Diário da Faculdade | E a tal da Iniciação Científica?

Oies Bookaholics!

Um dos maiores, se não o maior diferencial das universidades públicas para as privadas diz respeito sobre a pesquisa, e durante a graduação a possibilidade de atuar como pesquisador é a partir da Iniciação Científica-IC. Segundo o Guia para a Iniciação Científica da USP:

O objetivo do programa é propiciar aos alunos de graduação a aprendizagem do método científico e de técnicas de sua área de atuação por meio do desenvolvimento de um projeto de pesquisa, sob orientação de um docente ou pós-doutorando.

Agora que estou no último semestre do bacharelado consigo compartilhar com vocês a minha experiência nas práticas que envolvem a IC sob dois aspectos: não fazendo e sendo estagiária numa área da universidade responsável pela produção científica em diferentes fatores.

Mas por que eu não fiz a IC?

Vários pontos contribuíram para que eu não fizesse, mas assumo que o motivo essencial foi eu mesma, isso porque eu me empolgo muito facilmente com vários assuntos e toda hora queria estudar algo diferente, ao mesmo tempo em que eu esperava que o meu orientador decidisse aquilo que eu deveria pesquisar. Eu procurava os professores e falava sobre o que eu queria pesquisar mas nunca de fato sentava e escrevia uma proposta de projeto. Para fazer IC aprendi que é imprescindível você ter claramente definido o seu objeto de estudo, porque todas as ações depende de você mesmo de tomar a iniciativa para começar e se desdobrar na pesquisa. Para vocês terem uma noção dos assuntos que eu já quis pesquisar dentro da literatura: Vidas Secas (Graciliano Ramos); Ainda estou aqui (Marcelo Rubens Paiva) e outros livros cuja temática envolviam a ditadura militar brasileira; o ensino da língua inglesa a partir do viés racial (e olha que essa área não me desperta interesse) e por fim a autoria feminina negra pelo viés do contexto histórico-social de Toni Morrison.

Digo isso porque eu participo de grupos de pesquisa, uma prática muito comum no meio acadêmico, desde o meu segundo ano de curso e lamento por não ter desenvolvido nada mais concreto como artigos e apresentação em eventos durante todo esse tempo. E isso me deixou muito chateada, já que exige-se tempo para desenvolver sua pesquisa, eu cheguei a participar de reuniões quase que semanais, além de trabalhar e dar conta das demais disciplinas que estava cursando. Aqui também envolve a auto-cobrança e a necessidade de sempre produzir algo num ambiente tão competitivo (e tóxico) como a universidade proporciona.

Percebo claramente que essa minha ausência de tomar uma decisão foi muito baseado por inseguranças, em me sentir inferior diante dos demais colegas de grupos de pesquisa, ou me sentir intimidada e com receio de entregar qualquer coisa para meus orientadores.

E acho que aqui tem uma valiosa lição que aprendi em relação aos orientadores. Como geralmente é o aluno que escolhe o professor de acordo com a sua linha de pesquisa e seu modo,  acho que fiquei um pouco deslumbrada por trabalhar com um professor de prestígio, colocando-o num pedestal, e quando ele adotou algumas posturas não tão amistosas acabou me desestruturando, me deixando não só com ranço da pessoa, mas com a minha auto-estima mais abalada pensando que eu não seria capaz de desenvolver um projeto decente e sério pelo período de um ano. Por mais difícil que seja, é preciso separar o professor/orientador x pessoa, porque se você não tiver emocional para lidar com constâncias de humor ou exigências nunca será possível encontrar um orientador que se adeque às suas expectativas.

Apesar das decepções aprendi muito, acho que esta é uma excelente oportunidade para quem aqueles que tem condições para fazê-la. Espero de verdade conseguir desenvolver melhor as minhas dificuldades durante o mestrado e desenvolver a pesquisa com muito afinco.

Apesar de não fazer a IC o conhecimento que recebi durante as trocas nas reuniões não foi algo desperdiçado. Tive contato com muitos textos essenciais, mas complexos que se não fosse pela mediação eu não teria compreendido, cito alguns autores como Walter Benjamin, Georg Lukács e Theodor Adorno. Meu texto favorito da vida nessa graduação e que eu tento usar sempre que posso é Sobre o conceito de história (Benjamin) e foi durante uma reunião que me impactei com a sua potência.

 

Como funciona a IC na USP?

Sendo estagiária na Pró-Reitoria de Pesquisa tive mais contato com os bastidores da pesquisa. Aprendi principalmente a importância da produção científica e os resultados, assim como funciona as agências de fomento que concedem bolsa e a dificuldade de recursos para conceder mais bolsas. Num tempo em que se questiona muito o que se tem feito e como o dinheiro público tem sido “gasto” é um absurdo ver a realidade diante de tantos equívocos.

Falando de bolsas, o CNPQ (uma das principais agências de fomento no Brasil) concede bolsa mensal no valor de R$ 400 para os alunos de graduação, e o aluno não pode ter vínculo empregatício em nenhum lugar, já que a ideia é que ele se dedique integralmente à pesquisa. Se ele não tiver meios de ser sustentado pela família, ele não vai conseguir se manter com esse valor, e ponto! A título de curiosidade, no Mestrado a bolsa é de R$ 1500 e no doutorado R$ 2200, podem pesquisar os valores também na FAPESP e deixo a reflexão sobre os cortes que estão sendo realizados nesse ano…

O que percebo também é que há mais prestígio nas pesquisas nas áreas de exatas e biológicas na que a de humanas, visto que as duas primeiras conseguem dar resultados mais concretos e materiais do que “apenas” a reflexão humanas sobre determinados assuntos. Há um nível hierárquico e que delimita bem os assuntos e prioridades de investimentos, principalmente se compararmos a quantidade de temáticas dos diversos eventos que são realizados.

Além disso, uma das grandes preocupações a se pensar em pesquisa científica diz respeito à ética, e isso envolve a questão de plágio e afins. Vejo a universidade muito preocupada com isso, e além de criar uma cultura consciente disso promove a disseminação da temática, por meio do Guia de Boas Práticas Científicas, por exemplo.

 

Acho que consegui expor a partir da minha experiência alguns pontos mais gerais sobre a Iniciação Científica, se tiverem alguma dúvida mais específica, deixem nos comentários 😉

 

Até o próximo post!

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2 Comentários

  1. Oi Camila,
    Como tantos outros setores da sociedade, a iniciação científica ainda carece de uma explicação melhor de sua importância. Esse post é um excelente exemplo.
    Eu mesmo nunca participei de nenhum projeto de pesquisa ou iniciação científica porque simplesmente as Universidades Públicas do Rio de Janeiro não disponibilizam para alunos EaD.
    Eu trato com alguns professores universitários em meu dia a dia e entendo perfeitamente o que você disse sobre o enorme pedestal que é erguido para alguns docentes.
    Fico feliz por sua experiência e torço para você ter sucesso. Quem sabe não te tornas uma professora da USP?
    Já pensou nisso?
    Abraço grande.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Gabriel! Nossa, que pena que vc teve esse impedimento =/ Em relação aos docentes o que me deixa mais irritada é que, no meu caso, eles estudam sobre autoritarismo, literatura marginalizada etc, e nem sempre tem um comportamento eticamente humano, mas paciência…. Obrigada pelo incentivo aqui, como sempre ❤ Sobre a sua última pergunta eu estou "Deus me livre, mas quem me dera" hahaha.
      Abraços!

      Curtido por 1 pessoa

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