Resenha | O ódio que você semeia, de Angie Thomas + Considerações sobre o filme

Oies Bookaholics!

The hate u give tem sido um livro tão falado nos últimos dois anos e eu confesso que estava com receio de ser apenas uma febre (ou hype se preferirem) do momento. Mas ainda bem que eu estava enganada.

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The Hate U Give – Tradução: Regiane Winarski – 2017 – Galera Record – 5/5 ❤ 

Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos.
Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente.
Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos – no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início.
Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.
Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.

Eu sabia que essa história mexeria comigo, mas não sabia que seria tanto. O ódio que você semeia traz uma protagonista negra que mora em uma comunidade periférica e presencia o assassinato de seu melhor amigo durante uma abordagem policial. Só com este tema principal vários sentimentos de ódio e indignação me afloraram durante a leitura. Sou negra e apesar de nunca ter presenciado um assassinato convivi com a morte de alguns vizinhos, alguns inclusive mais novos do que eu, no meu bairro, também de periferia. A atmosfera de violência e insegurança fazem parte do meu cotidiano. Já teve épocas que é mais tranquilas e outras muito tensas, e para mim, sair de casa e me relacionar com os meus vizinhos na rua é algo eu evito. Então eu senti muita empatia pelo que estava sendo narrado.

Starr precisa encontrar forças para provar que por Khalil ser negro e possível traficante não justifica o julgamento que recebe, como se sua morte fosse algo normal e aceitável por ele ser quem é e viver onde vive. E mesmo com o meu “contexto”, eu levei um tapa na cara com isso. É fácil criticar aqueles que “escolhem” os caminhos ditos mais fáceis do crime sem levar em conta o sistema que aprisiona, tanto dentro como fora das grades, aqueles que são postos à margem da sociedade. Eu sou uma exceção, por ser a primeira da família a estudar numa universidade pública, meus irmãos são exceção por não seguirem esse caminho. Muitas vezes apontamos o dedo sem aceitar que há todo um sistema que financia armas e drogas a partir da corrupção e daqueles que detém o poder. O mesmo sistema que mais mata negros, principalmente jovens em todo o mundo.

A realidade descrita nos Estados Unidos é semelhante a muito do que se vê aqui no Brasil. Enquanto lia este livro a revolta me veio com o caso de Pedro Henrique Gonzaga, morto no dia 14 de fevereiro por um segurança do supermercado Extra no Rio de Janeiro, muita revolta por ler comentários que já assumiam que o jovem estava roubando, justamente pela cor da sua pele. Como Khalil, Pedro sofreu as mesmas consequências e tratamento por ser negro, tipo de tratamento que um jovem branco não passa. E o mais revoltante é que as pessoas (na maioria das vezes brancas) não entendem o tipo de diferença (racista) que o sistema faz, além dos privilégios que possibilitam melhores condições e oportunidades. 

Assim como na vida real como no livro, esses casos ficam impunes. Como não mencionar o caso Marielle Franco? Quase um ano do assassinato e nada foi feito! É extremamente revoltante. 

Esse é o ponto principal discutido, mas Angie Thomas também coloca sob perspectiva a questão da identidade. Starr e seus irmãos frequentam uma escola fora de sua vizinhança. Com medo da violência, e pensando também na qualidade da educação e em melhores chances para a faculdade os pais matriculam Starr, Seven e Sekani numa escola de classe média alta em que predominam brancos. Apesar da protagonista ter amigos e ser considerada popular ela tenta se moldar, inclusive o jeito de falar, para não demonstrar que na verdade ela pertence ao “gueto”. Sob a narrativa dela, repetidas vezes cita como é difícil manter duas personalidades, negar suas origens e identidade, principalmente após o assassinato de Khalil.

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Um dos melhores livros que li na vida! Tão forte, tão impactante, triste e real. Quantas vidas negras ainda serão ceifadas por conta do racismo e ódio estrutural? . ** Sinopse *** Durante o dia, Starr estuda numa escola cara, com colegas brancos e ricos. No fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia. Ainda muito nova, Starr aprendeu com os pais como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas, Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, sensível e, ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar. . . . #thehateugive #oodioquevocesemeia #angiethomas #Book #Books #Bookaholic #ABookaholicGirl #bookshelf #Instabook #instareading #lendo #bookish #instalibros #ilovereading #libros #instalivros #bookstagram #instaread #LoveBooks #AmoLivros #AmoLer #VamosLer #racismo #BlackLivesMatter ✊🏾

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Tratando do ambiente, podemos ver o quão estes personagens estão imersos em uma atmosfera de terror envolvendo guerra entre gangues, pessoas viciadas em drogas e famílias desestruturadas, incluindo violência doméstica. Ao mesmo tempo em que há uma união entre moradores e como eles passam a se apoiar nos momentos difíceis, mesmo quando são ameaçados pelas gangues.

A família de Starr poderia ser considerada disfuncional. Seu pai, Maverick é um ex-presidiário enquanto era traficante e ainda engravidou outra mulher, resultando no nascimento de Seven. Maverick deixou o tráfico para se dedicar à família, tem uma mercearia no bairro e desde sempre ensinou os filhos sobre a militância, direitos e desigualdade racial. A família materna de Starr não gosta muito de seu pai e há diversos entraves entre Maverick e Carlos, tio de Starr. E tudo complica ainda mais por Carlos ser policial, e por morar num bairro de classe média alta sempre foi um porto seguro para os sobrinhos. Mas a gente pode perceber quanto amor une e sustenta essa família, e como os pais passam para seus filhos princípios, entre eles o respeito.

Angie Thomas também aborda o racismo sob a perspectiva de pessoas brancas que não entendem que como são privilegiadas e ainda que uma brincadeira, um comentário ou piada pode ser uma atitude completamente racista. Sem mencionar os protestos que na verdade eram usados como desculpa para matar um dia de aula.

O livro ainda traz muitos outros detalhes, como o relacionamento interracial e me lembrou muito a série Dear White People (Cara Gente Branca, disponível na Netflix). E com certeza vale muito a pena ler! Se tornou um dos meus livros preferidos da vida!

 

Considerações sobre o filme…

Depois do sucesso do livro tanto aqui como lá fora a adaptação estava sendo muito esperada, mas o filme se tornou uma polêmica pela quantidade mínima de salas exibindo-o. Diversos booktubers e leitores protestaram e fizeram muito barulho nas redes sociais cobrando explicações da Fox, que (não) distribuiu o filme nas salas do Brasil. O lançamento foi tão boicotado que em São Paulo, uma das maiores cidades do país, só rodou em salas de lugares de elite. Um assunto que conversa com diversos jovens brasileiros e teria maior alcance que o livro passou batido e desvalorizado.

Enfim, o filme foi dirigido por George Tilmann Jr. e conta com Amandla Stenberg (Jogos Vorazes, Tudo e todas as coisas) no papel principal de Starr Carter. Como filme eu adorei, conseguiu me tocar muito e ter o recurso visual deixou a história mais sensível e impactante. Os atores estão incríveis e suas interações, principalmente a família de Starr está realmente muito boa. É um filme que dá para compreender sem se apegar tanto ao livro. O único ponto que não gostei é uma das cenas finais com o Sekani, até é compreensível, mas achei que ficou um pouco exagerado.

Destaco também a trilha sonora maravilhosa, que inclui 2Pac, inclusive sua música T.H.U.G.L.I.FE é que inspira o título desde livro. Há muito rap, hip-hop, com Kendrick Lamar

Agora tratando como adaptação a gente entra naquele detalhe de que não dá para transportar todos os detalhes das páginas para a tela e muitas escolhas são compreensíveis. Mas eu senti falta de um maior envolvimento entre Starr e seu tio Carlos, da sua aliança de minorias com Maya, do lado mais possessivo de Seven em relação às irmãs e do relacionamento de Starr e Chris e me incomodou colocarem um romance entre Starr e Khalil. O livro é muito mais profundo.

 

Recomendo tanto o livro como o filme como objetos e meio de reflexão, independente da cor da sua pele e daquilo que você acredita. Já praticou empatia hoje?

 

Até o próximo post!

 

Redes sociais *Skoob/ *Goodreads/ *Instagram/ *Facebook/ * Filmow

 

 

14 Comentários

  1. Ahh, preciso ler o livro e assistir ao filme! Não sabia que não estavam exibindo em muitos cinemas… 😮

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    1. Oies! Ai Isa, infelizmente os filmes que tratam das questões das minorias têm sido boicotados por aqui. O mesmo aconteceu com “Com Amor, Simon”, com um pouco mais de exibição que “O ódio que você semeia”, e até mesmo “Infiltrado na Klan”. 😦

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  2. Afff… eu tenho ficado meio alheia às exibições nas salas de cinema… mas parando pra pensar agora, acho que não é nenhuma surpresa, tendo em vista quem “escolhemos” pra governar nosso país ne :/

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    1. Exatamente! Disse tudo. Acredito que a melhor opção são os serviços de streaming mesmo, além de serem mais baratos que um ingresso de cinema e serem mais acessíveis para todos!

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  3. Eu acho muito importante livros que tratam do racismo ou qualquer tipo de preconceito. Principalmente porque somos bombardeados por comentários e atitudes racista que passam despercebidos. Infelizmente tenho vários amigos e familiares que sempre soltam comentários do tipo: ‘tinha que ser preto’, ‘olha lá o viadinho’ (desculpe pela palavras). Essas pessoas não entendem que isso não é legal, não é apenas um comentário, é um preconceito enraizado na sociedade que separa as pessoas por conta de sua cor ou opção sexual (e isso não faz o menor sentido).
    Por isso livros e filmes como esse são importantes. Por exemplo, o filme Pantera Negra. Eu não conseguia entender o porque de tanta importância sobre esse filme até refletir que eu sempre vi filmes onde os heróis eram brancos, então a questão de ser representado nunca foi uma questão. Eu sempre fui representado e ponto, isso é normal, já está enraizado, é o status quo. Mas quando um negro se vê representado em um herói, isso é a desconstrução de um estereótipo. Me colocando no lugar do outro, eu entendo que ser representado faz toda a diferença, visto que assim sou visto como um igual.
    Eu sei que não consigo mudar a cabeça das pessoas ao meu redor, mas o que posso fazer e faço é mostrar para as minhas filhas (loiras e de olhos azuis) que elas têm um lugar privilegiado sim. Além de educá-las para tratar qualquer ser humano como igual, pois assim ele o é. As educo para saberem que cor de pele e opção sexual, por exemplo, são questões irrelevantes quando se trata do caráter e da personalidade das pessoas.
    Excelente resenha.
    Grande abraço.

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    1. OIes Gabriel! Nossa, muito feliz por ver seu posicionamento. São poucas as pessoas brancas que entendem como são privilegiadas e não sentem empatia nenhuma por não conhecer e/ou fingir conhecer as violências e discriminações que nós negros recebemos, assim como os lgbtq+. Falta sensibilidade 😦

      Obrigada pela visita!

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  4. Esse filme é muito bom! Vi no início do ano e desde então tenho procurado palavras pra me expressar e fazer uma resenha sobre ele mas o seu ficou INCRÍVEL, sério! Vou tentar ler o livro também (: Te segui no seu Insta, lindo por demais

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    1. Oies! Pesado né? Fico feliz pela visita e pelo comentário 😉 O livro é ainda mais profundo e desenvolve outras temáticas, vale muito a pena! Muito obrigada pelo apoio e por ter gostado da resenha, significa muito para mim ❤ Te segui de volta no Insta! 🙂

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  5. Oie! Quero muito ler o livro e ver o filme. Acho um absurdo um filme com uma temática tão importante ter uma distribuição tão pequena. Amei sua resenha. Me deixou com mais vontade ainda de ler o livro 🙂

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    1. Oies! Olha, é revoltante mesmo! Mas fé que as coisas vão mudar, e o medo dessa transformação gera esse tipo de boicote. Assim que possível leia o livro e veja o filme, e depois vou querer saber a sua opinião, viu? 😉

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  6. […] Um livro que se tornou um dos meus preferidos da vida! Foi um desafio ler no original principalmente por conta das gírias e expressões mais cotidianas específicas, mas depois do choque inicial deu para levar numa boa. Li o livro e também assisti ao filme, e estou viciada na playlist ❤ Resenha | O ódio que você semeia, de Angie Thomas + Considerações sobre o filme. […]

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  9. […] realizei durante esse período de quarentena. Eu estava com muito receio de ler esse livro porque O ódio que você semeia foi uma das melhores leituras que fiz na vida e não queria me decepcionar com o segundo romance de […]

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