Resenha | Ponciá Vivêncio, de Conceição Evaristo

Oies Bookaholics!

Ponciá Vivêncio foi a leitura de fevereiro para o projeto de 12 Livros nacionais para 2020. Este romance foi o meu primeiro contato com a obra de Conceição Evaristo, um dos principais nomes da literatura negra brasileira contemporânea.

ponciá

★★★★

Pallas Editora – 2017 – 120 Páginas

A história de Ponciá Vicêncio descreve os caminhos, as andanças, as marcas, os sonhos e os desencantos da protagonista. A autora traça a trajetória da personagem da infância à idade adulta, analisando seus afetos e desafetos e seu envolvimento com a família e os amigos. Discute a questão da identidade de Ponciá, centrada na herança identitária do avô e estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre a lembrança e a vivência, entre o real e o imaginado.

Dizer que estava empolgada com esse livro é pouco. Desde o momento que decidi me aprofundar na literatura escrita por mulheres negras não poderia excluir dessa investigação a produção das nossas autoras brasileiras, tanto nos livros de não-ficção, e principalmente nas obras (de fato) literárias.

Entretanto, quando o assunto se refere às narrativas que tratam das condições dos negros fica difícil separar ficção e realidade, ficção e História. E por isso, vejo que é cada vez mais necessário a relevância do ensaio Sobre o conceito de História, de Walter Benjamin, na qual o autor relata, entre outros apontamentos, que é preciso rever o passado tal qual o conhecemos porque foi contado pelo ponto de vista dos vencedores. Com isso, o autor quer dizer que há lacunas que precisam ser preenchidas contando a verdade sobre os fatos, e isso pode ser tanto aplicado nos regimes ditatoriais quanto no caso da escravidão.

Precisei trazer essa ideia de W. Benjamin porque foi essa a sensação que eu tive durante a leitura de Ponciá Vivêncio. Narrado em terceira pessoa a história não tem como foco apenas esta protagonista que leva o título do romance de Conceição Evaristo. As páginas tratam também do passado histórico da família e da situação dos negros durante e posterior a escravidão. Por isso destaco o seguinte trecho que traz diversos elementos que nos ajudam a compreender o nosso passado:

No tempo do fato acontecido, como sempre os homens, e muitas mulheres, trabalhavam na terra. O canavial crescia dando prosperidade ao dono. Os engenhos de açúcar enriqueciam e fortaleciam o senhor. Sangue e garapa podiam ser um líquido só. Vô Vivêncio com a mulher, os filhos viviam anos e anos nessa lida. Três ou quatro dos seus, nascidos do “Ventre Livre”, entretanto, como muitos outros, tinham sido vendidos. (p. 44)

Percebe-se aqui as plantações de cana de açúcar como principal produto da agricultura nacional durante o século XIX, o trabalho árduo dos escravos na plantação por gerações e ainda a referência a uma das leis que tornaram o fim da escravidão um processo gradual e não num fato isolado e determinante com a Lei Áurea. Este outro trecho enfatiza mais ainda:

Naquela noite teve mais ódio ainda do pai. Se eram livres por que continuavam ali? Por que, então, tantos e tantas negras na senzala? Por que todos não se arribavam à procura de outros lugares e trabalhos? (…) Olhou o tempo como se buscasse no passado, no presente e no futuro uma resposta precisa, mas que estava a lhe fugir sempre. (p. 17)

Fiquei impressionada que em tão poucas páginas a autora conseguiu contextualizar com uma linguagem clara e objetiva esses aspectos sócio-históricos. Conceição Evaristo ao escrever sobre uma mulher negra mostra que é imprescindível tocar em assuntos que antes eram escondidos e distorcidos, e, com isso mostrar a partir de sua ficção os fatos que baseiam até hoje e determinam as relações de gênero, raça e classe na nossa sociedade. Não por acaso a autora afirma no prefácio desta edição:

O romance Ponciá Vivêncio foi a minha primeira publicação solo (…) Conto a história da publicação do livro, para enfatizar um ponto de vista que tenho afirmado sempre. Se para algumas mulheres o ato de escrever está imbuído de um sentimento político, enquanto afirmação de autoria de mulheres diante da grande presença de escritores homens liderando numericamente o campo de publicações literária, para outras, esse sentido é redobrado. O ato político de escrever vem acrescido do ato político de publicar, uma vez que, para algumas, a oportunidade de publicação, o reconhecimento de suas escritas, e os entraves a ser vencidos, não se localizam apenas na condição de a autora ser inédita ou desconhecida. Não só a condição de gênero vai interferir nas oportunidades de publicação e na invisibilidade da autoria dessas mulheres, mas também a condição étnica e social.

Ponciá Vivêncio além de trazer esta bagagem emocional desoladora da escravidão lida também com momentos de extremo vazio, como se ela estivesse alheia ao mundo e o mundo alheio a ela:

Nas primeiras vezes que Ponciá Vivêncio sentiu o vazio na cabeça, quando voltou a si, ficou atordoada. O que tinha acontecido? Quanto tempo tinha ficado naquele estado? Tentou relembrar os fatos e não sabia como tudo se dera. Sabia, apenas, que de uma hora para a outra, era como se um buraco abrisse em si própria, formando uma grande fenda, dentro e fora dela, um vácuo, com o qual ela se confundia. Mas continuava, entretanto, fazendo, assistia aos movimentos alheios se dando, mas se perdia, não conseguia saber de si. No princípio, quando o vazio ameaçava encher a sua pessoa, ela ficava possuída pelo medo. Agora gostava da ausência, na qual ela se abrigava, desconhecendo-se, tornando-se alheia de seu próprio eu.

Essa passagem consegue não só ilustrar o estado psicológico de alguém que tanto sofreu, como pode sumarizar a História: o vazio e ausência de conhecimento e por consequência a ausência de identidade e das raízes, do ser negro. Nesse sentido, até ouso interpretar o trecho “possuída pelo medo” como um receio de ter acesso a este passado obscuro, e o “gostar da ausência” ser mais “confortável” do que lidar com feridas até então não expostas, confrontando discursos hegemônicos fortemente disseminados.

Pensando ainda nesse vazio e ausência de Ponciá Vivêncio, a estrutura do romance colabora para esta ideia, porque se o romance fosse narrado em primeira pessoa não teríamos acesso ao contexto em que a protagonista está inserida e tampouco aos acontecimentos com outros membros da família. E nesse processo de preencher as lacunas, retomando Benjamin, cabe ao recursos literários dar conta das experiências individuais e coletivas de um povo oprimido.

A narrativa do romance é predominantemente negativa e foi a primeira vez que senti tão profundamente a ideia da solidão da mulher negra. Ponciá representa as desilusões, o sofrimento e as diversas violências em que está exposta, parece não haver esperança:

A vida escrava continuava até os dias de hoje. Sim, ela era escrava também. Escrava de uma condição de vida que se repetia. Escrava do desespero, da falta de esperança, da impossibilidade de travar novas batalhas, de organizar novos quilombos, de inventar outra e nova vida. (p. 72)

Cabe destacar também os laços familiares que ora afrouxam, ora apertam, ora sufocam, ora parecem inexistentes. E se não pareceu claro, o tema da família é outro assunto que domina essa narrativa, e diversas passagens, principalmente relacionadas à maternidade me fizeram lembrar das relações familiares tão complexas em Amada, de Toni Morrison. Aliás, ambos os romances de Conceição Evaristo e Toni Morrison são semelhantes nesse aspecto: retratar as condições que dificilmente podem se configurar no padrão de família tal qual conhecemos em contextos tão semelhantes e perpetuados até os dias atuais.

 

Até o próximo post.

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5 Comentários

  1. Hum… Deixaste-me com água na boca. Vai já para a lista de aquisições 🙂

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    1. Ah, fico feliz, espero que tenha uma bpa experiência de leitura! 😉

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  2. De Conceição Evaristo só li Olhos D’Água, mas sua resenha me deixou com vontade de conhecer algo mais dela. Vou já procurar Ponciá Vivêncio.
    🙂

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Primeiramente seja muito bem vindo (a)! Fico muito feliz que você tenha gostado ❤ Depois que ler me diga o que achou, combinado?! 😉 Também tenho Olhos d'água e lerei nos próximos meses 😉

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