Resenha | Fique comigo, de Ayòbámi Adébáyò

Oies Bookaholics!

Eu estou cada vez mais interessada na literatura africana, principalmente as produzidas por mulheres nigerianas. Fique comigo, de Ayòbámi Adébáyò foi uma das minhas mais recentes leituras e se tornou um dos meus livros favoritos da vida.

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★★★★★ ❤ 

Stay with me – Tradução: Marina Vargas – Harper Collins – 2018 – 256 páginas

Yejide espera por um milagre: um filho. É o que seu marido deseja, o que sua sogra deseja, e ela já tentou de tudo para engravidar. Mas, quando seus parentes insistem que seu marido receba uma nova esposa, Yejide chega ao limite. Tendo como pano de fundo a turbulência política e social da Nigéria dos anos 1980, Fique comigo relata a fragilidade do amor matrimonial, o rompimento de uma família, o poder do luto e os laços arrebatadores da maternidade. Uma história sobre as tentativas desesperadas que fazemos para salvar a nós mesmos, e a quem amamos, do sofrimento.

O que mais me fascina na literatura é a oportunidade dela nos levar a conhecer diferentes culturas e os contextos sócio-históricos de uma país, principalmente aqueles que não pertence às hegemonias norte-americana e europeia. A literatura nigeriana entrou no meu radar graças à maravilhosa Chimamanda Ngozi Adichie, uma percursora para que outras autoras ganharem espaço, e aos poucos vem ganhando destaque no Brasil.

Fique comigo foi primeiramente publicado pelo clube de assinatura da Tag Inéditos em 2018 e posteriormente publicado pela editora Harper Collins. Eu já tinha visto diversas pessoas recomendarem essa leitura e aproveitei uma promoção do e-book no ano passado, e, graças à quarentena tirei da minha listinha de livros esquecidos na estante.

A narrativa da autora (de nome quase impronunciável, diga-se de passagem) é instigante, o que a torna a história envolvente. Ao alternar o presente com o passado ficamos tentados a entender os acontecimentos dessa trama familiar. Além disso, a temática envolve não só uma história de amor, mas como os costumes culturais e a História interferem na vida dos personagens. Arrisco até a dizer que seria impossível compreender os atos dos personagens sem ter conhecimento do contexto em que eles estão inseridos.

Nesse sentido é fundamental entender a importância de ter um filho na cultura nigeriana, sendo este um princípio que deve ser seguido para manter a linhagem da família, principalmente no que diz respeito aos homens. Na Nigéria é comum que os homens tenham mais de uma esposa, pelo menos no período em que a história se passa, década de 1980. A poligamia é um costume que acaba por trazer diversas intrigas entre as diferentes esposas. Vemos a perversidade desse costume tanto pela infância da protagonista, já que sua mãe faleceu e seu pai tinha quatro diferentes esposas. E num segundo momento vemos o quanto Yejide sofre ao ter que aceitar que seu marido Akim tenha uma segunda esposa, arranjada pela sogra. A justificativa era de que uma segunda esposa poderia incentivar a gravidez das duas mulheres. O problema é que pelo seu passado de abandono pelas madrastras, Yejide já tinha entrado em acordo com o seu marido de que não aceitaria a poligamia e se sente traída quando ele acata às ordens da mãe.

A trama é narrada majoritariamente sob a perspectiva de Yejide, e por isso é muito difícil não sentir empatia por ela e por tudo o que ela passa no decorrer de sua jornada tão sofrida. Apesar de uma cultura patricarcal, Yejide é uma mulher independente, tem formação universitária e tem o próprio trabalho. Ela conquistou sua independência com a ajuda de Akim, mas é ela quem organiza e administra seu negócio, um salão especializado em cabelos crespos.

Outro ponto muito importante trabalhado na narrativa é a ditadura nigeriana, trazendo as medidas adotadas por um sistema totalitário e opressor. Desde as revoltas nos campus universitários, a luta por uma democracia e ainda as instabilidades que um novo governo poderia trazer. É curioso notar que por vezes as pessoas têm medo do novo, porque já sabiam como tal sistema funcionava, o novo muitas poderia ser muito pior. Esse período de transição marca a comunidade retratada no romance tanto pelos ataques às casas dos moradores por milícias, além dos ataques contra o modelo ditatorial que nega a democracia a sua naão, causando muitas revoltas e mortes.

Acontecem ainda mais algumas reviravoltas e a forma como a autora nos conta é impressionante, não tem como devorar o livro e saber o desfecho de uma história tão triste e sofrida, mas que no final consegue minimizar as tragédias vividas por uma personagem que é obrigada a ser forte para a sua própria sobrevivência.

 

Spoilers!

Fique comigo tem tantas reviravoltas que é quase impossível ficar sem falar deles. O ponto principal que a autora trabalha é a fertilidade, e como este fator cultural é determinante para os diversos acontecimentos na família de Yejide e Akim, como mencionado anteriormente. Essa cultura traz piores consequências para as mulheres: muitas vezes são tratadas apenas como reprodutoras, e se não cumprem com essa função são deixadas de lado. Yejide tem que aceitar a intromissão da sogra e lidar com a segunda esposa de seu marido dentro da própria casa. A trama também chega a mostrar a protagonista recorrendo a rituais religiosos humilhantes que prometem a fertilização, a fim de tirar a “rival” de sua família.

Para piorar a situação, se a mulher não consegue engravidar, automaticamente acreditam que o problema está nela. A autora escancara a falta da educação sexual, pois a protagonista não tem nenhum conhecimento no assunto, se casa virgem e é enganada por Akim, que na verdade não conseguia ter ereções. Ele é estéril e faz acompanhamento médico há anos, antes mesmo de conhecer a esposa, anos atrás.

Yejide se sente traída de duas maneiras: primeiro por se sentir culpada por não conseguir cumprir sua função essencial de gerar filhos, e num segundo momento por ser seduzida por seu cunhado, a pedido de Akim. O plano era que ela engravidasse pelo menos três vezes, e para piorar ainda mais a situação, o cunhado também foi enganado, pensando que Yejide tinha pleno consentimento. Mesmo nas passagens sob a perspectiva de Akim foi muito difícil compreender as suas ações, ele até chega a assassinar a segunda esposa com medo de que ela revelasse o segredo para Yejide. Algumas ações até poderiam ser justificáveis, mas imperdoáveis, e não por acaso Yejide o abandona.

Ainda mais porque por conta dos genes de Yejide e seu conhado seus filhos tem maior probabilidade de portarem a anemia falciforme, e, por isso as duas primeiras crianças morrem dessa doença. Se já era difícil engravidar, lidar com uma rival dentro de sua própria casa, imagina então perder dois filhos tão prematuramente. A protagonista sofre tanto que quando a terceira criança nasce ela não quer criar nenhum laço, para evitar mais um sofrimento. Inclusive, o nome da terceira criança é Rotimi, que significa “fique comigo”, a referência do título do romance.

Até o próximo post!

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9 Comentários

  1. Fique comigo está na minha lista. Depois de ler, voltarei aqui para ver a parte dos spoilers!

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    1. Ah Bia, olha acho que vc ficará chocada, mas depois vamos conversar sobre, quero saber a sua opinião! 😉

      Curtido por 1 pessoa

      1. chocada é ótimo! gosto mesmo quando causa impacto

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  2. Que delícia, Cah! Amo poder conhecerem novas culturas e costumes através dos livros. Esse parece realmente ótimo. Obrigada pela indicação!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Tati! Estou cada vez mais interessada na literatura nigeriana ❤ Espero que goste de Fique comigo! 😉

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  3. Nossa, parece MUITO interessante! Vou colocar na minha lista.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Uma das minhas leituras favoritas da vida ❤ Depois que ler me diga o que achou 😉

      Curtido por 1 pessoa

  4. […] é impossível não relacionar as questões aqui abordadas com outro livro da literatura nigeriana. Fique comigo, de Ayòbámi Adébáyò percorre caminhos muito semelhantes no que diz respeito à maternidade e ao casamento. O […]

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