[10 séries para 2019] Atlanta: o talento múltiplo de Donald Glover

Oies Bookaholics!

Começando o desafio de 10 séries para assistir em 2019, a primeira da lista é Atlanta! A série foi produzida pela FX e também está disponível na Netflix.

atlanta

Earnest Marks, mais conhecido como Earn, é um jovem que largou a faculdade para tentar realizar seu sonho de se tornar um rapper. Voltando a morar em Atlanta, sua cidade natal, ele acaba se envolvendo no cenário musical rap quando o primo Alfred Miles começa a fazer sucesso nesta área.

 

Um colega me indicou esta série e eu vinha resistindo desde o ano passado, pensando que focaria muito na música, mas, Atlanta vai muito mais além.

A primeira temporada conta com 10 episódios de 25 minutos em média (adoro esses novos formatos de série) e com episódios que não seguem uma sequência que te obrigue a assistir tudo de forma cronológica. Por mais que os episódios não trazem um gancho para o próximo a narrativa e os personagens são tão envolventes que a gente acaba por maratonar em um único dia.

Por mais que tenha como norte inicial o rap, a série trata muito mais das experiências dos negros enquanto negros numa sociedade racista. O diferente de Atlanta para Dear White People (Cara Gente Branca, outra série que aborda diversos temas sobre negritude) é que a série de Donald Glover não tem um pegada militante sobre a causa dos negros de maneira tão explícita, digo falando propriamente da primeira temporada. Atlanta se desenvolve com muito sarcasmo e um humor mais pesado sobre as práticas racistas do cotidiano, somadas ainda ao dramas inevitáveis inerentes aqueles que são postos à margem da sociedade.

Earn Marks (Donald Glover), representa bem a noção do não privilégio negro. Ele abandona a tão prestigiosa faculdade de Princeton (integrante da Ivy League, grupo das 8 melhores universidades privadas dos Estados Unidos) para se dedicar ao seu sonho de trabalhar no cenário do rap. Cada episódio mostra que não dá para simplesmente mandar o f* e seguir o realmente quer fazer, Earn precisa sustentar a filha pequena e prover seu próprio teto, já que foi expulso da casa dos pais. Alfred Miles / Paper Boi (Brian Tyree Henry), primo mais velho de Earn, representa bem todos os estereótipos de rapper negro: imagem de gângster e traficante de drogas, por mais que ele venha se destacando no cenário musical (com letras um tanto que problemáticas) sempre é visto dentro dos padrões, por mais que alguns se confirmem.   Darius (Lakeith Stanfield) é o personagem mais enigmático que eu já vi. De origem nigeriana  ele parece ser um cara que fala coisas que não tem sentido, e tem ações que também não fazem nenhum sentido, mas traz várias reflexões um tanto que filosóficas sobre a vida e o comportamento humano, principalmente as atitudes racistas.

A primeira temporada seguiu mais com uma apresentação e ambientação da série e eu considerei muito boa, apesar de considerar que não entendi alguns pontos, talvez por conta do humor negro (ruim essa expressão) e a forma como as críticas foram desenvolvidas. Meus episódios favoritos são: Rede Afro-Americana de Televisão, Na Balada, Dia da Abolição, A jaqueta perdida (que se tivesse mais um minuto teria me feito chorar).

Robbin’ Season (Temporada de Roubos)

A segunda temporada teve estreia na Netflix no último dia 02 de março e se tornou uma das melhores séries que eu vi na vida! Diferente da primeira, o tom e a atmosfera dessa segunda temporada é muito mais sombria  e reflexiva. Cada episódio é um soco no estômago! Meus episódios favoritos são: Alguém com grana, Teddy Perkins (OMG!!!!), Ser verdadeiro, O verdadeiro problema, Fubu e Você é a minha família.

Além disso, Lakeith Stanfield, ganha mais destaque na série protagonizando o episódio Teddy Perkins, que faz uma forte crítica à infância de crianças negras famosas que sofreram abusos psicológicos dos pais, como Michael Jackson. O clima de suspense e horror me lembrou muito Corra!, inclusive Lakeith faz parte do elenco do filme maravilhoso do diretor Jordan Peele, que venceu o Oscar de melhor roteiro original em 2018.

No geral eu considerei Atlanta como uma série maravilhosa, que prioriza e conta com basicamente 99,9% do elenco com atores e atrizes negras, e quando algum branco aparece é colocado como personagem com atitudes racistas. A trilha sonora é predominante de rap e do movimento hip-hop (que eu não teria condições de falar sobre), e se percebe também na língua o African American Vernacular English (AAVE), ou o Black Vernacular English (BVE), que nada mais é do que a um jeito específico do inglês falado nas comunidades com predominância de negros, desde a entonação e as gírias utilizadas por seus falantes. 

Outro ponto que vale destaque é que por ser uma série que coloca em evidência a imagem do rapper não há nenhuma, eu disse nenhuma, exposição do corpo feminino. E destaco aqui a atriz Zazie Beetz, que interpreta a personagem Van, com quem Earn tem um relacionamento complicado. Van representa a situação da mulher negra e principalmente as comparações entre mulheres, sobre escolhas, profissão e o ser uma mãe quase que solteira.

 

E como não destacar Donald Glover? Ou Childish Gambino como é mais conhecido depois do clipe maravilhoso e polêmico This is America:

Como artista musical e visual, ao se propor a fazer uma crítica a situação do negro da América do Norte, vítima de eterno abandono, violência e genocídio, mesmo quando suas manifestações culturais são destaque midiático. Ao fazer o vídeo dessa música, Glover se une a artistas como Beyoncé e Kendrick Lamar, entre outros, que estão usando sua voz, estética e criatividade para ressaltar a necessidade de lutas como a do movimento #BlackLivesMatter (vidas negras importam). Conectados a Nina Simone, que questionava: “Como você pode ser um artista e não refletir os tempos?”, essas estrelas vem dando respostas múltiplas sobre como agir em relação a isso.

Fonte: Marie Claire

Ele já ganhou um Globo de Ouro por sua atuação em Atlanta, seriado criado, escrito, produzido, dirigido e (ufa) estrelado por ele. A série – que conta a vida de Earn, um rapaz pobre que largou uma prestigiosa universidade e agora tenta gerenciar a carreira do primo aspirante a rapper – também lhe rendeu dois Emmy, além de outro Globo de Ouro para melhor produção de comédia. Sua carreira musical é outro destaque. A canção Redbone, trilha do premiado Corra!, thriller de realismo fantástico que critica as relações raciais nos EUA, foi vencedora do último Grammy. Redbone, na verdade, é cria de Childish Gambino, o alterego musical de Donald – uma licença que ele usa para cutucar o racismo e a violência da sociedade americana. Seu último álbum vendeu mais de meio milhão de cópias.

Fonte: Super Interessante

O cara é genial, é f*! Além de sua carreira como rapper assumindo o nome artístico Childish Gambino, Donald Glover é ator, roteirista, humorista, diretor e produtor de Atlanta dentre outras séries. O papel de militância na arte se deve principalmente:

Nascido em 1983 em uma base aérea na Califórnia, Glover mudou-se ainda criança para os arredores de Atlanta, onde não é raro encontrar bandeiras dos Estados Confederados, a parte sulista dos EUA durante a Guerra da Secessão, que viraram símbolo conservador e de apoio à escravidão. Lá, o artista cresceu como Testemunha de Jeová, sem televisão, filmes e festas de aniversário, e ouvindo dos pais que o mundo era um “lugar perigoso” (…) Para Glover, o humor e a crueza do seu trabalho são resultado das tragédias que viu acontecer ao redor. Sua mãe trabalhava em uma creche e costumava ajudar as crianças mais necessitadas que via por lá – o que fez com que Glover crescesse cercado de irmãos adotivos, além dos dois biológicos.

Fonte: Super Interessante

 

Mas nem sempre esse artista é reconhecido:

Importante destacar que o sucesso de sua carreira, como cantor, performer, compositor, músico, está totalmente associada à sua ascensão como produtor, ator, roteirista. Sim, Glover é tudo isso, e detém reconhecimento em todas essas áreas, mesmo quando, conforme declarara no início deste ano, se sente boicotado pelo racismo por ser um homem negro, numa indústria que não aceita sua genialidade, produção, e que só alavanca e enaltece brancos (…) As críticas foram fruto de revolta em relação ao Grammy: ao longo de sua carreira, ele foi indicado sete vezes, cinco dessas só em 2018. Glover ganhou em apenas uma ocasião, na categoria melhor performance tradicional de r&b. Vale destacar que vários artistas negros, mesmo sendo indicados em outras categorias deste prêmio, acabam ganhando apenas naquelas destinadas ao que é entendido como “música negra”, o que faz com que haja uma crítica forte ao racismo no Grammy. Isso explica negros como Beyoncé se tornarem muito vitoriosos, mas com poucos ou nenhum prêmio nas áreas de maior prestígio. Mesmo enfrentando barreiras estruturais, Glover é um artista premiado, inclusive em suas outras áreas de atuação.

Fonte: Marie Claire

 

E por fim:

Assim como em Atlanta, o clipe de This Is America vem ganhando uma série de críticas positivas e pautando uma nova forma de negros criticarem o racismo que os torna vítima estrutural, mas não vítimas de si mesmo, ao se esconder no silêncio que os faz sujeitos não ativos de sua própria luta. Glover, como muitos outros artistas, vem mostrando a possibilidade de um ativismo com ética coletiva, não dissociada do seu trabalho mais popular e midiático (…)

Não dá, portanto, para desassociar Glover do afrofuturismo, vide a própria capa de seu álbum, Awaken, My Love!. Enquanto influenciado por esse movimento social, cultural e político, que nasce dos negros que se entendiam distantes da cultura pop, mais próximos de um mundo geek, mas que na ausência de sua representação plena nesse universo, passaram a traçar conexões com suas origens e da diáspora, um olhar novo a partir da tecnologia e da ficção científica. Glover dá indícios disso ao longo de seus trabalhos e escolhas, e fortalece o ideal de que ser um nerd negro não te faz menos negro, sequer menos consciente das lutas coletivas. Em tempos nos quais pessoas negras são usadas para representar e evidenciar coisas ruins (whatup Ye?), é muito bom ver emergir figuras como Glover, que representam novidades, excelência e multiplicidade. Se o futuro também é negro, o futuro é cada vez mais Donald Glover. Yessir.

Fonte: Marie Claire

 

Até o próximo post.

 

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6 Comentários

  1. Donald Glover = crush da vida. Ele é, com certeza, uma das pessoas mais talentosas vivas, não só de Hollywood, mas também do meio musical. Gênio mesmo.

    E o Darius é um dos meus personagens preferidos de todos os tempo. Hahaha

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Brenda! Haha caraca, eu fiquei no chão com essa série, principalmente depois da segunda temporada! Estou apaixonada por esses caras! A cena em que o Darius vai para a aula de tiro foi incrível, vontade de beijar a tela do notebook! rs

      Curtido por 1 pessoa

  2. […] em 2019. Inclusive já comecei com a primeira delas: Atlanta! Inclusive já tem post sobre: [10 séries para 2019] Atlanta: o talento múltiplo de Donald Glover ❤ […]

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  3. […] e o formato de falar sobre a questão racial não me agradaram, isso porque depois de assistir Atlanta, eu tinha outras expectativas. Outro motivo é que o personagem Dre me parecia muito exagerado, e […]

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  4. […] foi uma surpresa ver o Brian Tyree Henry cantando divinamente num episódio,  isso porque em Atlanta ele interpreta um rapper e eu não tinha noção da carreira dele como cantor. Aproveito para […]

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  5. […] por conta do Donald Glover, sim o cara do polêmico / maravilhoso clip This is America e da série [10 séries para 2019] Atlanta: o talento múltiplo de Donald Glover. Não me apeguei tanto aos personagens e a comédia em si, mas o diferencial é que se passa numa […]

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