarque em São Paulo, uma região cercada por diferentes instituições acadêmicas. Além de ser um espaço para a venda de livros, o sebo também concentra-se em outros diferenciais como clubes de leitura, lançamentos, encontro e bate-papo com autores e com isso todos os investimentos foram pagos no primeiro mês. Com a consolidação do sebo houve a possibilidade de abrir a editora, que tem como foco específico a curadoria no romance gótico, já que com os eventos realizados conseguiram além de identificar um público criar credibilidade na produção desse gênero literário. Afirma que em relação ao trabalho prático, sua experiência de 11 anos no mercado editorial não dava conta de todos os aspectos e funções de funcionamento de uma editora, já que há vários trabalhos burocráticos e processos de produção do livro. Por isso, a partir do contato com fornecedores e parceiros começou a criar uma rede de apoio em que os profissionais pudessem se ajudar a tirar dúvidas, e daí surgiu a Coesão Independente, um grupo com mais de 100 editoras independentes de diferentes partes do país. Este grupo tem dado tão certo que funciona há quase um ano e futuramente atuará como modelo de cooperativa e apoio, que poderão trabalhar de forma mais coletiva, como em negociações em bloco com os fornecedores (gráficas, etc). Para Cid, esse tipo de movimento é uma mudança de cultura no mercado editorial em que há um olhar mais como parceiros do que concorrentes. Além disso, o foco é colocar em contato tanto editoras novas como as veteranas e com mais experiência, servindo como espécie de incubadora, possibilitando trocas e financiamentos coletivos. Sua editora também atua em feiras, como a Choque Literário e diz que esse novo modelo além de não depender das livrarias é uma forma de trabalhar assumindo diferentes tarefas a fim de reduzir custos.

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O Centro de Pesquisa e Formação do Sesc iniciou hoje um curso que tem como temática o panorama de atuação do mercado editorial hoje: novas possibilidades e novos agentes. Na série de 4 encontros, o primeiro trouxe para a discussão Cid Vale e João Varella para falarem das novas abordagens ante a crise: feiras, coletivos e espaços alternativos. Adorei e evento e pude conhecer o trabalho do Cid a partir do Sebo e Editora Clepsidra, principalmente pelo trabalho cooperativo com editoras independentes formando uma rede de apoio. Eu já conhecia o trabalho do João Varella pela Editora Lote 42, Feira Miolo(s) e Banca Tatuí e sou apaixonada. Ambos destacaram em suas falas a importância das trocas e ajuda mútua entre aqueles que seriam seus concorrentes. Em tempos de crises, eles apontam a união como meio estratégico de crescimento e por que não sobrevivência: pensar e produzir o livro de modos diferentes. . . . . . . #livrosindependentes #editorasindependentes #mercadoeditorial #editoracao #eventos #eventosliterarios #sesccpf

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João Varella é um dos fundadores da Editora Lote 42, Sala e Banca Tatuí e Feira Miolo(s). Eu já conhecia e admiro muito o trabalho desenvolvido, e muito do que ele falou no encontro está melhor explicado nesse post que fiz sobre a Feira Miolo(s) 2017, como a produção de diversos títulos da editora. Além disso, João assim como Cid, destacou que o mundo hoje enfatiza o trabalho em rede e por isso a importância dessas redes de apoio entre os profissionais, tanto que ele também faz parte da Coesão. Diz que apesar do mundo cada vez mais tecnológico, algumas experiências só são possíveis pelo formato do livro impresso, ao mesmo tempo em que afirma que as tiragens limitadas, numeradas e assinadas (prática comum na Lote 42) deixa de lado a função essencial do livro, ou seja, a disseminação para as massas como meio de comunicação. Ao pensar na criar uma banca de jornal para a venda de livros se pensou na necessidade da distribuição e ao cuidado gráfico das publicações tanto da Lote 42 como de seus parceiros. A Feira Miolo(s) é o momento em que atuam na produção de eventos e a Sala Tatuí como espaço de cursos e outros eventos voltados ao mercado editorial independente.

 

2º Encontro – Clubes de Leitura: do Círculo do Livro às assinaturas digitais (TAG e Leiturinha)

Fernando Nuno contou as experiências e memórias do Círculo do Livro, um dos maiores clubes mais conhecidos no Brasil durante a década de 1970 e 1980, tanto que o número de assinantes chegou até um milhão de sócios. A experiência de Fernando como editor e seu contato com livros clássicos veio deste seus trabalhos na Editora Abril e posteriormente na parceria com a editora alemã Bertelsmann. Ressalta a importância deste clube para ampliação do público leitor brasileiro, já que a venda era essencialmente realizada no modelo porta a porta em um primeiro momento. Diz que no início as editoras tinham insegurança em relação a esta parceria pensando que o clube roubaria as vendas das livrarias. O clube chegou ao fim por conta da inflação do período e pelas altas taxas dos correios que não eram condizentes com os valores do livro.

Antes de falar sobre os clube de leitura atuais, gostaria de lembrar que há um tempo eu postei aqui no blog um post falando sobre o assunto, inclusive eu falo sobre a TAG e sobre o Leiturinha, e vocês podem conferir aqui: 12 Clubes de Assinatura de Livros para você que deseja receber livros e brindes surpresas em casa 😉

Gustavo Lembert é um dos fundadores da TAG – Experiências Literárias e diz que a ideia era a de reinventar o clube do livro a partir das experiências com o Círculo do Livro, ou seja, reinventar o conceito desse modelo de negócio no mercado. Diz que um dos principais desafios era investir num negócio no Brasil, um país de não-leitores e queriam fazer parte desta mudança. Como estratégias utilizadas revela que desde a fundação da TAG, julho de 2014 com os primeiros meses muito complicados e com poucas assinaturas, passaram investiram em assessoria de imprensa como estratégia de promoção do produto, estudo de marketing digital.  Com isso houve um rápido crescimento o projeto tornou-se empresa, e com isso passaram a investir em alguns diferenciais como as edições exclusivas e de luxo, e as curadorias trazendo nomes de peso do cenário para indicar os títulos. Mas além disso, criaram uma comunidade e o que torna o grande ingrediente da empresa, desenvolvendo aplicativo para os seus associados e uma loja virtual exclusiva trazendo outros produtos. Criaram um novo modelo, o TAG Inéditos com valor mais barato e a literatura considerada best-seller, com títulos ainda não publicados no Brasil. Nessa nova modalidade criaram uma nova parceria com as editoras, servindo como aposta do número de vendas e pesquisa de público, além disso, em relação às editoras, umas das estratégias utilizadas é que toda a edição dos livros (impressão em gráfica, etc) é de responsabilidade das editoras, seguindo uma padronização da TAG. Como os sócios da TAG são formados em administração e não eram do mercado editorial quando começaram a trabalhar nesse meio encontraram diversas dificuldades e por isso Gustavo traz algumas críticas, como: a falta de profissionalismo, a pouca gestão (número, negociação, etc), falta de foco no leitor e concorrência / inimizade (editoras x editoras x livrarias), em resumo ele quer dizer que toda a crise não se deve somente ao modelo de consignação, mas também a uma romantização do livro e não vê-lo como um produto.

Cynthia Spaggiari é uma das responsáveis pela Leiturinha, empresa formada em maio de 2014 na cidade de Poços de Caldas – MG. Os sócios não tinham experiência no mercado editorial, mas ao criarem uma start-up havia o interesse de criar um produto / serviço de assinatura com algo voltado à família, e por isso chegaram ao objeto livro. Com o objetivo de “inspirar além da leitura” a Leitutinha se tornou o maior clube de assinatura de livros infantis no Brasil, levando livros a mais de 500 cidades, inclusive as mais distantes. O negócio funciona com critérios específicos na escolha dos livros para que não sejam censurados dentro da casa dessas famílias, agindo também na formação de um público leitor que não limitado somente às crianças.

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Hoje, no segundo encontro do curso "Mercado editorial hoje: novas possibilidades e novos agentes", foi dia de conhecer mais a fundo os maiores clubes de leitura do Brasil. Fernando Nuno trouxe sua experiência como editor do Círculo do Livro que atuou intensamente entre as décadas de 1970 e 1990, servindo de inspiração para a TAG- Experiências Literárias fundada em 2014. Gustavo Lembert contou da história da empresa que em pouco tempo deixou de ser projeto devido ao rápido crescimento. Já Cynthia Spaggiari compartilhou as experiências do Leiturinha, clube de leitura voltado à literatura infantil, mas que tem como objetivo inspirar além da leitura, proporcionando momentos para a família. Em meio às memórias de Fernando e os desafios atuais: o como lidar com os desafios logísticos e as repercussões na internet, as falas indicam que há novas maneiras de ser trabalhar com o produto livro, tê-lo como negócio ao mesmo tempo de se ter o objeto como meio de formação e disseminação de leitores num país que não lê. Gustavo chamou a atenção para a falta de profissionalismo no mercado editorial, e a necessidade do conhecimento em gestão, números e negociação, além da necessidade básica de se focar o leitor, conhecendo-o e traçando estratégias de mercado, em vez da imagem romantizada do livro. . . . . . . . #mercadoeditorial #editoracao #eventos #eventosliterarios #sesccpf #taglivros #leiturinha

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No momento do debate com o público perguntei ao Gustavo sobre a polêmica gerada no momento em que foi criado o TAG Inéditos, já que eles dependiam muito das redes sociais e influenciadores digitais para divulgarem os livros. Nessa polêmica, alguns booktubers apontaram a diferença que a TAG fazia entre a baixa e alta literatura, com pessoas mais “capacitadas” para ler alguma coisa ou outra. Ele respondeu que de fato eles erraram na forma como anunciaram a diferença entre um modelo e outro, mas que a polêmica acabou se voltando mais para públicos específicos, como editoras e os booktubers (meio de ação e promoção que utilizaram), e que não teve influência nos seus associados. Ainda diz que nem sempre a mensagem como foi pensada pode não passar a mesma ideia para as mais de 500 mil pessoas que tem acesso à divulgação da empresa, e que após essa experiência eles bem antes de divulgar algo. Cynthia aproveitou o gancho para falar de uma experiência semelhante que teve na Leiturinha ao publicarem um edital que trouxe um erro numa cláusula causando muitas críticas, principalmente a de que a empresa estava censurando determinados temas para publicação de livros. Eles assumiram o erro e com a experiência disse que por conta das redes sociais mesmo com todo o cuidado qualquer erro toma proporções enormes, com notas no jornais, como ocorreu com a Leiturinha nessa situação.

 

Se eu fiquei encantada com esses encontros? Muito! ❤ Em breve sairá a segunda parte do resumo do curso, aguardem!

 

Até o próximo post!

Redes sociais *Skoob/ *Goodreads/ *Instagram/ *Facebook/ * Filmow

2 Comentários

  1. […] com os encontros 3 e 4. Mas, caso você não sabe do que eu estou falando, peço que confiram Parte I: Clepsidra, Lote 42, Tag e Leiturinha para compreenderem melhor sobre as temáticas tratadas nesse […]

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  2. […] Curso | Mercado editorial hoje: novas possibilidades e novos agentes – Parte I: Clepsidra, Lote 42… […]

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