Feira Miolo(s) 2018: A Feira da Arte Gráfica na Biblioteca Mário de Andrade

Oies Bookaholics!

Depois que frequentei a edição Feira Miolo(s) 2017) fiquei bem ansiosa para a edição desse ano! Organizada pela Editora Lote 42 em parceria com a Biblioteca Mário de Andrade, a Feira Miolo(s) reúne mais de 150 editoras independentes e uma programação com 12 horas de duração, desde venda de livros e produtos, como palestras e músicas. Tentei aproveitar bem o evento que conta não apenas com venda de livros de editoras independentes, palestras e música. Apesar das palestras não me atraírem tanto como no ano passado, o pouco do que vi me trouxe perspectivas diferentes, novos olhares.

Como de costume, na semana antecedente à feira aconteceu o Esquenta Miolo(s), com palestras e oficinas sobre produção de livros com modelos diferenciados do que os livros comuns. No primeiro dia conferi um pouco da oficina da Iara Pierro com a temática A materialidade do livro de literatura: entre o visível e o invisível, que trazia um panorama das mudanças que o livro de literatura sofreu ao longo dos séculos. Esse foi o tema desenvolvido por ela na sua pós-graduação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) e alguns aspectos foram bem interessantes. Com um olhar mais didático a Iara compartilhou, a partir de diversas imagens para ilustrar os tipos de papeis, acabamentos, fontes, mancha gráfica dos livros (que confesso me cansou um pouco, rs). Ela ensinou, dentre outras coisas, que o livro de literatura não era pensado com um design gráfico diferenciado, principalmente por conta do modo de leitura imersiva desse gênero. Por envolver texto em prosa, uma leitura concentrada e linear que requer atenção, o objeto livro tinha como necessidade um design neutro que não tirasse a atenção do leitor. Até o século XIX os livros “impressos” não tinham capa e eram escritos a mão, e nesse sentido, a palestrante falou sobre como os desenhos refletem a macha do texto. O fólio, uma folha dobrada uma única vez que rende 4 páginas (e depois chegando até mesmo a 32 páginas) era o modelo utilizado para compor os livros, mas não havia separação de parágrafos, a mancha era mais densa e mais usada em livros religiosos. Com a Revolução Industrial houve grandes transformações nesse processo e o começo da industrialização do papel, ao mesmo tempo que a popularização dos livros crescia, uma crítica também era presente, já que era sentida uma queda da qualidade em comparação aos livros artesanais. Com a importância dos aspectos textuais para melhor compreensão do texto, a partir do século XX a aparência do livro em complemento ao texto e um novo pensamento como a se desenvolver: livros para serem lidos, vistos e tocados. A palestrante destaca editoras que revolucionaram o mercado recentemente, como a extinta Cosac Naify, Lote 42 e Editora Carambaia. A Mariana também foi e compartilhou algumas coisas nos stories dela 😉

 

Já no dia da Feira Miolo(s) presenciei mais duas palestras. A primeira tinha como tema O livro cartonero como objeto de resistência, e a editora Lúcia Rosa nos apresentou alguns trabalhos com livros de papelão, sim, livros produzidos com papelão. Uma das ações desenvolvidas é o projeto Dulcineia Catadora:

O coletivo Dulcinéia Catadora foi iniciado em 2007 após dois meses de trabalho colaborativo de Lúcia Rosa e Peterson Emboava com integrantes do Eloísa Cartonera durante a 27 Bienal de São Paulo. Atualmente, funciona dentro de uma cooperativa de materiais recicláveis em São Paulo, Brasil e conta com a participação ativa de Andreia Emboava, Maria Dias da Costa, Eminéia dos Santos e Agata Emboava que trabalham diariamente na reciclagem, e Lúcia Rosa. Edita livros de poesia, de prosa, assim como trabalhos de artistas contemporâneos brasileiros. Os livros são confeccionados por catadoras de papelão e outros profissionais que participam do coletivo. O Dulcinéia tem como ponto fundamental a sustentabilidade, baseando-se numa estratégia de geração de renda que consiste em vender os livros e repassar para as catadoras que os elaboraram o valor da venda, descontados os custos produção.

Lúcia explica que a febre dos livros cartoneros se dá pelo baixo custo do material (papelão) e a criatividade que pode ser trabalhada, além da propagação de diferentes estilos culturais nos desenhos dos livros produzidos em diferentes países. Lúcia também aponta que os livros cartoneros são uma maneira de resistência, o poder fazer, contra o próprio mercado editorial. Para ela esse meio é uma sobrevivência da literatura em meio às impossibilidades das editoras convencionais, proporcionando a liberdade do fazer e do pensar, além da troca de experiências e resistência quando se trabalha com pequenos grupos em uma cooperativa. Nessa perspectiva, a editora conta que a literatura em si já é de difícil acesso, com dificuldade com a leitura para aqueles que tem pouca instrução principalmente, e o trabalho que tenta desenvolver em comunidades carentes com catadores é um trabalho mais sensível e gradual de aproximação. As feiras independentes servem tanto como termômetro sobre as produções de livros independentes no país como traz uma nova perspectiva do espaço. Os catadores desenvolvem uma nova relação com a sociedade, numa mudança de invisibilidade ao trabalharem catando lixo a serem reconhecidos como autores. ❤ Outros exemplos exibidos foram os projetos trabalhados no Rio de Janeiro, como o do morro da Previdência, que também trabalharam a reivindicação do espaço, conhecimento de lugares que nunca foram e um espírito de cidadania. As exposições em museus também proporcionam o diálogo com o público e transmitem uma mensagem, dando voz aos marginalizados (no sentido que estão colocados à margem da sociedade). Além disso, Lúcia também pontua que os livros são utilizados como arma de resistência em suas ocupações, dando força aos não mais silenciados.

A segunda palestra que tive o prazer de estar presente foi Sebastião Nunes: Delirante lucidez. O design gráfico Gustavo Piqueira organizou uma mostra e escreveu um livro sobre o poeta Sebastião Nunes, que também estava presente e compartilhou com o público sua jornada na publicação de livros independentes: as dificuldades, a censura na época da ditadura, suas inspirações para produção de seus livros, sua rápida amizade com Clarice Lispector e outras curiosidades. O autor foi o grande homenageado da Feira Miolo(s) 2018 e achei louvável evidenciar o trabalho de alguém enquanto ela ainda está vivo:

A Miolo(s) deste ano presta homenagem ao trabalho do poeta mineiro Sebastião Nunes. Autor de uma produção literária original e combativa, ele escreveu, ilustrou, diagramou, produziu e distribuiu seus livros pela própria editora, a Dubolso. Há 50 anos, ele vale-se de diferentes elementos e suportes, como desenhos, colagens, fotografias, folhetos, envelopes e cartazes. Vai da absoluta desconstrução do objeto livro a formatos ultratradicionais. Bacharel em direito na UFMG (mas sem ter exercido a profissão), ele antecipou em muitas décadas algumas tendências consolidadas na produção atual, como o financiamento coletivo. nasceu em 1938, na cidade de Bocaiúva, em Minas Gerais, e continuou produzindo arte impressa até hoje. 

 

Circulando pela feira pude perceber bem marcada a ideia de resistência apontada por Lúcia Rosa: a produção feminina e feminista, a raça, a diversidade e sexualidade expressas em diversos trabalhos. Mesmo com preços um tanto salgados para meu bolso, mas justificável pelos trabalhos artesanais desenvolvidos, a Biblioteca Mário de Andrade estava cheia, sendo um pouco difícil circular em diversos momentos, revelando a importância e o nicho desenvolvido no mercado editorial. Enquanto se vê tanto a crise nas livrarias tradicionais, as feiras de livros independentes e produções de resistência conquistam cada vez mais espaço com força e muita resistência.

  Até o próximo post!   armesan Cheese  

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4 Comentários

  1. Ah! Deve ser muito bom participar desses eventos. Achei bem interessante este projetos dos livros cartoneros♥

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oies Gio! Ah mulher, fico babando pelo trabalho e pelas histórias por trás de cada produto ❤ ❤ Bjos da Cah!

      Curtido por 2 pessoas

  2. […] Feira Miolo(s) 2018: A Feira da Arte Gráfica na Biblioteca Mário de Andrade […]

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