Resenha | Um milhão de finais felizes, de Vitor Martins

Oies Bookaholics!

Vitor Martins prova mais uma vez que a temática lgbtq+ na literatura não é só bem vinda, mas necessária. Após Quinze dias, seu primeiro romance, o autor volta com uma história ainda mais tocante sobre diversidade. Um milhão de finais felizes foi publicado nesse ano pela editora Globo Alt e se tornou um dos meus livros preferidos do ano! ❤

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Globo Alt – 2018 – 352 Páginas – Young Adult – 5/5 ❤

Jonas não sabe muito bem o que fazer da vida. Entre suas leituras e ideias para livros anotadas em um caderninho de bolso, ele precisa dar conta de seus turnos no Rocket Café e ainda lidar com o conservadorismo de seus pais, sua mãe alimenta a esperança de que ele volte a frequentar a igreja, e seu pai não faz muito por ele além de trazer problemas. Mas é quando ele conhece Arthur, um belo garoto de barba ruiva, que Jonas passa a questionar por quanto tempo conseguirá viver sob as expectativas de seus pais, fingindo ser uma pessoa diferente de quem é de verdade. Buscando conforto em seus amigos (e na sua história sobre dois piratas bonitões que se parecem muito com ele e Arthur), Jonas entenderá o verdadeiro significado de família e amizade, e descobrirá o poder de uma boa história.

 

Um milhão de finais felizes ou UMDFF traz tantas coisas para serem discutidas que nem sei por onde começar, rs. Mas vou tentar organizar a linha de raciocínio para tentar convencê-los de conhecer a história de Jonas e se apaixonar também. Há várias questões que você pode se identificar e até se sentir representado. A primeira coisa logo de cara é que esse livro tem a temática lgbt, que para mim que sou hétero me fez compreender as angústias e problemas que gays (entenda-se aqui também lésbicas, trans etc).  Em tempos em que há tanta homofobia histórias como essa, voltadas para um público mais jovem, dá um quentinho no coração e nos ensina sobre respeito e resistência. A própria construção de Jonas como gay desconstrói vários estereótipos e visão preconceituosa de promiscuidade.

Houve uma curta fase na minha vida em que tentei mudar. Eu tentei não ser gay, não olhar para os meninos bonitinhos da escola e pensar que beijá-los não seria má ideia. O esforço de tentar mudar a minha cabeça era tão exaustivo que, num determinado ponto da adolescência, eu apenas aceitei que eu era assim. Não foi o tipo de aceitação que deixava a gente aliviado. Aceitar que eu sou gay significou aceitar que eu vou para o inferno e viver constantemente com medo da morte. Esse tipo de pensamento não me assombra com tanta frequência como antes, mas ainda existem noites em que, antes de dormir, eu olho para o teto e penso que, em algum lugar, existe um Deus que está extremamente desapontado comigo. (pp. 29-30)

A infância e adolescência de Jonas em um ambiente religioso marca a intolerância por parte das igrejas, e nesse caso a igreja evangélica, revela um posicionamento ainda mais problemático. A mãe do protagonista ao mesmo tempo que desenvolve um trabalho mais solidário e de amor à obra de Deus sofre com um marido extremamente conservador e machista dentro de casa, bem aquele típico homem branco conservador, e a lidar com um filho que não atende mais às suas expectativas. Por esse lado eu me vi muito representada. As passagens no livro que tratam disso era como se eu visse um filme da minha vida. Aceitar algumas atitudes e achar que tudo irá se resolver com oração é muito tenso (e ilusório?!).

Religião é algo muito complicado, e minha experiência numa igreja evangélica dos meus 13 aos 26 anos trouxeram diversas decepções, mas se funciona para você e te faz bem fico feliz! Fazer parte do corpo de Cristo foi se tornando cada vez mais sufocante, minha vida e meu círculo de amizades, meus compromissos e responsabilidades eram totalmente dedicados a igreja. Fui a diversos retiros e acampamentos, reuniões, cultos e ensaios por conta do ministério de dança (que até hoje sinto muita falta). Mas sempre enxerguei várias atitudes questionáveis e chegou uma hora que se tornou insuportável lidar com tanta hipocrisia e pressão para ter uma vida de dedicação quase que totalmente exclusiva às atividades da igreja. Questionavam até o fato de eu ler tanto coisas que não eram a bíblia e por eu fazer faculdade. Tudo que fazemos precisa de um equilíbrio e infelizmente a igreja estava me consumindo demais, abandonei há quase 2 anos e não me sinto tão culpada e “desviada” como antes. Assim como Jonas é complicado lidar com uma mãe que espera e ora por você achando que você irá voltar, e também fui algumas vezes só para deixá-la feliz, ou menos triste. Complicado mostrar que eu não sou uma pessoa pior por não frequentar mais, e o pior, ver que somente as verdadeiras e poucas amizades que fiz de lá continuaram.

Me desculpem o desabafo!

Além disso, Jonas com 19 anos sente aquela pressão que a sociedade impõe sobre cursar uma faculdade, conquistar seus bens e essa ideia de sucesso dos “novos adultos”. Eu acho faculdade importante sim, mas ao mesmo tempo penso que a nossa vida não é só isso, mesmo porque se formos considerar que faculdade é garantia de vaga de emprego estamos bem iludidos (e muito fodidos!). Jonas se sente diminuído por não cursar faculdade e nem ter ideia do que quer estudar. Seu horizonte parece bem limitado ao se ver trabalhando de domingo a domingo como atendente em uma cafeteria na Av. Paulista para ter um pouco de autonomia e ajudar nas contas de casa, enquanto vê seus amigos estudando e saindo de casa. E quem não passa por essa crise dos vinte e poucos (quase 30 no meu caso) e sentir que pouco conquistou e que não fez metade das coisas que tinha pensado que faria? Jonas aspira ser um escritor, mas só anota suas ideias possíveis de histórias em um caderninho, sem de fato sentar e  escrever um história com começo, meio e fim.

Piratas Gays é a história que Jonas desenvolve, então além de termos a história principal, temos uma outra história dentro da história. Eu não gosto do gênero fantasia, e fiquei apreensiva e até demorei para começar a ler UMDFF por conta disso. Mas essa história me deixou empolgada com o desenvolvimento e se intercalava muito bem com as demais passagens sobre a vida de Jonas. Não senti que quebrava o ritmo da narrativa principal e senti que as duas histórias ficaram bem equilibradas. O autor conseguiu transpor as inseguranças, os processos de narrativa e escrita que escritores vivem, e é ótima oportunidade para aqueles que também têm o desejo de escrever suas próprias histórias e talvez esteja perdido sem nenhuma direção.

Aproveito esse momento para destacar o amadurecimento da escrita do autor em relação a seu primeiro livro. A narrativa em primeira pessoa é extremamente envolvente, nos fazendo adentrar na história rapidamente, além de ficar com a impressão de não ver o próprio autor como o protagonista da história que está nos contando. A ambientação, predominante em São Paulo, com os perrengues de quem depende de trem/metrô, além dos detalhes como os meteoros de queijo, os barzinhos e baladas da cidade cinza são pequenos detalhes que agregam ricamente a proposta de Vitor Martins. Os personagens são muito bem trabalhados e aqui a definição de amizade ganha um valor que dificilmente se vê. Danilo (negro e gay), Isadora (lésbica) e Karina (gorda e japonesa) trazem em suas diversidades e experiências de vida bagagens tão pesadas, deixando um gostinho de quero saber mais e seria um sonho ver esses personagens com suas histórias próprias numa série? Sim! ❤ Por ter vários momentos tensos e dramáticos na história há também passagens mais descontraídas, e o alívio cômico é Danilo, sem nenhuma dúvida. rs

Sobre o romance posso afirmar que desde Bella e Edward não tinha “shippado” com tanta força um casal. Jonas e Arthur são extremos em diversos sentidos, mas principalmente por conta das desigualdades financeiras. Enquanto Arthur tem uma vida toda estruturada, morando em um apartamento com os pais numa região rica da cidade, tem seu próprio carro, faz faculdade e estágio somente pela experiência, Jonas tem a árdua missão atravessar o mundo indo e voltando de e para Santo André. Porém, além do sentimento que um sente pelo outro, ambos tem seus próprios problemas no relacionamento com os pais. E como você sabem (ou não) eu adoro livros que trazem histórias com dramas e conflitos familiares!

Eu não posso prever o futuro,e  ninguém tem felicidade garantida pro resto da vida. Pode ser que amanhã as coisas piorem. Pode ser que você ganhe na loteria e as coisas melhorem mais ainda. A gente não tem controle de nada. Mas você não pode deixar essa falta de controle te impedir de viver o agora. (p. 253)

E mesmo com tantas coisas ruins acontecendo e uma perspectiva indefinida do futuro próximo, o livro deixa uma mensagem de esperança, e isso já basta.

Eu te amo e tenho certeza de que, mesmo passando por tanta coisa ruim na vida, você ainda guarda um milhão de finais felizes aí dentro. (p. 332)

 

E por fim, as fotos para relembrar o evento do lançamento…

 

Até o próximo post!

 

armesan Cheese

 

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10 Comentários

  1. Oie.
    Eu quero muito ler coisas do Victor Martins porque gosto de acompanhar ele no YT. A história parece ser emocionante. E amo um livro com boas reflexões.
    Bela resenha.
    Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Jessica! Ahh, eu sou muito suspeita para falar, mas não me decepcionei com nenhum dos livros dele até agora, muito pelo contrário! Espero que goste tbm, e quando ler me diga o que achou 😉 Bjos

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  2. Você não é a primeira a falar tão bem desse livro! Mas com certeza é a que mais esmiuçou, dos reviews que eu andei lendo por aí. Esse livro já está na ninja lists Dr desejos desde a primeira vez que ouvi falar dele, rs, mas é sempre bom a gente se deparar mais e mais com resenhas e opiniões que confirmam que determinado livro vale a pena, ainda mais de autores nacionais, que este ano tenho tentado ler um pouco mais.
    Eu gosto quando a pessoa traz uma análise também de um livro refletindo sobre a própria experiência, como você fez, porque nos lembra como a leitura realmente é uma ferramenta muito válida e importante para se criar empatia, então não se preocupe se acha que está só desabafando. Não é por aí que vejo as coisas, e certamente outras pessoas pensam como eu. Tudo isso só enriquece a sua leitura e o seu senso crítico. Obrigada por mais essa linda resenha! Bjs

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ahh Isa! Fico extremamente feliz por ter gostado da minha resenha e dos pontos que levantei 🙂 Acho que quando um livro nos toca tanto fica meio difícil não falar sobre, rs. Confesso que eu tinha muito preconceito com a literatura nacional, mas alguns livros tem me feito repensar meus conceitos, ainda bem! Quando ler me diga o que achou, okay? Obrigada pelo apoio ❤ Bjos da Cah!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Ei, Jéssica! Muito bacana a sua resenha. Somos novas nesse mundo de “blog” e estamos aprendendo, aos poucos, trabalhar com a criação de conteúdos para a web. O livro parece muito interessante e o mais legal de tudo (a cereja do bolo) foi a foto final, em que você aparece com o autor. Bem legal essa sensação, né? Poder ficar pertinho de quem produziu a obra. Enfim, seu blog é uma inspiração.

    Se der *e puder, depois dá uma olhadinha no que estamos produzindo por aqui: https://blogdachloeb.wordpress.com/ adoraríamos saber a sua opinião e ter algumas dicas também.

    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Sejam bem vindas! Fico feliz por terem gostado do conteúdo aqui ❤ Vou conferir o blog de vocês 🙂 Bjos da Cah! 😉

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  4. […] Ah, esse livro precisa muito ser espalhado por todo o canto! Resenha | Um milhão de finais felizes, de Vitor Martins ❤ […]

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