Resenha | Você tem a vida inteira, de Lucas Rocha

Oies Bookaholics!

Esse livro foi uma das minhas compras impulsivas durante a Bienal do Livro e tinha até me arrependido ter comprado até lê-lo. Você tem a vida inteira é o primeiro romance do autor Lucas Rocha e foi publicado pela Galera Record.

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Galera Record – 2018 – 288 Páginas – 5/5 ❤

As vidas de Ian, Victor e Henrique se encontram de uma forma inesperada.
Ian conhece Victor no dia em que recebe o resultado de seu teste rápido de HIV. Os dois são universitários. Victor está envolvido com Henrique. Ian está solteiro. Os três são gays. Dois deles têm a vida atingida pela notícia de um diagnóstico positivo para o HIV. Um não tem o vírus. Um está indetectável. Dois estão apaixonados. Henrique é mais velho e, depois de Victor, pensou que poderia acreditar de novo em alguém. Victor têm medo do que o amor pode trazer para a sua vida. Ian sequer sabe se será capaz de amar. Os três são, ao mesmo tempo, heróis e vilões de uma história que não é sobre culpa, mas sim sobre amor, amigos e sobre como podemos formar nossas próprias famílias.

Eu estava muito receosa com esse livro porque não conheço nada sobre o autor, mas seguindo o conselho da Gui Liaga (Agência Página 7) que me convenceu a comprar o livro na Bienal e ainda autografar porque o autor estava no stande da editora. Então primeiramente agradeço a Gui por esse livro ser nada menos que incrível! ❤

Assim que comecei a leitura de Você tem a vida inteira pude perceber que a escrita era diferente, acolhedora e envolvente. Em pouco tempo estava tão absorvida na história e no que os personagens estava vivendo que na cena em que Ian e Victor interagem após o resultado do teste de HIV eu quis chorar junto. Não tinha lido nem 10 páginas ainda! E o desenvolvimento da história mostrou a qualidade do trabalho do autor. A construção dos personagens, suas experiências e relações, e os diferentes ambientes tornaram a história riquíssima, sem deixar nenhuma ponta solta. E como de costume em livros desse gênero há diversas referências às filmes, séries, livros e músicas!

Ao trabalhar com 3 perspectivas diferentes para contar as histórias que se entrelaçam foi uma aposta que acertou em cheio, pois fica evidente a diferença entre cada um dos protagonistas e dos problemas específicos de cada. Ao mesmo tempo em que essa tripla narrativa tem um objetivo claro: poder mostrar três visões diferentes sobre o vírus HIV, portadores e não portadores. Se tivesse sido escrito com apenas uma perspectiva, o livro não teria o mesmo impacto. O leitor consegue ter uma visão mais ampla do assunto, porque tem acesso tanto ao preconceito e julgamentos como as angústias e sofrimentos de quem passa por isso e é alvo frequente de culpa e do ódio de uma sociedade que tem veem essas pessoas como uma praga impura que quer disseminar uma doença sem cura.

Por lidar com assuntos tão pesados que não ficam somente na visão somente da orientação sexual, que por si só já é um tabu, Lucas Rocha é didático ao abordar a temática. Percebe-se que o autor pesquisou muito sobre o assunto e até fez um trabalho de campo para traçar da melhor maneira possível vários parâmetros. E justamente por ter tanto preconceito sobre ele explica detalhadamente o processo da doença e como funciona o tratamento, assim como a importância do SUS, já que no Brasil o tratamento e acompanhamento são realizados de forma gratuita. Eu levei vários tapas na cara porque não tinha ideia de muitas coisas, principalmente aquele julgamento padrão de apontar a falta do uso da camisinha. Ao mesmo tempo em que aborda a necessidade do uso de métodos contraceptivos, evitando aquela sensação de que nunca vai acontecer comigo, entenderam?

Você acha que eu ão fiquei aterrorizado quando descobri meu diagnóstico? Você acha que não passei uma semana inteira pensando que aquilo era uma punição divina e que eu merecia? Medo é o meu nome do meio Victor, mas uma coisa que aprendi ao longo desses anos foi que o medo não é um monstro de quinze metros de altura para o qual eu tenha que me curvar. Tenho medo todos os dias: medo dos resultados dos meus exames mudarem, medo de alguma merda acontecer com a política e os medicamentos pararem de ser distribuídos, medo de ter um corte na boca e beijar alguém com outro corte na boca, medo de contar para alguém que tenho HIV e essa pessoa simplesmente sumir, como eu achei que você sumiria. Como você chegou a fazer por algumas semanas. (p. 172)

E claro que por ter essa temática tão necessária outro ponto essencial gira em torno da relação sorodiferente, ou seja, uma pessoa com o vírus e a outra sem. Achei interessante que o livro não foca apenas nos cuidados que os parceiros devem tomar, mas principalmente os sentimentos envolvidos, principalmente o medo e o preconceito nesse tipo de relação.

Essa é a parte ruim desse vírus: a gente nunca sabe qual var ser a reação das pessoas. Eu já ouvi histórias de gente que lida muito bem com o fato de estar em uma relação sorodiferente, e queria muito ser uma dessas pessoas que fala para você que o vírus não é um problema e que encontrei o amor da minha vida, mas não tive muita sorte nos últimos três anos. (p. 71)

Como vocês sabem (ou não) eu não gosto muito de histórias com coisas mirabolantes e sim narrativas que tratam da realidade trivial e comum do cotidiano. Os protagonistas são descritos dessa forma, eles trabalham, fazem faculdade, alguns tem um ótimo relacionamento com os pais, outros saíram de casa por conta se relacionarem com pessoas do mesmo gênero e não receberam aceitação da família. Além de lidarem com o vírus, são pessoas comuns com suas vidas comuns em lugares comuns, ou seja, poderia ser qualquer pessoa e não uma aberração ou anomalia.

É importante destacar também a importância dos amigos e de pessoas de confiança. A presença desses amigos é algo muito forte para os personagens. O apoio que eles passam, a motivação e até mesmo o confronto são mais eficientes muitas vezes que a relação com a própria família de sangue. É possível notar que a amizade é verdadeira e não só para os momentos bons, principalmente nos momentos de maior angústia e fragilidade em que as adversidades e problemas parecem não ter saída. Contando até com a ajuda de um grupo de drags!

Esse livro é extramente necessário e essencial por tratar de temas tão importantes e pela responsabilidade em cada página. Quebrando diversos preconceitos e desconhecimento sobre o assunto, Lucas Rocha também mostra que a literatura nacional feita por jovem e para um público jovem tem qualidade, competência e respeito às diferenças, sejam elas quais forem. 

Até o próximo post!

 

armesan Cheese

 

 

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4 Comentários

  1. […] 1. Sem coração (Marissa Meyer) 2. O lado real do abstrato (Caroline Fortunato) 3. Você tem a vida inteira (Lucas Rocha) 4. Aconteceu no natal (Bárbara de Sá) 5. Todas as cores do natal ( 6. Bom ano (Pam […]

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  2. […] tornou um dos meus preferidos da vida! Resenha | Você tem a vida inteira, de Lucas Rocha ❤ […]

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  3. […] o diálogo com dois autores que eu adoro: Lucas Rocha e Iris Figueiredo ❤ O livro dos dois Você tem a vida inteira e Céu sem estrelas, respectivamente, tratam muita das questões familiares. Também tive a […]

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