Resenha | Na hora da virada, de Angie Thomas

Oies Bookaholics!

Na hora da virada foi mais uma leitura que eu realizei durante esse período de quarentena. Eu estava com muito receio de ler esse livro porque O ódio que você semeia foi uma das melhores leituras que fiz na vida e não queria me decepcionar com o segundo romance de Angie Thomas. Mas já antecipo dizendo que esse livro também me conquistou tanto quanto o primeiro e se tornou um dos meus favoritos! ❤

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★★★★★ ❤ 

On the come up – Tradução: Regiane Winarski – Galera Record – 2019 – 378 páginas

Bri é uma jovem de dezesseis anos que sonha se tornar uma das maiores rappers de todos os tempos. Ou, pelo menos, ganhar sua primeira batalha. Filha de uma lenda do hip-hop underground que teve o sucesso interrompido pela morte prematura, Bri carrega o peso dessa herança. Mas é difícil ter a segurança de estrear quando se é hostilizada na escola e, desde que sua mãe perdeu o emprego, os armários e a geladeira estão vazios. Então, Bri transforma toda sua ira em uma primeira canção que viraliza… pelos piores motivos! No centro de uma controvérsia, a menina é reportada pela mídia como uma grande ameaça à sociedade. Mas com uma ordem de despejo ameaçando sua família, ela não tem outra escolha a não ser assumir os rótulos que a opinião pública lhe impôs. Na Hora da Virada dá aos leitores de Angie Thomas outra protagonista pela qual torcer. É uma história sobre lutar por seus sonhos e também sobre a dificuldade de ser quem você é, não quem as pessoas querem que você seja.

Depois de ler os dois romances da autora norte-americana Angie Thomas eu fiquei apaixonada pela sua escrita. Ela tem o dom de contar histórias, desenvolvendo não só personagens que precisam ser fortes devido às situações que lhes são impostas, mas também diversas outras camadas que as rodeiam. As narrativas são super fluída e nos envolvem desde a primeira página, tornando a leitura rápida, nos afeiçoando a seus personagens e torcendo por eles. E quero ressaltar que por mais que os livros da autora sejam voltados mais para um público jovem, suas histórias deveriam ser lidos por qualquer faixa etária. Primeiro que as situações que suas protagonistas estão inseridas as tornam mais maduras do que suas idades aparentam, e, segundo porque essas histórias ajudam a mostrar a realidade que muitas pessoas não conhecem, desmistificando preconceitos e criando empatia.

Na hora da virada trata de assuntos tão pertinentes e que dizem respeito ao racismo estrutural e a consequência deles. Além de falar da violência policial, aqui mais retratada na segurança de uma escola privada, a história de Bri gira em torno da comunidade periférica em que ela vive, marcada pela violência, tráfico de drogas e rivalidade entre duas diferentes gangues.

O pai da garota foi assassinado quando ela ainda era bebê, sua mãe é uma ex-viciada em drogas e tem dificuldades em arrumar emprego fixo, já o irmão mais velho é formado em psicologia, mas não consegue emprego na área e precisa recorrer a qualquer vaga de emprego para pagar os financiamentos estudantis e sustentar a casa. Por isso a família passa por diversas dificuldades financeiras, precisando escolher muitas vezes entre energia elétrica e comida, fora a necessidade de outros itens básicos, como sapatos.

Famílias desestruturas como a de Bri são muito frequentes, infelizmente. Essa é a realidade de muitas família periféricas, tanto nos Estados Unidos, quanto no Brasil, e mostra que os negros são a maioria da população que mora em situações de vulnerabilidade e que estão mais predispostos à violência e criminalidade. É um sistema desigual que desde o final da escravidão marginalizou os negros e se estende até o dias atuais.

Cansada com a incômoda e triste situação, Bri acredita que o hip-hop é a única maneira que ela tem para melhorar suas vidas. Desde cedo ela foi exposta a esta arte e assim como seu pai, tem um talento para criar raps e fazer sucesso. Um dos problemas é que Bri não gosta de ser comparada com seu pai, figura esta que ela pouco conviveu, e carregar o título de princesa já lhe impõe valores que não fazem parte de quem ela é. Ainda mais por frequentar uma escola particular num bairro rico a faz uma “garota do gueto”, e com isso outras imagens estereotipas e preconceitos que os outros têm do negro da periferia.

Querer fazer uma coisa é diferente de achar que é possível. O rap é meu sonho desde sempre, mas sonhos não são reais. Ou a gente acorda ou a realidade faz com que pareçam idiotas. Pode acreditar, todas as vezes que minha geladeira está quase vazia, todos os meus sonhos parecem idiotas. (p. 48)

Bri é uma adolescente que não leva desaforo para casa e a todo momento bate de frente com as pessoas e situações que tentam derrubá-la, também literalmente. Cansada de tudo, Bri faz um rap com uma letra que gera muita polêmica ao mencionar armas e drogas, confirmando a imagem que as pessoas de fora têm sobre ela. Com isso a autora, que é apaixonada pelo hip-hop, faz uma crítica sobra as mensagens que suas músicas disseminam e o impacto que eles têm sobre as crianças principalmente. Cabe até relacionar esse tipo de crítica com a realidade retratada nos raps brasileiros dos Racionais MC’s, Facção Central estender até para os funks considerados “proibidões”. Por mais que muitas dessas canções retratem a realidade nos presídios e nas periferias, até que ponto a interpretação não foge da ideia de uma criminalidade romantizada?

A narrativa é permeada por diversos versos que Bri escreve para expressar seus sentimentos e quero aproveitar para destacar o papel brilhante da tradutora Regiane Winarski. O trabalho do tradutor já é difícil ao traspor para outra língua a ideia original do autor, imagina então trabalhar com poesia sem perder os significados, o ritmo e as rimas. Lendo em português não senti nenhum estranhamento das composições de Bri e acho que conseguiram transmitir muito bem os pensamentos da protagonista em forma de rap: música e poesia.

Na hora da virada segue a jornada de uma protagonista que precisa amadurecer, é uma história sobre lutar pelos sonhos mesmo com tantas adversidades, racismo e hipocrisias, é sobre as relações familiares e amizades, mas sobretudo uma história de alguém que constrói e determina a sua própria identidade, independente das imagens que fazem sobre ela.

 

Até o próximo post!

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3 Comentários

  1. Gostei. Bom domingo

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    1. Oies Bia! Bom final de semana! ❤

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