Diário da Faculdade | As disciplinas que cursei no 7º semestre

Oies Bookaholics!

Meu intuito era falar sobre esse assunto antes, mas muita coisa aconteceu: eu comecei a estagiar na própria USP (confiram: Diário da Faculdade | Estudar e trabalhar na USP: minhas vivências no campus, teve greve e muito estresse, já que o 7º semestre mal terminou emendou o 8º. Ah, e uma observação: a duração prevista do curso de Bacharel em Letras é de 5 anos, e não 4, como na maioria dos cursos de Licenciatura em Letras.

Eu já devo ter mencionado alguma vez por aqui que eu não tenho um currículo fechado de disciplinas no curso de Letras, claro que eu tenho uma quantidade de matérias (entenda-se aqui também nº de créditos) ditas obrigatórias do Português-Inglês, já que faço dupla habilitação. Conforme o curso se desenvolve essas matérias obrigatórias vão diminuindo e aí eu preciso cumprir uma quantidade de disciplinas optativas (eletivas e livres) para conseguir me formar. Por isso, nem todo mundo que se forma no curso de Letras da USP sai com o mesmo nível de conhecimento e matérias vistas, já que além da organização por habilitações, há opção de concentrar o curso em três focos: linguística, literatura e tradução.

Como eu sou apaixonada por literatura sempre optei procurar por disciplinas com esse foco, aproveitando a disponibilidade de ter contato com diferentes literaturas além da portuguesa / brasileira / inglesa, trabalhando-as também a partir da teoria e crítica literária, o que me leva a falar sobre o que eu vi no meu 7º semestre durante o primeiro semestre de 2018. Por estar em um período de adaptação optei cursar apenas 4 disciplinas, para não acumular muito conteúdo (e consequentemente estresse).

 

  • Teorias do texto: enunciação, discurso e texto

Apresentar aspectos teóricos e práticos da língua portuguesa, para que os profissionais da área de Letras sejam capazes de compreender a produção do texto escrito, fornecendo-lhes instrumentos para a pesquisa e o ensino de português.

Essa foi a última disciplina obrigatória do Português que precisei cursar e no começo eu não gostei muito. Eu tinha altas expectativas, mas achei que a forma que o curso foi desenvolvido não me agradou, infelizmente. Por tratar de interpretação de textos o professor até que levantava discussões interessantes e relevantes trazendo para a sala de aula alguns exemplos práticos do cotidiano, incluindo memes e situações que geram debate nas redes sociais. Mas, as aulas pareciam tão entediantes, eu até tento não pegar ranço para não desanimar e segui lendo os textos do programa, que focaram basicamente em Émile Benveniste e Mikhail Bakhtin por conta da greve.

Eu fui mal numa prova que focava interpretação de texto e acabei fechando com a nota mínima para passar. Mas, como sou chata, aproveitei a oportunidade que o professor colocou para quem quisesse melhorar a nota ou quem tinha ficado de recuperação e fui fazer outra avaliação. Mudei totalmente minha estratégia de estudo, passei a resolver várias questões sobre interpretação de texto, em vez de ficar focada em termos específicos dos textos teóricos. Refiz os exercícios da sala de aula e foi sucesso, já que na prova de recuperação eu fechei com 9,5, (pena que o professor fez a média das duas notas hahaha). No final, realmente entendi que o objetivo da disciplina é apontar a opacidade que um texto tem, isso inclui imagens, músicas, etc, tanto que usei um outro conceito que estudamos sobre assujeitamento na minha resenha de Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie.

 

  • Leituras do Cânone I

A disciplina visa oferecer ao aluno uma visão abrangente daquela que é considerada a grande tradição do romance em língua inglesa e discutir as questões envolvidas na formação desse cânone. Procura ainda acompanhar a história da formação e consolidação do gênero em seus momentos principais. O programa prevê a leitura de obras de romancistas canônicos ingleses do início do século XVIII até a metade do século XIX. A disciplina tem como objetivo contextualizar para o futuro professor a história do romance e dar-lhe condições de compreender as questões de forma e de conteúdo que lhe permitam uma leitura informada do gênero na sua trajetória.

Essas aulas são muito densas, mas eu gosto muito de como a professora consegue aprofundar tanto nos assuntos. A ideia era trabalhar os romances: Robinson Crusoé (Daniel Defoe), Pamela (Samuel Richardson), Tom Jones (Henry Fielding, Uma viagem sentimental (Laurence Sterne uma morte trágica durante a leitura, confesso), A abadia de Northanger (Jane Austen), O morro dos ventos uivantes (Emily Brontë) e Grandes Esperanças (Charles Dickens). Não preciso nem citar que nem teve condições de ver tudo, mesmo porque a professora pedia que lêssemos os romances que fossem dedicadas a partir de duas aulas (que eliminava apenas os três primeiros), além dos textos teóricos como guia: Terry Eagleton (The English Novel), Ian Watt (The Rise of the Novel), Michael McKeon (Generic Transformations), entre outros. O primeiro (e considerado apenas o único trabalho do semestre) deveria ser trabalhar uma hipótese central de um romance do século XVIII que não estivesse no programa (espero que tenham percebido o volume de leitura) e escolhi O diário do ano da peste de Daniel Defoe, em que meu foco principal foi abordar a questão da fé durante a narrativa (e que a professora não gostou muito), ainda utilizei como base o livro maravilhoso Dez lições sobre o romance inglês do século XVIII, da Sandra Vasconcelos (aka the professor herself).

 

  • Correntes Críticas I

Estudo das principais teorias literárias do século XX, numa perspectiva histórica, crítica ou comparativa, com o objetivo de propiciar ao aluno uma formação ampla e consistente para a fundamentação de sua atividade como leitor, crítico e professor de literatura.

Essa disciplina optativa é oferecida pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada e acaba variando muito do professor que ministra o curso. O foco que o meu professor (#TeamSamuelTitan) optou foi o que ele chamou de crise do romance, ou a crise da narrativa nesse gênero. Expondo o contexto histórico universal a ideia da crise tinha como proposta trabalhar a perspectiva de Georg Lukács (A teoria do romance, 1916), Mikhail Bakhtin (Epos e Romance, 1936), Walter Benjamin (O narrador, 1936), Erich Auerbach (Mimeses, 1946) e Theodor Adorno (A posição do narrador no romance contemporâneo, 1951), mas por conta da greve ficamos apenas no primeiro livro inteiro (e pensei que fosse morrer com a leitura, mas o professor foi “traduzindo” a filosofia durante as aulas rs) e alguns pontos do segundo texto. Apesar de que os textos citados de W. Benjamin e T. Adorno são estudados desde o primeiro semestre, então não era lá uma novidade de tanto que é citado na sala de aula…

O trabalho final consistia em analisar, com luz às discussões desses autores, uma cena de O pai Goriot (Gustave Flaubert) ou Mrs. Dalloway (Virginia Woolf). O trabalho também dava a possibilidade de comparar os dois livros ou até mesmo de usar cenas diferentes do mesmo romance e explorar um tema. Minha escolha foi a segunda obra por preferir a literatura inglesa à literatura francesa, mesmo porque como tenho mais contato com os estudos britânicos. O professor trazia diversos aspectos sobre as duas obras, como o contexto histórico, a estrutura narrativa e o desenvolvimento do roteiro, além de comparar esses elementos entre um livro e outro. O melhor foi que eu amei Mrs. Dalloway, li e reli durante dois dias, consegui marcar um plantão com meu professor para apresentar minhas ideias para o trabalho (tem vários professores que se colocam para atendimento tirando dúvidas e orientando para provas e trabalhos), ouvi as suas orientações e provocações e me desdobrei durante a greve para escrever tudo o que eu queria e achava que era plausível. O trecho que escolhi foi este:

Como ela queria isso! – que as pessoas parecessem contentes de vê-la, Clarissa pensou e virou-se e andou de volta para a rua Bond, irritada, porque era bobo ter outras razões para fazer as coisas. Ela preferiria de longe ser uma dessas pessoas como Richard que fazia as coisas por si mesmas, ela pensou, esperando para atravessar, enquanto metade do tempo ela não fazia as coisas simplesmente, não por si mesmas; mas para fazer as pessoas pensarem isto ou aquilo; o que era uma perfeita idiotice, ela sabia (e agora o policial levantou a mão), já que ninguém se deixava enganar nem por um segundo. Ah, se ela pudesse ter sua vida de volta!, pensou, pisando na calçada, tudo poderia ser muito diferente! Ela teria sido, em primeiro lugar, morena como Lady Bexborough, com uma pele lustrosa e belos olhos. Ela teria sido como Lady Bexborough, lenta e imponente; um tanto grande; interessada em política como um homem; com uma casa no campo; muito digna; muito sincera. Em vez disso ela tinha o porte de um palito franzino; um rostinho ridículo, bicudo como o de um pássaro. Que ela tinha um belo porte era verdade; e tinha mãos e pés bonitos; e se vestia bem, considerando que ela gastava pouco. Mas muitas vezes, agora, esse corpo que ela vestia (parou para olhar um quadro holandês), esse corpo, com suas capacidades, parecia nada – nada de nada. Ela tinha a sensação estranhíssima de ser invisível; despercebida; ignorada; não voltaria a casar-se, não teria mais filhos agora, mas apenas esse progresso surpreendente e bastante solene com o resto deles, na rua Bond, sendo a Mrs. Dalloway; nem mesmo mais Clarissa; sendo ela a Mrs. Dalloway. (WOOLF, 2016: p. 12)

Aqui desenvolvi principalmente a ideia da mulher na sociedade (mesmo que uma mulher de classe alta de elite que ainda assim tem uma posição privilegiada se comparada à realidade de muitas outras), tanto pelo seu papel de esposa e mãe, como pelo aspectos físicos e a negação de seu próprio corpo e sua imagem diante da sociedade. Isso me fez pensar no conto Amor (Clarice Lispector) e utilizei para uma análise comparativa, além de todos os textos teóricos do programa e ainda o sociólogo Stuart Hall (A identidade cultural na pós-modernidade). Utlizei outro trecho para falar do duplo e das diferenças e semelhanças entre Clarissa Dalloway e Septimus Smith, um ponto de extrema importância na obra e que eu acho que não poderia ficar de fora. Eu não me senti muito satisfeita com a avaliação do trabalho, mas depois conversando com o professor entendi melhor o seu feedback. Ah, caso não tenham visto, fiz resenha do romance  Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf 😉 Acho que essa disciplina foi mais fácil depois de ter visto muito do contexto da formação do gênero romance nas disciplinas de Introdução ao romance e Leituras do Cânone I, apesar de que no inglês eles consideram Robinson Crusoé como o primeiro romance enquanto nas demais habilitações Dom Quixote (Miguel de Cervantes) é o pioneiro…

 

  • Prosa Russa I

Fornecer ao aluno um quadro geral da evolução da língua literária e da renovação dos gêneros próprios da prosa de ficção, a partir do estudo analítico de obras de autores representativos do final do sec. XIX e início do XX. Iniciá-lo nas teorias e técnicas da tradução literária.

Eu simplesmente amei essa disciplina! ❤ Eu sempre ouvi muito sobre a qualidade da literatura russa e não tinha noção de por onde começar a ler. As aulas focaram muito no contexto histórico, a importância de Pedro, o Grande com a abertura da Rússia para a Europa, recebendo as diversas influências, principalmente a francesa (como em todo o mundo) e as questões das guerras principalmente ideológicas entre os russos autênticos e os europeus. O mais engraçado de estudar essa disciplina foi que estávamos próximos à Copa do Mundo da Rússia e acompanhei vários vlogs da Dani Nocce no país, sério, deu para ter muita noção das coisas passadas na sala de aula, rs. E as aulas eram maravilhosas (obrigada Mário Ramos ❤ ).

Nessa disciplina o foco era trabalhar os gêneros conto, novela e romance (poesia é trabalhada na disciplina de Introdução à Literatura Russa), e o professor traçou um panorama indo desde o primeiro conto publicado em russo Pobre Liza (Nikolai Karamzin), passando por A. S. Púchkin (A filha do capitão), Nikolai Gógol (Almas mortas que não gostei, rs) e por fim o ápice e prestígio da literatura russa Fiódor Dostoiévski (Os irmãos Karamázov). Apesar de não termos chegado ao último, foi muito interessante perceber o quanto essa literatura com aspectos russos conseguiu se consagrar mundialmente em tão pouco tempo, menos de 100 anos, as obras também possuem muitas marcas do romantismo europeu e passaram a se desenvolver com seus próprios traços, alterando os modelos até então padronizados, e que se firmaram principalmente no realismo russo, o perfil gogoliano com o rebaixamento e a impostura, e a polifonia de Dostoiévski, como aponta Mikhail Bakhtin, entre outros aspectos.

Apesar de estar amando a disciplina eu agradeci por ter a greve, senão eu não ia conseguir dar conta de tudo! Além de ler todos os romances indicados, inclusive os dois volumes de Os irmãos Karamázov, tinha que entregar 3 resenhas sobre textos teóricos, apresentação de um seminário sobre algum conto e a prova final (isso porque ainda estava cursando outras disciplinas). Por fim, não teve seminário e nem aulas sobre a obra de Dostoiévski (que eu nem cheguei a iniciar a leitura), a entrega das resenhas eu tinha deixado em dia e a avaliação final foi muito tranquila. Eu quero muito fazer Prosa Russa II, especificamente com este professor!

 

Por fim essas foram parte das disciplinas que cursei durante o 4º ano do curso, e em breve sai post sobre as demais que compuseram o 8º semestre 😉 Escrever sobre isso me dá uma sensação de alívio tanto por ver que o quanto me estressei nas avaliações finais como ao perceber que falta poucos créditos para finalizar a graduação (e quem sabe metade do estresse), assim seja!

 

Até o próximo post!

 

armesan Cheese

 

 

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2 Comentários

  1. […] dos posts que rolaram nesse mês foram o de 8 Metas para 2019 e Diário da Faculdade | As disciplinas que cursei no 7º semestre. Os posts sobre filmes e séries sairão em breve, […]

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  2. […] a falar sobre como foi o meu quarto ano no curso de Letras (confiram também: Diário da Faculdade | As disciplinas que cursei no 7º semestre) hoje vou me dedicar a detalhar alguns pontos do 8º semestre, o que eu considero um dos melhores […]

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