Resenha | Deixe o grande mundo girar, de Colum McCann

Oies Bookaholics!

Deixe o grande mundo girar do autor irlandês Colum McCann foi uma das minhas leituras obrigatórias do semestre na faculdade e se tornou uma das minhas leituras favoritas do ano. Apesar do autor ser pouco conhecido aqui no Brasil, seu romance foi publicado pela Editora Record.

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Let the great world spin – Tradução: Maria José Silveira – 2010 – 378 Páginas – 5/5 ❤

7 de agosto de 1974, um equilibrista anda sobre um cabo estendido entre as Torres Gêmeas; Corrigan, um padre irlandês, procura Deus em um gupo de prostitutas do Bronx; em um apartamento luxuoso da Park Avenue, mães de soldados mortos no Vietnã se reúnem para partilhar sua dor; dentro de uma prisão nova-iorquina, a prostituta Tillie chora por ter fracassado em proteger a filha e os netos. As vozes desses e de outros personagens se misturam neste livro para recriar a efervescência de uma época, a Nova York dos anos 1970.

Essa obra fez parte da disciplina Literatura e Diferença e após termos lido o conto Everything in this coutry must nos aprofundamos no romance também de autoria de Colum McCann. Quando iniciei a leitura de Deixe o grande mundo girar já estava num período em que estava esgotada com o semestre e não queria ler mais nada, ainda mais um romance tão extenso. Mas, para a minha surpresa a leitura me pegou de uma forma que eu não conseguia parar de ler, isso porque a narrativa exigia muito devido a estrutura um tanto complexa.

O autor desenvolve o romance a partir de diversas narrativas e personagens, ou seja, sua obra se divide em quatro partes e cada capítulo é um episódio individual e se destina a um núcleo de personagens que a princípio não possuem relação alguma, mas suas vidas se conectam como um mosaico. Essa estrutura me lembrou muito três filmes: Short cuts – cenas da vida (Robert Altman, 1993), Crash – no limite (Paul Haggis, 2004) e Babel (Alejandro G. Iñárritu, 2006) em que além da estrutura formal todos também lidam com as questões e diferenças étnico-culturais.

O fio condutor que liga essas diferentes narrativas no romance é a descrição do feito do equilibrista francês Phillipe Petit que atravessou ilegalmente as torres gêmeas num cabo de aço. O acontecimento é verídico e ocorreu em 6 de agosto de 1974 chamando a atenção do mundo todo num dia até então “normal”.

 

Com isso várias temáticas são trabalhadas e representam alguns acontecimentos reais que marcaram a História, entre eles aparecem The Troubles (conflitos entre a Inglaterra e a Irlanda do Norte), a Guerra do Vietnã e os ataques de 11 de setembro de 2001. A partir dessas perspectiva o autor trabalha em pano de fundo o trauma coletivo: o luto, a dor, saudade e sofrimento por aqueles que perderam seus entes e no caso da Irlanda a saída do país por conta dos conflitos.

Além disso, os personagens representam também não só esses momentos mas também as diferenças sociais dos Estados Unidos dos anos 1970. Temos a oportunidade de entender melhor esse período, principalmente sob o ponto de vista da situação das mulheres negras em situações de vulnerabilidade: pobreza, preconceitos, racismo, prostituição e vício em drogas. Nesse cenário a constituição do modelo tradicional de família se torna cada vez mais impossível e mais difícil ainda romper ciclos geracionais de fracassos impostos por um sistema opressor. Entra nessa posição também os refugiados de guerra não só os personagens oriundos da Irlanda, como também de países latinos.

A narrativa tenta englobar vários tipos sociais e com isso também traz personagens em melhor situação financeira, mas isso não os coloca em posição psicológica e emocional superior aos demais. Ambos também precisam lidar com as perdas, a culpa e a dependência química, fantasmas que os assolam suas experiências de vida.

A leitura exige atenção porque são vários personagens e diferentes focos narrativos, mas também exige muito do emocional do leitor que dificilmente não sentirá empatia pelas desgraças que ocorrem ao longo das páginas. E esse foi o principal motivo que me fez gostar tanto da leitura: trazer reflexão ao leitor sobre os problemas sociais, assunto este que eu coloco no post Discussão: quais os impactos das artes como instrumentos de críticas sociais?

Esse também foi um dos pontos discutido em sala de aula, especificamente sobre a representação de traumas na artes, com a questão levantada por K. Versluys sobre o 11 de setembro: Podemos fazer arte em tempos de atrocidade? A imaginação tem algo a dizer quando precisa competir com o horror real dos arranha-céus em colapso? O mesmo pode ser considerado para o holocausto e os campos de concentração da Segunda Guerra Mundial e também em relação à ditadura militar que assolou diversos países, inclusive o Brasil.

Fiquei muito feliz da disciplina ter possibilitado a oportunidade de conhecer esse livro com temáticas tão relevantes de discussão, porque apesar da narrativa se concentrar na década de 1970, muita coisa não mudou, infelizmente.

 

Sobre o autor

colum mccann

Colum McCann (nascido em 28 de fevereiro de 1965) é um escritor irlandês de ficção literária. Ele nasceu em Dublin, Irlanda e agora vive em Nova York. Ele é um ilustre professor de escrita criativa no programa de Mestrado em Belas Artes da Hunter College, Nova York, com colegas romancistas Peter Carey e Tea Obreht, e visitou muitas universidades e faculdades em todo o mundo. Seu trabalho foi publicado em 35 idiomase apareceu na New Yorker, Esquire e Paris Review, entre outras publicações. Ele escreveu para o New York Times, Esquire, Paris Review e The Atlantic Monthly, além de muitas outras publicações internacionais. McCann escreveu seis romances, incluindo TransAtlantic e o vencedor do National Book com Deixe o grande mundo girar. Ele também escreveu três coleções de contos, incluindo Thirteen Ways of Looking.

 

Até o próximo post!

 

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2 Comentários

  1. […] tornou um dos meus preferidos do ano e tem post sobre: Resenha | Deixe o grande mundo girar, de Colum McCann […]

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  2. […] no programa, contos, poesia e os dois romances estudados foram Desonra, de J. M. Coetzee e Deixe o grande mundo girar, de Colum McCann. Tivemos diversas aulas com alunos da pós-graduação sobre determinados autores e foi […]

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