[10 séries para 2019] Merlí: uma série catalã sobre filosofia, educação e algumas outras coisas

Oies Bookaholics!

Essa é a penúltima série que consegui assistir dentro da minha lista de 10 séries para 2019 e como eu queria sair um pouco das séries norte-americanas recebi a sugestão de Merlí, uma série catalã  (Espanha) produzida pela Netflix.

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Merlí é um professor de filosofia, que incentiva seus alunos a pensar livremente usando alguns métodos pouco ortodoxos, que divide as opiniões de sua classe, professores e famílias. Também aborda os dramas, amizades, amores, relacionamentos, sexualidade e os problemas dos alunos de sua classe.

A série possui roteiro de Héctor Lozano e a primeira temporada estreou em 2015. Em 2017 saiu a terceira e última temporada. Cada temporada conta com 13 episódios (14 na última) e tem média de 50 minutos por episódio, e eu assisti tão rapidamente por me envolver nos dramas representados. A língua também não foi um problema e gostei de assistir legendado mesmo com o idioma catalão, vale a pena para treinar o ouvido para outros idiomas 😉 Os protagonistas são interpretados por Francesc Orella (Merlí Bergeron), David Solans (Bruno Bergeron) e Carlos Cuevas (Pol Rubio).

Quando me indicaram essa série eu confesso que fiquei receosa, afinal nunca curti muito filosofia, mas por conta de uma disciplina da licenciatura comecei a perceber que filosofia não é um bicho de sete cabeças que vai te devorar enquanto você tenta entendê-la.

Merlí é uma delícia para entender algumas questões e filósofos importantes para a história. Por ser passar no ensino médio, a forma com que os temas são trabalhados é tão simples e claro, ainda mais por envolver os dramas vividos pelos personagens da trama, e aqui já acrescento outro aspecto que me fez gostar muito da série os jovens e seus dilemas sobre sexualidade e as difíceis relações familiares. Apesar de todo o drama há também diversos momentos de comédia para quebrar o clima pesado e a gente consegue dar boas risadas.

Mas voltando à voltando à filosofia, base da série, cada episódio leva o nome de um filósofo e o personagem de Merlí explica aos seus alunos as questões essenciais que esses filósofos trataram. O melhor ainda é que são discutidos tanto os filósofos do passado e da antiguidade, como Platão, Aristóteles e Sócrates, assim como os mais contemporâneos, entre eles Hannah Arendt para falar sobre a sexualidade e a questão do gênero e Walter Benjamin justamente como o meu ensaio favorito do autor, Sobre o conceito de história. Assistir essa série foi como recuperar as aulas que não tive durante o meu ensino médio sobre filosofia, e se eu tivesse acesso a questões abordadas eu muito provavelmente teria um pensamento mais questionador sobre a sociedade.

O roteiro foca essencialmente na vida dos peripatéticos de Merlí, uma classe do 1º ao 3º ano do ensino médio e cada um deles tem uma questão a ser resolvida: dificuldades financeiras, separação dos pais, pais extremamente controladores e conservadores, depressão e crises de ansiedade, luto, doenças terminais, sexualidade, relacionamentos tóxicos, uso de álcool e drogas, etc. É muito difícil não sentir empatia por as situações retratadas e entender o que esses jovens estão passando, mesmo que muitas vezes dá muita raiva de suas atitudes. No final do post spoilers sobre isso 😉

Mas a série também acertou ao não retratar personagens perfeitos, faz questão de mostrar suas falhas e defeitos focando não apenas nos jovens, mas também na vida dos adultos, os pais e professores desses alunos. O personagem mais contraditório é o próprio Merlí, apesar de ser considerado o herói e melhor amigo de seus alunos, ao mesmo tempo que tem uma relação complicada com o filho que abandonou quando era criança, ele é extremamente odiável em diversos momentos, ele mente, manipula e engana as pessoas a fim de alcançar seus objetivos.

Outro aspecto que gostei muito da série é a discussão em torno da educação, e aí pude compreender melhor o contraste entre a educação tradicional e a progressista. Merlí foge do padrão de professor ao adotar estratégias diferentes nas suas aulas, cujo objetivo é fazer com que os alunos questionem a sociedade em que vivem. Para isso ele propõe aulas na cozinha em vez da sala de aula, promove campeonato de futebol com troca de gêneros entre meninos e meninas, protestos contra a direção e fala abertamente sobre sexo e por aí vai. Por isso Merlí causa muita confusão por onde passa, não só com seus colegas de profissão, com o diretor da escola e até mesmo com os pais dos alunos, mas no final das contas todos contam com ele para resolver as crises.

Um dos pontos que me incomodou profundamente foi ver a falta de personagens negros na história e por isso não considerei a série a melhor que eu já vi. Sim, ultimamente tenho buscado representatividade nos meios culturais e me incomodou muito ver que não tinha nenhum professor nengro e apenas uma aluna na sala de aula como figurante e que pouco fala nas 3 temporadas. Preciso dizer que tem meninas gordas, personagens gays e bissexuais, mas deixou a desejar no quesito raça.

Recomendo muito Merlí, tanto para quem quer entender um pouco mais de filosofia, tanto para aqueles que gostam e/ou trabalham com educação. Vale a pena!

merliiii

 

Spoilers!

  • como eu disse tem várias atitudes do protagonista Merlí que me fizeram odiar o personagem, digo especificamente nas cenas em que ele age para benefício próprio como sair transando com as professoras durante o expediente e até mesmo com mães de seus alunos. Na terceira temporada ele está insuportável por sentir ciúmes de uma professora nova tão criativa quanto ele, descontando suas frustrações nos seus alunos como dizer que uma aluna que é mãe solteira que o filho dela é um problema, já que a garota não tinha com quem deixar a criança e pediu para o professor deixar que o filho dela ficasse na sala junto com ela;
  • na segunda temporada chega uma nova personagem que se torna a nova diretora da escola Angel Guimera e a mulher é totalmente autoritária e conservadora, além de se meter de forma negativa na vida das pessoas causando problemas graves, e acho que o pior foi a discriminação com uma professora trans que chega para substituir outra docente. A diretora tem um final bem trágico: morre no banheiro após um acidente com a caixa do vaso sanitário, e o pior ainda é que ela fica morta no banheiro enquanto os alunos estão fazendo uma festa clandestina na escola. É bizarro!
  • esse ponto vai especificamente ao último episódio da série porque eu fiquei muito arrasada, primeiro que eu não esperava que o protagonista fosse morrer, apesar de depois ficar pensando que desde a segunda temporada alguns sinais já indicavam que a morte seria um tema frequente. O pior foi ver os alunos de Merlí 7 anos depois do fim do ensino médio mostrando suas vidas, se por um lado foi interessante ver o caminho que eles seguiram, por outro ficou muito forçado, mesmo porque todos os atores não pareciam mais velhos, os homens em sua maioria estavam apenas barbados. Sei lá, talvez se mostrasse de alguma outra forma e sim, não gostei do final com Bruno e Pol juntos, tanto que tem a série spin-off Merlí: Sapere Aude (Merlí: saber ouvir) que também vai mostrar a vida de Pol durante a faculdade até se tornar professor de filosofia assim como seu mestre;
  • por falar em morte, como tem gente que morre nessa série: só na escola foram 3 professores: Santi na primeira, o que deixa Bruno bem abalado por desrespeitá-lo em diversos momentos, a diretora na segunda e Merlí na terceira de derrame e durante o hospital ele sofre uma parada cardíaca. Além disso também morre o pai de Joan de câncer e os alunos Berta, Tânia e Ivan veem um homem cometendo suicídio.

 

 

Até o próximo post!

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2 Comentários

  1. Oi, Cah! Pra mim, Merlí foi uma das maiores surpresas de 2019 em relação à série. Comecei a assistir com o Erick porque ele gosta muito da Catalunha e tinha escutado falar bem da série. Nos primeiros 3 ep,. eu quase desisti. Estava achando que parecia uma versão catalã de “Malhação”, mas persisti e acabei me apaixonando. (SPOILER) Engraçado que nos últimos ep., eu falei pro Erick “Quer apostar que vai acabar com ele morrendo?” e o Erick respondeu “Se for isso, eu faço nossa janta o resto do mês”. HAHAHAHA Não gostei nadinha do Pol e Bruno acabarem juntos, achei o Bruno muito vingativo e maldoso no final da série, ainda mais que a Tânia era a melhor amiga dele. Mas adorei ver o elenco adulto sete anos depois (mesmo que os atores não parecessem envelhecidos). Estou curiosa para ver o spin-off, mas duvido que seja bom igual. Gostava do Pol, mas não acho que o personagem segure uma série sozinho. Eu amei a construção dos personagens de Merlí! Eles souberam muito bem mostrar sempre os dois lados da moeda. Tipo a maconha, por exemplo, um deles tem um surto psicótico e outro consegue se reconectar com o pai e fazer o uso medicinal da droga. Acho que isso é um dos pontos fortes da série.

    Desculpa, me empolguei! Hahahaha

    Beijo,
    Brenda
    http://sobrelivrosetraducoes.com.br/

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  2. […] foi a última série da minha listinha de 10 séries para assistir em 2019 e tem post sobre Merlí: uma série catalã sobre filosofia, educação e algumas outras coisas […]

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