Diário da Faculdade | O ambiente tóxico da USP

Oies Bookaholics!

Nessa semana eu encerrei o 8º semestre no curso de Letras e acho que depois de 4 anos posso falar mais abertamente sobre o ambiente é tão tóxico, e digo isso pensando justamente nas relações pessoais. Eu costumo sempre trazer uma imagem positiva sobre a USP, porque para mim é a realização de um sonho, mas conforme as minhas experiências vi o quanto várias coisas foram uma decepção.

Vamos lá estou escrevendo o que penso e às vezes pode soar um pouco confuso, mas nem sei se vou revisar… Mesmo porque chega o final do ano e a gente fica refletindo sobre ar merdas vividas e que depois que elas passam a gente consegue finalmente falar porque não machuca mais como antes.

Quando eu iniciei o curso em 2015 um mundo de possibilidades se abriu para mim, principalmente no que diz respeito às novas ideologias e meu posicionamento político. E na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) essa é uma temática que ganha proporções e intensidades gigantescas, eu entrei naquele universo pensando que poderia ajudar a transformar o mundo de alguma forma. Entendi que a minha voz tinha valor. Até que tive a minha primeira decepção: as assembleias promovidas pelo Centro Acadêmico (tipo o grêmio estudantil no ensino médio). Na época eu não trabalhava e participava de várias atividades, comecei a conhecer diversas pessoas e me enturmar, até que durante uma assembleia eu falei contra um “cadeiraço”. Várias pessoas foram debater o que eu tinha falado, gritando comigo e outras até pararam de falar comigo. O que eu percebi e que se estende para diversos contextos políticos? Que tipo de discussão política é aquela que você só aceita quem tem a mesma opinião que você?

Eu tento me dedicar ao máximo, abro mão de várias coisas, de descanso e de lazer e por ser perfeccionista fico mal quando não fecho bem uma semestre. E para deixar claro, mal pra mim, geralmente é fechar com uma nota abaixo de 8, okay pode até parecer não fazer sentido e até soar dramático, mas cada um reage de uma forma e infelizmente eu sou assim. Na última semana de aula em que eu precisei entregar 3 trabalhos e realizar uma prova eu mal dormia de tanta ansiedade, por mais que a matéria estava toda sob controle. E isso me leva a falar sobre os professores. Já presenciei diversos comportamentos autoritários. Há diversos professores que na verdade nem deveriam estar numa sala de aula. Não possuem didática alguma e fazem questão de humilhar e expor alunos. E outros até que desmerecem a jornada do aluno que está lá para aprender. Esse ano eu tive uma crise justamente por isso. Nunca pensei que fosse ter a infeliz experiência com um professor depois de mais de um ano trabalhando com ele. Fiquei mal, me senti desqualificada e inferior, até cheguei a pensar que nada valia a pena ou fazia sentido, que aquele lugar eu trabalhei tanto para chegar não era para mim.

As notas também acabam gerando um ambiente de competição. Eu era extremamente imatura e competitiva no ensino fundamental e médio. Odiava fazer trabalho em grupos porque não confiava no potencial das pessoas. Eu era extremamente insuportável (hoje me considero apenas chata, rs) e o que me ajudou a mudar a minha relação com as pessoas foi o curso técnico em Administração que fiz na ETEC. Mas antes de mais nada preciso deixar claro como eu sou e no que eu penso para vocês terem uma noção do porquê algumas coisas acabam me atingindo tanto. Eu não sou tímida e consigo conversar facilmente com qualquer pessoa, mas amizade mesmo eu não tenho tantas e na verdade não prefiro. Apesar de conhecer várias pessoas, conversar com muitas eu prefiro passar meu tempo e fazer as minhas sem depender de ninguém. Não gosto de dar trabalho, sabe? Eu tenho dificuldades de me adaptar a novas rotinas e pessoas, de confiar e de entender.

Bom, na Letras comecei a conhecer muitas pessoas porque não temos uma turma fechada que vai do início ao fim, são turmas por matérias. Teve uma pessoa do meu círculo de relações que soltava diversos comentários ácidos, como eu era privilegiada por trabalhar apenas 6 horas por dia e ela trabalhava 9, que eu tinha tempo para assistir os eventos e palestras, e ela fazia questão de ficar competindo por nota. Tipo, oi? Pra quê isso? Eu não vou nem entrar no mérito de privilégios ou não já que o meu lugar de fala é o de mulher/negra/pobre de periferia, acho importante destacar isso não para entrar numa disputa de quem é menos privilegiado, mas também porque às vezes as pessoas acham que por você estudar na USP você obrigatoriamente é rico/esquerdista/maconheiro sem ter noção do que você sacrifica para estar ali, para tentar não só mudar a sua realidade e a da sua família, como de se tornar um professor melhor que transforma a realidade de seus futuros alunos.

Acabei me desentendendo com outras pessoas que faziam parte da minha convivência e fui me afastando de todos. Eu tenho o péssimo hábito de ser uma pessoa rancorosa (sou canceriana e talvez te ajude a entender), se a pessoa pisou na bola comigo e continua fazendo eu simplesmente me afasto e não quero mais contato. E outro detalhe, eu costumo me envolver muito com aquilo que eu faço. Eu não vejo problemas em ajudar, passar uma informação, compartilhar um texto um evento ou seja lá o que for, contando que a pessoa tenha o mínimo de respeito e empatia por mim também. Digo isso porque tinha gente que só falava comigo em véspera de prova ou entrega de algum trabalho, pessoalmente passava por mim e fingia que não me via.

Claro que tenho algumas amigas com que eu converso e consigo passar um pouco do que eu sinto, tentamos nos ajudar. Sou muito grata por elas e acho que elas sabem bem disso. Mas geralmente as pessoas tentam mostrar o quão intelectuais elas são, mostrando de forma pedante quantos livros elas já leram ou o quão alta estão as suas notas. Ao mesmo tempo em que discutem por coisas pequenas nas redes sociais.

Esse ambiente estava me sufocando e eu fui me cansando. Chegava na faculdade porque ia direto do estágio e me enfiava num canto para estudar sem fazer questão de conversar com ninguém. Saía poucos minutos antes de começar a aula, comia alguma coisa e pronto. A pressão, muitas vezes por mim mesma, por bons resultados, ainda me causa insônias, dor no estômago e estresse. Todo início de semestre parece ser um ciclo vicioso em ter que fechar bem, conseguir dar conta de tudo e mesmo quando estou de férias fico pensando em já adiantar algumas leituras do semestre que vem. Eu cogitei desistir no ano passado ou pelo menos trancar, mas minha mãe conversou comigo e tentou me acalmar. Passei a me dedicar totalmente nas disciplinas, estudar mais ainda com o objetivo de me formar. Não me importava mais em manter uma relação com vários colegas e nem discutir ações para melhoria do curso contra o desmanche da universidade. Ah, mas vocês podem perguntar: Mas não foi você quem escolheu isso? Chego a conclusão que só quem passa e vive algo no que acredita vai entender os sacrifícios que precisa pagar. Acho esse desgaste como algo louvável? Depois de um tempo não mais, e fico me perguntando o tempo todo sobre o quanto a meritocracia é uma merda!

Nesse ano, especificamente no segundo semestre, mudei de turno (confiram: Diário da Faculdade | Saí do noturno e fui para o matutino, o que mudou?) e parece que não ver as mesmas pessoas foi um alívio de certa forma. Novos ares, sabe? Tive uma conversa com um professor que me levou às lágrimas (e escrevendo esse post estou chorando novamente). Ele me fez enxergar e aprender a valorizar toda a minha jornada, a reconhecer quem eu era e de onde vim. A comemorar cada pequena vitória e conquista durante esses 4 anos a reconhecer o quanto eu cresci e evolui nesse período. Isso vindo de um professor que tive no primeiro ano. E isso veio no momento certo. Sei que não é bom a gente depender de comentários dos outros para se sentir bem, mas essa conversa veio em um momento certo em que eu estava tão desacreditada do meu potencial e do que iria fazer quando o curso acabasse.

Mas para esse post não servir apenas como um muro de lamentações acabei o semestre com o feedback de dois professores incríveis! E com um deles vou desenvolver dois projetos em 2019! Mal consegui dormir com essas possibilidades e quando tudo estiver oficializado compartilho por aqui.

Com isso quero finalizar dizendo que muitas coisas me decepcionaram, saí frustrada em diversos momentos, chorei muito. A USP tem um ambiente tóxico para o nosso emocional? Sim! Eu estou bem, tenho pessoas ao meu redor que estão prontas para me ajudar e dizer que tudo vai ficar bem. Já recebi apoio de quem menos esperava. Não quero cagar regras para dizer o que é melhor ou não.

Eu apenas sigo seguindo…

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Até o próximo post!

 

armesan Cheese

 

 

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12 Comentários

  1. O seu relato é libertador, sabe? Eu entendo perfeitamente o que sente e o que passa. Também sou como você no quesito me envolver e buscar fazer o melhor em tudo o que ponho a mão. E também ouço muitas críticas tipo: “para que você quer tirar 10 em tudo, um 7 já está bom”, e por aí vai. Enfim, aprendi ao longo dos anos que devemos prestar contas apenas à nossa consciência, pois ela é que é importante, e nos acompanhará por toda a vida.
    Sobre os professores, eu tenho um breve comentário: eu trabalho em uma Universidade Federal (CEFET-RJ), e posso te dizer com certeza que as universidades prezam por doutores, se eles são bons professores não importa, sem generalizar, até porque conheço excelentes professores universitários, mas como o processo seletivo busca o título, e não a experiência em sala de aula, acontece de encontrar tipos como esse que você citou.
    Você está de parabéns por superar os obstáculos que te foram impostos. Conseguiu e conseguirá, certamente, alcançar seus objetivos. Nada está distante quando temos vontade de alcançar.
    Você é uma pessoa do bem, e seu sucesso é mais que merecido.
    Efusivas palmas para você.
    Grande abraço.

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    1. Gabriel eu nem sei o que te dizer! Uau, obrigada pelo carinho e apoio ❤ Olha, é complicado e fico feliz por não ser a única que pensa dessa forma, de se dedicar totalmente a algo. E sobre os professores, disse tudo! O foco é formar pesquisadores, e estes por obrigatoriedade tem que dar aulas, mesmo sem vocação alguma. 😦 Espero que os próximos meses sejam melhores, meu psicológico agradece muito! Hahaha. Aproveitando, te desejo um feliz natal com muita paz! 🙂 Cah

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  2. Eu AMO seus textos sobre a faculdade. Você consegue passar a realidade desse lugar, sem exageros, sem dramas; apenas a realidade. Admiro muito seu trabalho e adoro ler suas conquistas também. Parabéns!
    E força, pode não parecer mas falta pouco. E sim, uma hora acaba sim!

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    1. Oies! Ahh, você quer acabar comigo, né? rs ❤ Nossa, fico muito grata pelas suas palavras, seu apoio e motivação. Ninguém disse que seria fácil, mas receber motivação dessa forma faz toda a diferença! Muito obrigada mesmo! Muita força nesses próximos meses para você tbm! Aproveito para te desejar um feliz natal repleto de paz! Bjos da Cah! ❤

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  3. Os caminhos das letras nunca foram fáceis. Beijos

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    1. Infelizmente preciso concordar com isso! Bjos ❤

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  4. Caraca, deu para sentir o que você estava sentindo (ou ainda está). Eu só estou começando nesse mundo, mas já consigo entender esse seu desabafo. Na minha sala mesmo, tem tanta competição, desavenças… Ninguém ajuda ninguém. Ou então só te ajuda até certo ponto porque você jamais pode estar acima deles. Tenho um professor, que toda vez que saio da sala, no fim da aula, quero chorar. Ele sempre faz com que eu me sinta burra, incapaz de prosseguir. Esperava que por ser alunos de Psicologia, encontraria pessoas mais empáticas, mas é o de sempre. Já me senti inferior várias vezes, por ser bolsista e pelo comportamento de alguns… Sempre bate aquela vontade de matar hihi mas (ADOREI ISSO), eu apenas vou seguindo…

    A cada post que leio, te admiro ainda mais Camila. Você é uma mulher extremamente forte, um exemplo. Por favor, mesmo chorando, continue nos escrevendo. Faça disso aqui sua catarse. E assim, os iniciantes ou até mesmo os que já estão na reta final como você, saberão que não estão sozinhos.

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    1. Geo! Eu nem sei o quanto te agradecer por tanto amor em suas palavras, sabe? ❤ ❤

      Mulher, é foda! Eu não sei se é a gente que entra na universidade tão ingênua e acaba se iludindo, porque grande parte do estresse é lidar com pessoas que não tem o mínimo de noção, de educação, sejam professores ou alunos. Mas olha, tenho aprendido que o foda é que somos o tempo todo pressionados e cobrados para ter um nível alta de conhecimento, isso desde o vestibular (que já não coloca em igualdade todos os alunos) e continua no curso. Independente das adversidades e dos sentimentos negativos, saiba que eu torço muito por você. E conta comigo, nem que seja para chorarmos juntas! rs ❤ ❤

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      1. Obrigada ❤

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  5. […] via Diário da Faculdade | O ambiente tóxico da USP — A Bookaholic Girl […]

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  6. Super me identifiquei com o relato da sua experiência enquanto discente universitária. Curso Enfermagem, estou no 5º semestre, passei e passo por situações extremamente semelhantes a sua. E o fato de sermos pessoas que se dedicam, muito autocríticas, perfeccionistas, tanto colegas quanto professores não nos veem com bons olhos. Os colegas, por não suportarem o nosso bom desempenho, alguns professores, por não se sentirem confortáveis com alunos questionadores. No meu caso, a universidade é particular, por isso tem muitos docentes indicados por amizade e não por mérito e competência e quando o aluno faz alguma reclamação acaba sendo “marcado” pelos professores e criticado pelos colegas de sala. Fiquei muito frustrada com o ambiente acadêmico, mas não vou desistir. Obrigada por compartilhar sua experiência.

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    1. Oie… Nossa, fico triste em saber da sua experiência e parece que infelizmente essas práticas tóxicas estão presentes em qualquer ambiente universitário, particular ou público…. Por mais que seja difícil, é bom mantermos o foco para não desistir dos nossos objetivos. Porém, eu fico feliz que desde a publicação desse post eu encontrei colegas cooperativos e professores maravilhosos, principalmente na Licenciatura. Ainda, fiz parte de um projeto para a publicação de um livro e a experiência foi incrível por conta do professor que fugia totalmente desse padrão de “autoridade”. Espero que na sua jornada as coisas mudem e vc encontre pessoas que valem a pena, que te encorajam e acreditam no seu potencial. Força aí, viu? ❤ 🙂

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