Diário da Faculdade | A filosofia da educação de John Dewey

Oies Bookaholics!

Como mencionei em posts anteriores eu optei por cursar a licenciatura, que não é obrigatória para os cursos de bacharel na USP. Ao longo da licenciatura vou tentar postar mais detalhadamente sobre 😉

Comecei com uma das matérias optativas sobre Introdução aos Estudos da Educação e para sair da minha zona de conforto escolhi o enfoque filosófico entre o sociológico e o histórico. Como cada professor escolhe um recorte, o meu optou por trabalharmos o filósofo norte-americano John Dewey, especificamente com alguns capítulos das obras Democracia e Educação (1916) e Experiência e Educação (1938).

 

No post sobre a conclusão do semestre falarei um pouco mais sobre este curso porque agora a ideia é trazer algumas ideias centrais de Dewey que foram discutidas ao longo do semestre. As anotações a seguir partiram dos resumos que fiz sobre o conteúdo estudado.

 

A educação como necessidade da vida

Ao postular a educação como uma necessidade da vida, John Dewey inicia a sua argumentação distinguindo os seres humanos e os seres inanimados, marcando que nós humanos temos a capacidade de nos conservarmos pela renovação. Com isso, o autor aponta que a continuidade da vida corresponde a uma contínua readaptação do ambiente às necessidades dos organismos vivos, já que como seres vivos conseguimos dominar e regular o meio ambiente em que estamos  instituídos. A teoria do filósofo também toca no significado de vida, remetendo tanto ao sentido fisiológico, como toda a extensão e experiência do indivíduo e da espécie. Essa experiência acaba por categorizar o sentido de coletividade e vida social, visto que o autor considera pertencentes a estas experiências os costumes, instituições, crenças, vitórias e derrotas, divertimentos e ocupações, como também as ideias, esperanças, venturas, sofrimentos e hábitos. Nessa lógica de coletividade, Dewey determina a educação como instrumento da continuidade social da vida, isto é, a educação como o mecanismo que lança o conhecimento das crenças, costumes e demais elementos que compõem a vida em grupo, considerando ainda essa necessidade por conta das próprias ações fisiológicas inevitáveis: o nascimento e a morte que influenciam à  continuidade da vida em conjunto. 

Ainda, para o autor a educação, ou seja, a transmissão de conhecimentos, se dá pela comunicação, e esta pensada na troca de experiências, já que “não somente a vida social exige o ensino e o aprendizado para a sua própria continuação, como também por si mesma é ela educativa”. Contudo, diante das complexidades de um mundo cada vez mais “civilizado”, John Dewey indica possíveis problemas nos meios de comunicação que transmitem conhecimento, seja os contrastes entre a maturidade dos mais velhos e a imaturidade dos mais novos, seja na transição entre a educação indireta e a educação formal realizada nas escolas. Adotando como princípio uma “atitude mental social”, o filósofo conclui seu raciocínio apontando a busca de um equilíbrio dos métodos não formais e formais de educação, a fim de não ignorar a necessidade social, sem que se percam os interesses permanentes enquanto sociedade, isso porque, segundo Dewey, nas escolas há predominância de “conhecimentos que não são aplicados à estrutura da vida social e ficam em grande parte como matéria de informação técnica expressa em símbolos”. 

 

O conceito de crescimento

Segundo John Dewey, crescimento é uma “marcha cumulativa de ação para um resultado ulterior”, levando em consideração a ideia de transmissão de conhecimento para os mais jovens, já que eles serão o futuro da sociedade. Para tanto, o filósofo estabelece a imaturidade como primeira condição para o crescimento, mas não de maneira negativa, visto que engloba capacidade e potencialidade para o desenvolvimento. Ao conceituar o crescimento a partir dessa perspectiva, o autor contrasta com a ideia tradicional de crescimento que infere na noção de algo que atinge um nível que não cresce mais, como algo mais delimitado. Com isso, o desenvolvimento para Dewey não é algo que se destina apenas para os jovens, mas também para os adultos, com modos adequados e condições diferentes, o que retoma a ideia inicial da educação como necessidade da vida, enquanto a educação é pensada em prol da sobrevivência enquanto seres humanos. Nesse sentido, o filósofo considera a dependência do desenvolvimento de aptidões e a plasticidade como forças da imaturidade, visto que os seres humanos adquirem o hábito de aprender a aprender diante das experiências e do meio em que estão inseridos, e com isso, resulta num contínuo progresso. O autor ainda insere em sua lógica de pensamento a aquisição de hábitos, não para a realização dos objetivos, mas também como um domínio ativo sobre o ambiente. De forma que Dewey coloca a  vida como um desenvolvimento para a própria vida, o processo educativo também assume a mesma racionalidade para o processo educativo, ou seja, o processo educativo não tem outro fim além de si mesmo, e por isso, um contínuo reorganizar, reconstruir e transformar.

Destarte, as ideias de John Dewey criticam a noção de desenvolvimento adotada nas teorias tradicionais de educação que influenciam as práticas de ensino. Uma vez que a educação é considerada como um processo de preparação para a vida adulta, o desenvolvimento posto em evidência perde impulso com as crianças por ser um apenas uma vaga probabilidade de futuro longe do presente, ou até mesmo se considerarmos as promessas de recompensa do futuro com a maratona excessiva de estudos no período que antecede os vestibulares, se trazermos um exemplo do que ocorre nos dias atuais. Ao tratar da educação como desdobramento, Dewey aponta, dentre outros fatores, o desenvolvimento como o alcançar de uma plenitude / perfeição, e para isso depende das qualidades ideais e espirituais da adaptação, e por isso, esse desenvolvimento não é um processo contínuo em si. Por fim, o filósofo também chama a atenção para a teoria da disciplina formal, que coloca a educação como adestramento das faculdades, que tem em vista certas capacidades como fins e não resultado do desenvolvimento, quer dizer, a repetição de exercícios para aperfeiçoar as faculdades inatas para atuarem sobre as demais faculdades, ou seja, coloca o material da educação como algo exterior e indiferente.

 

Educação tradicional / conservadora

John Dewey ao tratar da educação destaca dois modelos que contrastam entre si: a educação tradicional / conservadora e a educação progressista / progressiva. Ao desenvolver suas observações sobre a primeira, o filósofo parte da noção de que a educação é uma formação que parte de fora para dentro, isso significa ignorar as inclinações naturais e internas substituindo-as por práticas adquiridas de fora, e essa aquisição se faz sob pressão e sob imposição. Para isso, o modelo tradicional utiliza de determinados padrões e regras de conduta, e uma educação voltada a princípios morais e assim a instituição escolar adquire uma postura radical de ensino com métodos, instruções e disciplina. Naturalmente a relação entre educador e educando é inquestionável, pois o professor é o agente de comunicação do conhecimento e por isso um impositor das normas de conduta, e por isso cabe ao aluno uma conduta apropriada e obediente ao que lhe é transmitido, sem contestações, mesmo porque não se considera a capacidade do jovem, desconsiderando suas experiências e distante do professor. Esse esquema de imposição de cima para baixo e de fora para dentro destaca a figura do professor, do adulto sobre os jovens,  e segundo Dewey, mais impede do que promove o desenvolvimento moral e intelectual daqueles que estão aprendendo. 

A crítica do pensador a este modelo de educação se baseia num primeiro momento no principal propósito da educação conservadora, que é o preparo do jovem para as suas futuras responsabilidades e para o sucesso da vida e para isso é necessário a aquisição de corpos organizados de informação que constituem o material de instrução. Uma segunda crítica abordada pelo autor se faz no conteúdo da educação que se baseia de informações e habilidades do passado, não por acaso os livros, os manuais escolares são os principais representantes do conhecimento e sabedoria do passado que precisa ser transmitido às novas gerações. Dewey reforça que a educação tradicional “emprega como matéria de estudos fatos e ideias tão ligados ao passado que pouco poderiam contribuir para ajudar a compreender os problemas do presente e do futuro”, e a preocupação do autor ao contestar a importância do passado neste tipo de ensino é uma espécie de representação de uma sociedade que acredita que o futuro será semelhante ao passado e deste modo não emprega mudanças, se mantém em padrões que não considera as transformações à sua volta.

 

Educação progressista / progressiva

Para John Dewey a formação de uma educação que venha contrariar o modelo defasado é o resultado de descontentamento, e como dito anteriormente, a educação progressista se opõem ao modelo tradicional e por isso adota uma percepção de que a educação é um desenvolvimento de dentro para fora e que considera os dotes naturais do indivíduo. Uma educação progressista cultiva a individualidade, trabalhando na aquisição do aprendizado com exercícios e habilidades técnicas que tenham como finalidade atingir às respostas e apelos diretos e vitais do aluno. As atividades externas visam o aprender por experiência e que aproveitam-se ao máximo das oportunidades do presente em detrimento de uma preparação para um futuro distante e remoto, em um mundo que está passível de constantes e grandes mudanças.  Diferente da educação tradicional com métodos estabelecidos e incontestáveis, a educação progressiva se baseia em princípios mais abstratos e que dependem de interpretação ao colocar esses princípios em prática. E por esse fator o autor levanta críticas a esse novo modelo de educação.

 Para Dewey esses princípios abstratos não garantem mudanças práticas de fato, isso porque o que se leva em consideração é o que é rejeitado e não o descobrir uma prática a partir do desenvolvimento construtivo da própria filosofia do modelo progressista. Tendo como base a experiência, isto é, uma relação que compartilhe os processos oriundos da experiência real com a educação. O autor destaca a necessidade de ter bem delimitado o que significa matéria e organização dentro da experiência, e não simplesmente se basear pura e simplesmente na rejeição e oposição a um modelo anterior de educação. A experiência é um elemento essencial para o filósofo, já que se a educação com base na experiência pessoal estabelece-se maior e mais íntimo contato entre o aluno (o imaturo) e o professor (o amadurecido) e consequentemente mais direção e orientação no processo de ensino e aprendizagem que antes tornava essa relação mais distanciada. Longe de tornar o modelo progressista utópico, o autor adianta que as novas posições frente ao ensino podem levantar problemas não vistos antes na educação tradicional, como os limites organização da matéria de estudo em relação a invasão da liberdade individual. O autor ainda coloca em evidência o perigo dessas novas filosofias se limitarem apenas às suas ideias abstratas e se tornarem dogmáticas como a educação tradicional nunca foi, e por isso a importância e se de um exame crítico de seus próprios princípios fundamentais. Dewey recorre ao questionamento filosófico do significado de liberdade do aluno para se pensar em quais condições são necessárias para que a escola venha de fato efetivá-la, fugindo da imposição que marcou desde os primórdios o processo de aprendizagem e a relação entre professores e alunos. Outra questão preocupante para o pensador diz respeito ao conteúdo ensinado, porque se antes o passado era considerado essencial para uma sociedade que acreditava que o futuro seria semelhante, o autor levanta a problemática de descobrir, ainda com base na experiência, qual a relação que de fato existe entre o passado e os desafios do presente. Para Dewey “a solução está na descoberta de como a familiarização com o passado poderá traduzir-se em poderosa instrumentalidade para melhor lidar efetivamente com o futuro” Por fim, ao trazer diversos questionamentos, o filósofo ressalta a importância de se estabelecer uma filosofia coerente que com efeito venha lidar com os desafios mais presentes diante das complexidades mais recorrentes nas sociedades. 

O professor pediu para que não buscássemos críticas sobre o autor para que a nossa leitura não sofresse nenhum tipo de influência negativa e tivéssemos um olhar crítico diretamente da obra. Um dos pontos que foram criticados em sala de aula foi a linguagem do autor em diversos momentos para diferenciar os civilizados dos não-civilizados, por exemplo.

Por fim, posso dizer que achei a leitura dos textos de Dewey bem claras e objetivas sem todo aquele ar filosófico impossível de compreender.

 

 

Até o próximo post!

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3 Comentários

  1. […] – Enfoque Filosófico. Para as discussões em sala de aula, atreladas aos conceitos  da filosofia da educação de John Dewey foi muito interessante, mas a leitura em si eu não curti tanto, e por isso não fiz resenha sobre. […]

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  2. […] essa série eu confesso que fiquei receosa, afinal nunca curti muito filosofia, mas por conta de uma disciplina da licenciatura comecei a perceber que filosofia não é um bicho de sete cabeças que vai te devorar enquanto […]

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  3. […] foi a disciplina da Licenciatura e falei sobre o autor estudado no post Diário da Faculdade | A filosofia da educação de John Dewey. Além de achar o período de aula muito longo como eu mencionei anteriormente, as aulas até que […]

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