Chimamanda Ngozi Adichie na capa da revista Marie Claire Brasil

Oies Bookholics!

Quando vi a divulgação da capa de edição de aniversário da revista Marie Claire Brasil logo pensei: eu preciso ler! E isso é um fato quase inédito da minha vida adulta.

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Durante a adolescência eu consumia muito essas revistas estilo Capricho, Smack, TodaTeen, seja pelos artistas que estampavam as capas, ou também pelo conteúdo que elas traziam, com dicas de modas, filmes, passeios, e aqueles testes para identificar sua personalidade ou dicas de como se dar na paquera e como se comportar para agradar os meninos, inclusive com o corpo perfeito.

Mesmo que eu não me identificasse com as modelos trazidas, muito menos aos estilos de maquiagem e penteados exclusivamente para meninas brancas eu continua comprando, e não via problema algum nisso. Com o passar do tempo a gente começa a aprender e questionar determinados padrões. Abandonei as revistas pelos livros, mesmo que dificilmente me via representada por seus personagens de estereótipos diferentes da minha identidade.

Na semana passada, véspera de feriado passei por uma banca de jornal e comprei a revista. Enquanto esperava o ônibus li toda a matéria com a Chimamanda Ngozi Adichie. A autora é uma referência para mim pelo seu posicionamento em prol do feminismo, numa linha de pensamento que mais acredito, e ainda por finalmente trazer uma personagem com traços mais semelhantes que os meus. 

Ao ver a capa dessa revista e terminar de ler a matéria, muito curta para o meu gosto inclusive, passei a refletir em como teria sido essencial ter revistas desse tipo como referência enquanto eu crescia. Minhas bases foram estabelecidas com padrões que sempre me colocavam em posição de inferioridade em relação aos meus traços biológicos, traços estes que por muito tempo eu negava e que aos poucos tenho aprendido a ter orgulho do ser uma mulher negra.

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A matéria na Marie Claire também contribuiu nessa reflexão, já que estava escrevendo um trabalho para a faculdade sobre os diferentes significados do cabelo crespo, numa análise da minha vida enquanto alisava os cabelos até parar de usar os tratamentos químicos e assumir meus cabelos crespos e naturais, levando em conta também a representação de mulheres negras em novelas brasileiras, o preconceito e o mercado a partir das vendas dos produtos especializados em cabelos crespos. Nesse sentido, ver uma revista com essa capa como destaque não mostra apenas empoderamento, mas identificação e representatividade.

Vocês têm ideia do que isso significa ter uma mulher negra (e feminista) com os cabelos crespos naturais bem volumosos como capa de uma revista? Como isso pode transformar os ideias e valores de representação da mulher negra?

Sobre a matéria em si, como eu disse anteriormente, achei extremamente curta para o preço de R$ 17. Provavelmente por ter perdido o hábito de ler revistas eu achei um tanto que estranho, e nem tive interesse ainda em ler as demais matérias. O texto escrito por Adriana Ferreira Silva gastou um tempo descrevendo a dificuldade de se entrevistar a autora por conta da sua agenda lotada, além de trazer as tentativas frustradas, inclusive de falta de visto nigeriano, os cancelamentos etc.

Mas a entrevista não seria apenas uma entrevista, já que como Chimamanda seria capa, havia toda uma produção de fotos, preparação e maquiagem. E que fotos lindas, com roupas de artistas nigerianos para representar a cultura deste país africano.

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A matéria também traz de forma resumida a trajetória da autora, sua formação como escritora tanto com seus livros de ficção como os de não ficção, estes últimos que tem como foco primordial o feminismo, aquilo que ela define como a igualdade social, política e econômica entre os sexos.

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Suas ideias foram muito disseminadas a partir das suas palestras no TED Talks: Nós Deveríamos Todos Ser Feministas e O Perigo de Uma História Única, assim como no clipe Flawless de Beyoncé. Mas, na entrevista, ela assume que não se considera um ídolo pop e que seu maior objetivo é ser reconhecida como escritora de ficção.

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Assuntos relacionados à família também foram abordos, tanto pela relação de Chimamanda com sua mãe, que sempre exigiu que ela se vestisse, se portasse adequadamente e a preocupação com a saúde da filha (como qualquer mãe) por conta da agenda lotada de compromissos, como pela relação com a sua filha de 3 anos, que mantém a identidade da menina fora do alcance das mídias.

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Claro que o assunto da negritude também foi abordado, já que para ela isso só se tornou “um problema” quando foi estudar nos Estados Unidos e percebeu a grande diferença racial, tema este abordado no seu romance Americanah, livro este que está na minha listinha de desejados. E nesse sentido, quando foi questionado em relação ao Brasil, Chimamanda apontou sobre o apagamento histórico da escravidão e que teve como uma de suas consequências o racismo. Por isso ela elogia o trabalho das mulheres negras brasileiras que vem atuando fortemente na causa, citando inclusive Djamila Ribeiro.

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Por fim, acho que por tudo o que tentei expressar nesse post mostram a minha satisfação por ter a oportunidade de viver esse momento histórico. E deixo o trecho que mais me marcou, que tratava especificamente dos cabelos crespos:

Me lembro da primeira vez que usei o relaxante e fiquei tão feliz: meu cabelo ficou comprido, liso e eu gostava do balanço. Quando me mudei para os Estados Unidos, não tinha dinheiro para ir ao salão, por isso, eu mesma coloquei o relaxante e queimei o couro cabeludo. Fiquei com umas cicatrizes horríveis. Aí comecei a pensar: ‘Por que estou fazendo isso?’. Os Estados Unidos me fizeram parar e refletir sobre quem eu sou. Comecei a gostar do meu cabelo do jeito que ele é. Parei de alisar há 25 anos. E amo que o cabelo negro seja versátil: posso fazer tranças ou trabalhá-lo como uma arquitetura”, diz Chimamanda, se levantando e seguindo para a sessão de beleza que a deixaria linda e descansada – como sua mãe queria -, com os cabelos mais armados e bem desenhados que jamais se viu numa capa de revista. 

 

Até o próximo post.

 

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10 Comentários

  1. Cah, post excelente! Eu não comprava uma revista há um tempão, mas tive que comprar essa edição da Marie Claire por causa dessa deusa que é Chimamanda. ❤ Também achei a matéria muito pequena para o valor da revista. Estou acostumada com as matérias de capa em formato de perfil que a Rolling Stone produzia, longas, profundas e completas. Essa poderia ser bem melhor, apesar de eu já ter adorado. Gostei de ler sobre a batalha da equipe até conseguir uma entrevista com ela, porque mostra quão merecidamente requisitada ela é. Adoraria que a matéria tivesse sido na casa dela em Laos, teria sido mais rica em detalhes sobre a cultura dela, você não acha? Amei ler sobre a sua experiência! E Americanah entrou para o meu top 10 de melhores livros, é sensacional!

    Beijo,
    Brenda
    https://sobrelivrosetraducoes.com.br/

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    1. Oies Brenda! Ahh sua maravilhosa, obrigada 🙂 E sim, acho que se a entrevista tivesse sido lá teria sido bem melhor, e talvez uma matéria maior haha. Vou aproveitar para comprar os demais livros dela na Festa do Livro da USP no final do ano 😉

      Bjos

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  2. fagulhadeideias · · Responder

    Também sou fã de Chimamanda Adichie. Por coincidência, estou lendo “Meio sol amarelo”.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Ah que maravilha!!! Quero me dedicar a obra dela ❤ ❤

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  3. Olá!

    Que diferente a MC trazer um artigo sobre a Chimamanda, principalmente por causa do público da revista. Eu não tinha visto essa edição, vou procurar na banca de revista, rs. xD

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    1. Oies Samantha! Eu fiquei bem surpresa com essa atitude, não por ser a MC, mas por ser uma revista de renome, sabe? Espero que goste da matéria tbm, depois me conte o que achou! 😉

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  4. Ah, que post maravilhoso, Cah! Até compartilhei no meu Facebook! *-*
    Eu me identifiquei com o seu livro, todo “trabalhado” nos post-its hahahaha, o meu também ficou assim. Eu não comprei a revista, mas confesso que, após anos sem comprar nenhuma (porque também já fui consumidora das revistas que vc menciona), eu tive finalmente vontade de voltar a ler alguma.
    Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Isa! Poxaa, fico tão feliz por isso, de vdd! ❤ Mulher, acho quase impossível que um livro da Chimamanda passe ileso de marcações e post-its hahaha. Acho que a nossa geração (pensando que nossas idades são bem próximas, rs) meio que oegou um ranço e com os debates que estão sendo feitos hj fica difícil seguir determinados padrões que não nos representam mais ou nas nossas novas crenças. Bjos

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  5. Mariana Costa Mendes · · Responder

    Que legal, Ca! Não sabia que a Chimamanda tinha sido capa da “Marie Clare”! Adorei! Será que ainda está à venda? “Americanah” é meu livro favorito dela! Recomendo demais! Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Mari! Tomara que vc consiga achar, se não posso te emprestar a revista 😉 Estou esperando a Festa do Livro para comprar os livros dela com desconto 😉 Bjos

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