[10 séries para 2019] Black-ish: as complexidades da identidade negra

Oies Bookaholics!

Quando eu resolvi escolher as 10 séries para assistir em 2019, um dos principais objetivos era escolher aqueles que trouxessem protagonistas fora do padrão branco. Por mais que Black-ish seja uma série norte-americana, e a maior parte das produções cinematográficas são dos Estados Unidos, eu fiquei muito curiosa para assistí-la, mesmo porque é uma das poucas que não coloca os negros de forma estereotipada, ou seja, sempre ligados à criminalidade, sensualidade, etc.  A série de comédia é produzida e protagonizada por Anthony Anderson e conta com participação de Laurence Fishburne (o Morphues de Matrix) em diversos episódios, e a título de curiosidade a atriz Raven Symone (de As visões da Raven) também participa de alguns poucos episódios. Roteirizada por Kenya Barris e Viajal Patel, a série é exibida pela Sony aqui no Brasil, então fica difícil assistir os episódios na sequência cronológica, o que me fez recorrer aos torrents.

black-ish

Andre ‘Dre’ Johnson (Anthony Anderson) está prestes a ser promovido a Vice Presidente. Ele e sua esposa, a médica Rainbow (Tracee Ellis Ross) estão vivendo o Sonho Americano: ótimas carreiras, quatro lindos filhos, uma casa colonial em um bairro de classe média. Porém, Dre começa a ver sua vida perfeita de forma diferente quando descobre que está sendo promovido novamente e, na mesma semana, seu filho anuncia que quer ter um Bar Mitzvah. De repente, uma luz acende para Dre: Será que o sucesso subiu à cabeça e sua família está se distanciando da própria identidade?

Após terminar a 4ª temporada, Black-ish se tornou uma das séries queridinhas da vida, mas confesso que a primeira temporada me deixou em dúvida se eu deveria continuar ou não. Isso se explica pelo fato de que as ideias e o formato de falar sobre a questão racial não me agradaram, isso porque depois de assistir Atlanta, eu tinha outras expectativas. Outro motivo é que o personagem Dre me parecia muito exagerado, e até o episódio final, 24 episódios ao todo, era impossível não compará-lo ao Michael Kyle, sim, é impossível não relacionar não só os pais, mas as duas séries com Eu, a patroa e as crianças.

A partir da segunda temporada as coisas foram melhorando e por mais que seja uma série de comédia, eu gostei de como as críticas raciais foram tratadas na série, principalmente pelo modo de abordar o racismo estrutural como catalizador das diferenças raciais que temos hoje, e isso não só nos Estados Unidos, mas também aqui no Brasil, pois ambos os países passaram por processos semelhantes de escravidão.Mas o que eu fui percebendo conforme assistia aos episódios eram as complexidades de ser negro nos dias atuais, o conhecer as raízes históricas e como sua identidade é moldada a partir disso.

A família retratada em Black-ish é muito rica, apesar das grandes diferenças sociais que empobrece demais a população negra, Dre conseguiu se formar na faculdade e tem um cargo elevado na empresa de marketing em que trabalha, casado com a médica Rainbow, uma mulher mestiça, ambos tem uma bela casa, e conseguem dar tudo do bom e do melhor para os 4 filhos, inclusive todos estudam em escolas particulares. Dre tem consciência racial e por isso vive os embates tanto com a esposa que tem a pele branca e traços negros, e por isso não sofreu o mesmo tipo de racismo que ele sofreu enquanto crescia, ao mesmo tempo que as condições de vida seus filhos é completamente diferente das experiências dele enquanto criança.

Dre cresceu com diversas algumas dificuldades financeiras, o relacionamento dos pais era extremamente complicado, e na série conseguimos entender as diferenças entre o passado e o presente enquanto pessoas negras em diferentes contextos sociais, e agora desfrutando de uma vida mais confortável e com mais privilégios. Por conta de alguns traumas do passado Dre quer garantir aos filhos condições diferentes da que ele teve, além dele próprio lhe proporcionar fetiches que agora pode usufruir, como uma extensa coleção de tênis e roupas de marca.

black-ish-party-feet-1200x630.jpg

(Zoey, Junior, Diane e Jack)

Esse é o foco principal da série, mas não trata somente disso, há também as dinâmicas entre os filhos de Dre: Zoey a mais velha que num primeiro momento me pareceu muito fútil; do nerd Junior e os gêmeos Jack e Diane, o primeiro meio perdido e a segunda já mostrando o quanto é maldosa, de forma muito engraçada, é claro. Como disse anteriormente, outro ponto muito interessante abordado é a partir das raízes de Rainbow, uma mulher que foi criada por pais hippies e que também tem muitos valores feministas em sua identidade, mas que mesmo tendo a sua profissão e se orgulhando dela, também escolheu por ter uma vida mais “tradicional” ao se casar e ter filhos.

rainbow.png

(Rainbow – Bow)

Nesse sentido, um episódio que gostei muito fala da questão da mulher adotar ou não o nome do marido, e achei muito interessante a maneira como trouxeram tanto a perspectiva de Bow enquanto feminista e a não obrigatoriedade de mudar seu nome, ao mesmo tempo que traz a perspectiva da mãe de Dre, falando que para as mulheres de sua época era um orgulho carregar o nome do marido, já que dificilmente os homens não preferiam casar com mulheres negras. E já que estou falando da Bow, como não mencionar a forma com que o cabelo crespo aparece na série? Nos inúmeros episódios que assisti tanto Bow, como Zoey e Diane aparecem tanto com os cabelos alisados, tanto com os cabelos naturais e com diferentes penteados, o que mostra a variedade que os cabelos crespos oferecem sem a necessidade de estabelecer padrões, nem apagar as raízes.

Um aspecto que me deixou confusa num primeiro momento, mas que com o decorrer da série eu fui compreendendo o significado foi em relação ao machismo. Não é porque você é negro que você tem uma mente aberta a todas às minorias, digo isso porque no próprio trabalho do Dre, que é dominado por pessoas brancas, os homens sempre fazem diversos comentários não só racistas, mas também desmerecendo às mulheres, e acho que talvez a forma com que isso é trabalhado como algo normal do comportamento do homem, independente da cor, não mostre com clareza a quem está assistindo que esse tipo de discurso não pode ser mais aceitável. Por isso, uma das polêmicas foi a participação do cantor Chris Brown na série, ele é retratado como um rapper um tanto quanto babaca com as mulheres, o que não foge muito da realidade do artista que já agrediu mulheres, inclusive a ex-namorada Rihanna, e foi acusado de estupro.

E em relação a não ter as coisas e identidades separadas exatamente em caixinhas determinadas, um dos episódios que mais gosto é sobre a eleição de Donald Trump. Muito crítico e muito bom!

A série também assume um caráter muito didático ao explicar a História norte-americana, principalmente com o episódio sobre o Juneteenth, a comemoração do fim da escravidão nos Estados Unidos, uma referência ao dia 19 de junho de 1865 quando a escravidão foi abolida no Texas, depois de 2 anos do Ato da Emancipação em 1863. E por isso, com esse peso histórico, mas de forma fácil, acho que a série deveria ser exibida em streaming para que mais pessoas possam ter acesso a esse tipo de informação. Pelo menos aqui no Brasil a série é pouco conhecida.

Black-ish aborda diversos assuntos, e mesmo sendo uma série mais voltada à comédia, alguns episódios são bem emocionantes e dramáticos, como alcoolismo, depressão, racismo e principalmente o final da 4ª temporada. Por abordar mais profundamente outros temas, a série ganhou dois spin-offs: Grown-ish que tem a Zoey como protagonista a partir do momento que ela sai de casa para cursar e faculdade, e Mixed-ish, em que conta a infância da Rainbow, e estou ansiosa para assistir as duas!

 

Até o próximo post!

Redes sociais *Skoob/ *Goodreads/ *Instagram/ *Facebook/ * Filmow

um comentário

  1. […] não estão disponíveis e estou esperando para concluir, mas falo mais sobre a série no post: [10 séries para 2019] Black-ish: as complexidades da identidade negra […]

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: