Resenha | Mulheres, raça e classe, de Angela Davis

Oies Bookaholics!

Sabe aquele livro que te ensina tanto que sua vontade é sair compartilhando seus ensinamentos para os quatro cantos? Mulheres, raça e classe se enquadra muito bem nessa categoria! Publicado aqui no Brasil pela Boitempo Editorial, a obra de Angela Davis traça um panorama histórico das questões centrais sobre feminismo, especificamente as bases e justificativas para o feminismo negro.

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Women, race and class – Tradução: Heci Regina Candiani – 2016 – 5/5 ❤

Mais importante obra de Angela Davis, Mulheres, raça e classe traça um poderoso panorama histórico e crítico das imbricações entre a luta anticapitalista, a luta feminista, a luta antirracista e a luta antiescravagista, passando pelos dilemas contemporâneos da mulher. O livro é considerado um clássico sobre a interseccionalidade de gênero, raça e classe. 
Um clássico, para o pensador Norberto Bobbio, é um intérprete único de seu tempo, com tamanha reserva de atualidade que cada época e cada geração têm a necessidade de relê-lo e, ao relê-lo, de reinterpretá-lo. Dessa forma, um clássico cria teorias-modelo com vistas à compreensão da realidade, de tal sorte que consegue até mesmo explicar contextos diferentes daquele em que foi gestado.
O livro Mulheres, raça e classe, da intelectual e feminista estadunidense Angela Davis, amolda-se, com precisão cirúrgica, a essa definição. Publicado em 1981, logo se converteu em referência obrigatória para se pensar a dinâmica da exclusão capitalista, tomando como nexo prioritário o racismo e o sexismo. Ordena-se sobre um arco de temas inescapável para compreendermos o modo de funcionamento das sociedades marcadas pela tragédia da escravidão moderna (o papel da mulher negra no trabalho escravo; classe e raça na campanha pelos direitos civis das mulheres; racismo no movimento sufragista; educação e libertação na perspectiva das mulheres negras; sufrágio feminino na virada do século; estupro e racismo; controle de natalidade e direitos reprodutivos; obsolescência das tarefas domésticas).

 

Sobre a autora Angela Davis

angela davis

Angela Davis é filósofa, professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia e ícone da luta pelos direitos civis. Integrou o Partido Comunista dos Estados Unidos, tendo sido candidata a vice-presidente da República em 1980 e 1984. Próxima ao grupo Panteras Negras, foi presa na década de 1970 e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis”. Autora de vários livros, sua obra é marcada por um pensamento que visa romper com as assimetrias sociais. Dela, a Boitempo publicou Mulheres, raça e classe (2016) e Mulheres, cultura e política (2017).

Fonte: Boitempo Editorial

 

 

Iniciar a leitura de Mulheres, raça e classe após ter lido Amada (Toni Morrison) foi uma experiência muito enriquecedora, já que Angela Davis dedica sua obra a falar majoritariamente sobre as mulheres (negras) no período da escravidão e os desdobramentos pós abolição, tema presente na ficção de Toni Morrison. Angela Davis destaca  Margaret Garner (inspiração para Amada) no capítulo Racismo, controle de natalidade e direitos reprodutivos:

Por que os abortos autoinduzidos e os atos relutantes de infanticídio eram ocorrências tão comuns durante a escravidão? Não era porque as mulheres negras haviam descoberto soluções para as suas agonias, e sim porque elas estavam desesperadas. Abortos e infanticídios eram atos de desespero, motivados não pelo processo biológico do nascimento, mas pelas condições opressoras da escravidão. A maioria dessas mulheres, sem dúvida, teria expressado seu ressentimento mais profundo caso a alguém saudasse seus abortos como um rumo à liberdade. (p. 208)

 

Esse foi apenas um dos pontos considerados mais polêmicos na luta de raça, classe e gênero. E confesso que fiquei surpresa com a forma com que essa obra foi desenvolvida. De todos os livros sobre a temática feminista que já tive contato todos focavam essencialmente nas questões sobre a luta feminista sob um aspecto mais cotidiano e atual. Angela Davis traça de forma detalhada o passado, que são justamente as raízes do nosso presente, explicando de forma didática e numa perspectiva muito crítica os acontecimentos desde o período escravocrata e os movimentos de luta e igualdade de gênero, criticando-os também em diversas situações.

Para realizar um trabalho de análise crítica a autora utilizou de diversas fontes, todas citadas como notas de rodapé, o que mostra o quão engajada foi sua pesquisa e seu posicionamento diante das colocações apontadas. A leitura, por mais didática e acessível que foi, exigiu muita atenção e uma dose de paciência para entender todas as referências que a autora fazia. E digo isso porque é o contexto histórico-social norte-americano que vem sendo tratado, uma realidade e um passado histórico diferente do contexto brasileiro, principalmente no que diz respeito aos movimentos iniciais da luta feminista.

Nesse sentido, um dos pontos que mais chamaram a minha atenção foi o fim da escravidão em solo gringo e de que como as coisas não são necessariamente pensadas no bem-estar social. Muito pelo contrário, para a minha surpresa a abolição foi resultado de interesse econômico do Partido Republicano, que queria mais poder para a região norte do país. A minha surpresa é que se pararmos para analisar, é o Partido Republicano (o mesmo partido do ex-presidente Barack Obama) que geralmente adota uma postura mais progressista de pensamento e ideologia, mas o foi o mesmo que foi contra as demandas revolucionárias da população negra do sul, como o direito ao voto dos homens negros (para as mulheres negras demoraria mais tempo). Pode parecer óbvio, mas pude perceber que nem tudo que é menos conservador significa uma posição favorável na luta de classes, igualdade de gênero e das demais minorias, principalmente quando há diversos interesses capitalistas envolvidos por trás de uma “boa ação”.

E isso se aplica também ao contexto brasileiro ou as categorizações que fazemos do que é direita e esquerda, comunismo e por aí vai….

Por ter uma postura mais voltada ao comunismo, Angela Davis critica muito o sistema capitalista, criticando-o em muitas vezes principalmente por não ter uma postura muito igualitária com as mulheres. Como também as suas diversas críticas pesadas a alguns movimentos sufragistas composto por mulheres brancas que não reconheciam a situação de violência que as mulheres negras sofriam (e até hoje sofrem tanto), visto que “as lutas democráticas da época – em especial o combate pela igualdade das mulheres – poderiam ter sido travadas de modo mais eficiente em associação com o combate pela libertação negra” (p. 78).

As mulheres negras eram mulheres de fato, mas suas vivências durante a escravidão – trabalho pesado ao lado de seus companheiros, igualdade no interior da família, resistência, açoitamentos e estupros – as encorajavam a desenvolver certos traços de personalidade que as diferenciavam da maioria das mulheres brancas. (p. 39)

Mulheres, raça e classe não é uma leitura fácil, não só por conta do não conhecimento do passado histórico a que a autora se refere, as influências religiosas contra a igualdade de gênero, sexismo e racismo, como também aos posicionamentos revolucionários que ela aponta. Este não é um livro que possa agradar a todos, por tocar nas feridas e expor uma realidade que poucos conhecem ou simplesmente ignoram, mas é uma leitura fundamental para desenvolver pensamento crítico.

A escravidão se sustentava tanto na rotina do abuso sexual quanto no tronco e no açoite. Impulsos sexuais excessivos, existentes ou não entre os homens brancos como indivíduos, não tinham nenhuma relação com essa verdadeira institucionalização do estupro. A coerção sexual, em vez disso, era uma dimensão essencial das relações sociais entre o senhor e a escrava. Em outras palavras, o direito alegado pelos proprietários e seus agentes sobre o corpo das escravas era uma expressão direta de seu suposto direito de propriedade sobre pessoas negras como um todo. A licença para estuprar emanava da cruel dominação econômica e era por ela facilitada, como marca grotesca da escravidão. (p. 180)

Com o prefácio da edição brasileira assinado pela autora Djamila Ribeiro fica evidente também com o título do livro a ideia que tanto ambas as autoras compartilham: a interseccionalidade, ou seja, falar de igualdade de gênero tem que considerar também a raça e a classe social, visto que são as mulheres negras que mais estão em posição de discriminação e vulnerabilidade.

Mas as mulheres também sofriam de forma diferente, porque eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a elas. A postura dos senhores em relação às escravas era regida pela conveniência: quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmeas. (p. 19)

E isso se reflete até os dias de hoje, especificamente na realidade atual dos casos de violência contra a mulher e feminicídio no Brasil. Segundo o Mapa da Violência publicado em 2015:

Nos diversos Mapas da Violência em que abordamos a questão da incidência da raça/cor na violência letal, para o conjunto da população, concluímos que: a. Com poucas exceções geográficas, a população negra é vítima prioritária da violência homicida no País. b. As taxas de homicídio da população branca tendem, historicamente, a cair, enquanto aumentam as taxas de mortalidade entre os negros. c. Por esse motivo, nos últimos anos, o índice de vitimização da população negra cresceu de forma drástica.

Fonte: Instituto Patrícia Galvão

 

Até o próximo post.

 

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2 Comentários

  1. […] Que livro enriquecedor e uma admiração chamada Angela Davis! Resenha | Mulheres, raça e classe, de Angela Davis […]

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  2. […] últimos dois anos tenho me interessado bastante pela literatura feminista negra e após ler Mulheres, raça e classe eu fiquei  fascinada pelo trabalho desenvolvido pela ativista norte-americana Angela Davis. Não […]

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