Quotes | Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector

Oies Bookaholics!

Esse livro me proporcionou uma experiência tão diferente que acho que não deveria seguir o padrão comum de resenhas que costumo fazer. Muito pelo contrário, a leitura de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres me tocou com a sua forma poética e filosófica, me fazendo me identificar, e refletir em diversas passagens.

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Coleções Folha – 2016 – 144 Páginas – ★★★★

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é uma história de amor sem histórias. Neste sexto romance de Clarice Lispector (1920-1977), publicado em 1969, não há enredo, trama. Os acontecimentos são banais: a professora primária Loreley, Lóri, um dia conheceu o professor de filosofia Ulisses, que lhe dera carona. Importante, porém, é que os dois procuram descobrir como amar, embora se queiram desde o início. Trata-se de um diálogo de aprendizados, das conversas entre Lóri e Ulisses e de Lóri consigo mesma, de fluxos de consciência de uma mulher em autodescoberta mística, que se prepara para o prazer genuíno. O que é? Para aprender a alegria você precisa de todas as garantias?, uma vez pergunta Ulisses a Lóri. Antes de enfim se unir ao professor, Lóri quer se desfazer das amarras que a prenderam a uma vida limitada, independente, mas solitária, e de amores desimportantes: tenta superar o desconhecimento de si mesma e aprender a viver sem dor. 

Então, em vez de buscar informações sobre o contexto de publicação, curiosidades, estilo e aspectos formais da obra (muito influenciada pelos trabalhos que desenvolvo na faculdade), vou compartilhar as frases que mais mexeram comigo ao longo das páginas marcantes de Clarice Lispector.

 

” (…) apelara histericamente para tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como, estava cansada do esforço de animal libertado”. (p. 11)

 

“Mas era como se ele quisesse que ela aprendesse a andar com as próprias pernas e só então, preparada para a liberdade por Ulisses, ela fosse dele (…)” (p. 11)

 

“Por ter de relance se visto de corpo inteiro ao espelho, pensou que a proteção também seria não ser mais um corpo único: ser um único corpo dava-lhe, como agora, a impressão de que fora cortada de si própria”. (p. 14)

 

“E o seu amor que agora era impossível – que era seco como a febre de quem não transpira era amor sem ópio nem morfina. E ‘eu te amo’ era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé”. (p.17)

 

“A humanidade lhe era como morte que no entanto não tivesse o alívio de enfim morrer”. (p. 18)

 

“Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente”. (p. 21)

 

“A vitória translúcida foi tão leve e promissora como o prazer pré-sexual”. (p. 25)

 

“A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano”. (p.29)

 

“Por mais intransmissível que fossem os humanos, eles sempre tentavam se comunicar através de gestos, de gaguejos, de palavras mal ditas e malditas”. (p. 33)

 

“Ela vivia de um estreitamento no peito: a vida”. (p. 37)

 

“Estaria na verdade lutando contra a sua própria vontade intensa de aproximar-se do impossível de um outro ser humano?” (p. 38)

 

“A dor fora aniquilosa e paralisada dentro de seu peito, como se ela não quisesse mais usá-la como forma de viver (…) pois em lugar da dor, nada viera senão a parada da vida dos sentimentos (…) Ela nunca vira ninguém salvar o outro, então temia que uma aproximação que só faria desiludí-la na confirmação de que um ser não transpassa o outro como sombras que se trespassam”. (p. 39)

 

“Sua alma era incomensurável. Pois ela era o Mundo. E no entanto vivia o pouco. Isso constituía uma de suas fontes de humildade e forçada aceitação, e também a enfraquecia diante de qualquer possibilidade de agir”. (p. 39)

 

“Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender”. (p. 40)

 

“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos”. (p. 43)

 

“Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa”. (p. 44)

 

“(…) não é mesmo com bons sentimentos que se faz literatura: a vida também não”. (p. 47)

 

“A vida inteira tomara cuidado em não ser grande dentro de si para não ter dor”. (p. 50)

 

“Mas como um desafio ao Deus com que agora, por desilusão e solidão, ela parecia querer medir forças”. (p. 57)

 

“Angústia também era o medo de sentir enfim a dor”. (p. 58)

 

“Lóri estava fascinada pelo encontro de si mesma, ela se fascinava e quase se hipnotizava”. (p. 62)

 

“E tinha agora a responsabilidade de ser ela mesma. Nesse mundo de escolhas, ela parecia ter escolhido”. (p. 66)

 

“A máscara a incomodava, ela sabia ainda por cima que era mais bonita sem pintura. Mas sem pintura seria a nudez da alma. E ela ainda não podia se arriscar nem se dar a esse luxo”. (p. 75)

 

“Parecia assustada por estar avançando dentro de si talvez depressa demais e com todos os riscos – em que direção?” (p. 79)

 

“Pois eu tive que pagar a minha dívida de alegria a um mundo que tantas vezes me foi hostil”. (p. 81)

 

“(…) falo poesia não porque seja poeta mas para exercitar minha alma, é o exercício mais profundo do homem. Em geral sai incongruente, e é raro que tenha um tema: é mais uma pesquisa de modo de pensar. Este talvez tenha saído com um sentido mais fácil de aprender (…) Nós o que escrevemos, temos na palavra humana, escrita ou falada, grande mistério que não quero desvendar com o meu raciocínio que é frio (…) Quem escreve ou pinta ou ensina ou dança ou faz cálculos em termos de matemática, faz milagre todos os dias. É uma grande aventura e exige mais coragem e devoção e muita humildade”. (pp. 83-84)

 

“O que não se pode é deixar de amar a si próprio com algum despudor”. (p. 84)

 

“A tragédia de viver existe sim e nós a sentimos. Mas isso não impede que tenhamos uma profunda aproximação da alegria com essa mesma vida”. (p. 85)

 

“Nos piores momentos, lembre-se: quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria”. (p. 87)

 

“Nossa vida é truculenta, Loreley: nasce-se com sangue e com sangue corta-se para sempre a possibilidade de união perfeita: o cordão umbilical. E muitos são os que morrem com sangue derramado por dentro ou por fora. É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida. A truculência é amor também”. (p. 88)

 

“Ah como se inquietava de não conseguir viver o melhor, e assim poder um dia enfim morrer o melhor”. (p. 106)

 

“Ela estava procurando sair da dor, como se procurasse sair de uma realidade outra que durara sua vida até então”. (p. 114)

 

“Mas sua busca não era fácil. Sua dificuldade era ser o que ela era, o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível”. (p. 115)

 

“Com curiosidade meiga, envolvida pelo cheiro de jasmim, atenta à fome de existir, e atenta à própria atenção, parecia estar comendo delicadamente viva o que era muito seu. A fome de viver, meu Deus. Até que ponto ela ia na miséria da necessidade: trocaria uma eternidade de depois da morte pela eternidade enquanto estava viva”. (p. 130)

 

“Nunca me sei como agora, sentia Lóri. Era um saber sem piedade nem alegria nem acusação, era uma constatação intraduzível em sentimentos separados uns dos outros e por isso mesmo sem nomes. Era um saber tão vasto e tranquilo que ‘eu não sou eu’, sentia ela. E era também o mínimo, pois tratava-se, ao mesmo tempo, de um macrocosmo e de um microcosmo”. (p. 135)

 

“Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos. A solução para este absurdo que se chama ‘eu existo’, a solução é amar um outro ser que, este, nós compreendemos que exista”. (p. 139)

 

“Você enfim aprendeu a existir. E isso provoca o desencadeamento de muitas outras liberdades, o que é um risco para a tua sociedade. Até a liberdade de ser bom assusta os outros”. (p. 141)

Até o próximo post.

 

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6 Comentários

  1. Preciso ler Clarice Lispector. Eu nunca li mais nada além de alguns contos de Laços de Família, e isso desde o ensino médio. Uma vergonha, eu sei.
    Quanto ao fluxo de consciência, só mais recentemente eu passei a ter conhecimento dessa técnica, por ter lido Um teto todo seu, de Virginia Woolf. Ainda tenho muuuito o que aprender sobre esse assunto, rs, mas descobri que Clarice é não apenas uma referência brasileira no que tange o fluxo de consciência, como também uma aprimoradora.
    Que mulher! Hahaha

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Isa! Mulher, nada de vergonha, eu mesma como aluna do 5º ano de Letras nunca li “Memórias póstumas de Brás Cubas” (e um monte de livros) hahaha. O que me afasta um pouco da obra de Clarice é justamente o fluxo de consciência, e acho muito semelhante com Virginia Woolf, tanto que num trabalho no ano passado cheguei a comparar “Mrs. Dalloway (livro muito maravilhoso, inclusive) com o conto “Amor” da Clarice. Aos poucos vamos conhecendo mais e nos conectando com as diversas técnicas e estilos. Bjos

      Curtido por 1 pessoa

  2. […] Tive uma experiência tão diferente com esse livro que não consegui seguir meu modelo de padrão de resenhas, preferindo compartilhar os trechos que mais chamaram a minha atenção na obra: Quotes | Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector. […]

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  3. Ótimo formato de post também! Uma boa maneira de tentar passar o que você sentiu ao ler o livro. Adorei!!
    Boa semana!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Obrigada Tati, fico contente que tenha gostado 🙂 Bom final de semana para vc!

      Curtido por 1 pessoa

  4. […] Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector […]

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