Resenha | O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger

Oies Bookaholics!

O apanhador no campo de centeio do autor norte-americano J. D. Salinger é um daqueles livros que eu sempre ouvia elogios e finalmente li, após adquirir uma edição antiga num sebo perto da minha casa.

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★★★★

The Catcher in the Rye – Tradução: Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster – Editora do Autor – 1999 – 208 Páginas

 

É Natal, e Holden Caulfield conseguiu ser expulso de mais uma escola. Com uns trocados e seu indefectível boné vermelho de caçador, o jovem traça um plano incerto: vagar três dias por Nova York, adiando a volta à casa dos pais. Seus dias e noites serão marcados por encontros confusos, e ocasionalmente comoventes, brigas e dúvidas que irão consumi-lo. Acima de tudo, paira a inimitável voz de Holden, o adolescente raivoso e idealista que quer desbancar o mundo dos “fajutos”, num turbilhão de ressentimento, humor, frases lapidares, insegurança, bravatas e rebelião juvenil.

O primeiro capítulo do livro me pegou de uma forma que eu adorei o estilo da narrativa de Salinger. Sabe quando você inicia uma leitura e a escrita do autor é diferente porque ela nos envolve desde o primeiro parágrafo? Essa é uma daquelas leituras que você consegue realizar num único dia (ou em pouco tempo, rs.

O_APANHADOR_NO_CAMPO_DE_CENTEI_1581992002114SK1581992005BAinda em relação à escrita, a única coisa que me incomodou um pouco foi a linguagem utilizada. Como a narrativa é sob o ponto de vista de um jovem de 17 anos há diversas gírias. O problema é que a minha edição é de uma tradução da década de 1980, e a linguagem utilizada não fazem mais parte da nossa cultura, como “no duro”, que foi excessivamente repetida. Para quem ainda não leu a obra, o mais interessante seria buscar uma edição mais atualizada. A última edição disponível foi publicada em 2019 pela editora Todavia (imagem ao lado), e que acredito que usa de uma linguagem mais familiar para nós.

 

É no primeiro capítulo que conhecemos o contexto da obra: Holden um adolescente rico que é expulso de colégio interno, e essa não é a primeira vez. O tom crítico do protagonista/narrador marca a sociedade burguesa que ele faz parte, refletindo a sua insatisfação com tudo e basicamente todos (exceto sua irmã mais nova, muito provavelmente por ela ser criança e por ainda ter a inocência que falta aos adultos). E assim a narrativa prossegue durante todo o livro, Holden descrevendo alguns episódios da sua vida pelos internatos que ele passou, assim como a sua difícil relação com os pais. É aquele habitual clichê de pais não entenderem os filhos e vice-versa.

A obra foi um grande marco na literatura, já que foi um dos primeiros livros que trouxe um adolescente como protagonista de um romance tratando dos seus dilemas psicológicos. Vale a pena conferir o vídeo em que  uma das minhas professoras fala melhor sobre os aspectos culturais e o contexto que marcaram a publicação e recepção do livro de J. D. Salinger:

 

Achei interessante as referências literárias que Holden faz, mostrando que apesar de ser expulso várias vezes não significa necessariamente que ele não tem algum interesse pelos estudos. Muito pelo contrário, Holden faz comentários interessantes sobre literatura, escrita e a relação entre leitor e autor, como no trecho a seguir:

Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade. E isso é raro de acontecer.

O próprio título da obra é uma referência literária ao poema Comin thro’ the rye, de Robert Burns. E o significado que Holden do trecho revela o estado emocional dos garotos que vivem nesses internatos, a solidão, seus transtornos mentais e emocionais. A maneira como Holden conecta uma coisa à outra é bem profunda e até mesmo inovadora para os tempos em que o livro foi publicado, a década de 1950, e ao público jovem que se destina:

– Você conhece aquela cantiga “Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio? Eu queria…

– A cantiga é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”! – ela disse. – É dum poema de Robert Burns.

– Eu sei que é dum poema de Robert Burns.

Mas ela tinha razão. É mesmo “Se alguém encontra alguém num campo de centeio”. Mas eu não sabia direito.

– Pensei que era “Se alguém agarra alguém” – falei. – Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Que dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.

O leitor acompanha Holden durante quatro dias, e apesar da narrativa ser envolvente eu fiquei um pouco cansada. Apesar do jovem pertencer a uma classe social que lhe proporciona diversos privilégios, seu julgamento sobre os outros me pareceu arrogância em alguns momentos, já que ele eventualmente comete ações semelhantes. Por outro lado o jovem tem pleno conhecimento da sua favorável condição, isso porque ocasionalmente ele descreve situações envolvendo pessoas com dificuldades financeiras e o quanto aquilo o incomoda, ajudando essas pessoas.

Aos poucos o leitor percebe que há algo de estranho com Holden, algum motivo que o faz fugir não só do encontro com seus pais, mas também de contar aos leitores aquilo que realmente lhe aflige. Não por acaso ele se perde em memórias e parece que a narrativa fica aparentemente sem se desenvolver, quando na verdade essas memórias se revelam partes importantes do obscuro do protagonista, que não consegue falar diretamente sobre seus traumas.

 

Spoilers

Puxa, eu estava tremendo feito um desgraçado. E suando também. Quando me acontece um troço assim meio tarado, começo a suar como um filho da mãe. Esse tipo de coisa já me aconteceu mais de vinte vezes, desde que eu era garotinho. Não aguento isso.

 

Até o próximo post!

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5 Comentários

  1. Jéssica Inácio · · Responder

    Pareceu tão interessante que nem li a parte do spoiler, porque quero ver se compro o livro para ler 😊😁

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    1. Oies Jéssica, realmente é muito interessante, e se conseguir adquirir a última edição acho que será melhor ainda 😉 Depois que ler venha me dizer o que achou 😉

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  2. Também sempre ouvi falar bem desse livro e agora fiquei com ainda mais vontade de ler, tomando o cuidado de tentar encontrar uma tradução mais nova

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Tati! Então, parece que esta edição que indiquei foi a mais recente publicada, e parece que está melhor, assim espero 😉

      Curtido por 1 pessoa

  3. […] O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger – 4★ […]

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