Resenha | Kindred – Laços de sangue, de Octavia E. Butler

Oies Bookaholics!

A resenha de hoje se dedica à leitura de Kindred – Laços de sangue, da autora Octavia e. Butler, publicado no Brasil, com exclusividade, pela Editora Morro Branco. O livro me conquistou, não só pela temática da escravidão, mas pelo gênero de sci-fi (ficção científica) que não estou habituada a ler.

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Kindred – Editora Morro Branco – 2017 – Ficção Científica – 432 Páginas – 5/5

Sinopse: MAIS DE MEIO MILHÃO DE CÓPIAS VENDIDAS NO MUNDO. 

Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça. Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida… até acontecer de novo. E de novo. Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil – um lugar perigoso para uma mulher negra –, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado.

Um dos motivos de eu não gostar de livros de fantasia e alguns de ficção científica é porque eles trabalham com o nosso imaginário, o que agrada a muitos, diferente de mim que tem dificuldades em “aceitar” que o está sendo narrado é verossímil. Mas, Kindred mudou a minha perspectiva, e acredito que não só pela temática que é desenvolvida, mas também pelos elementos de sci-fi trabalhados pela dama Octavia E. Butler. A história conta com o recurso da viagem no tempo, mas o diferencial de Kindred é que não há necessidade alguma máquina para que as viagens acontecerem: a protagonista Dana sente tonturas e é transportada para o século XIX no sul dos Estados Unidos, fugindo do seu tempo atual, o ano de 1976.

Mas, apesar de ser uma leitura envolvente, foi ao mesmo tempo uma história que me trouxe muito mal-estar. Ao colocar o protagonismo de sua história numa mulher negra, fugindo dos padrões, a  autora não poupa detalhes da vida dos negros durante o período de escravidão, desde o trabalho extenuante, os castigos que mostram claramente a mutilação do corpo assim como as humilhações sofridas. Dana ao vir de um tempo em que os escravos foram libertos se vê indignada, mas impotente para mudar a situação à sua nova realidade.

Já tinha visto pessoas serem surradas na televisão e nos filmes. Já tinha visto sangue falso nas costas delas e ouvido gritos bem ensaiados. Mas não havia ficado perto e sentido o cheiro do suor nem ouvido as súplicas e as orações das pessoas humilhadas diante de suas famílias e de si mesmas. Eu provavelmente estava menos preparada para a realidade do que a criança que chorava não muito longe de mim. Na verdade, ela e eu estávamos reagindo de modo muito parecido. Meu rosto estava banhado em lágrimas. E minha mente ia de um pensamento a outro, tentando me desligar das chibatadas. Em determinado momento, essa covardia extrema até trouxe algo útil. Um nome para os brancos que atravessavam a noite no Sul pré-guerra, derrubando portas, surrando e torturando negros. (p. 59)

Poderia até citar outras passagens que mostram a tortura, ou até mesmo a condição das mulheres que eram abusadas e estrupadas pelos seus “donos”, os filhos bastardos que tinham, assim como as vendas dos seus filhos como se fossem mercadorias, um produto que poderia dar lucro ou prejuízo aos fazendeiros. A relação entre Dana e Rufus, o menino que ela salva no rio,  se torna cada vez mais problemática conforme ele cresce, e acho que aqui vale a frase de Rousseau de que o homem nasce bom mas o meio (a sociedade) o corrompe, como se o a sociedade escravocrata dominada pelo homem branco não desse oportunidade dele ser algo diferente do que o esperado naquele meio, mesmo que os demais escravos tenham alertado Dana. E confesso que por alguns momentos, mesmo entendendo a a importância de sangue da conexão deles, não por acaso o termo kindred do título remete à família, aos parentes; era difícil entender a compaixão que Dana tinha por Rufus e suas atitudes a favor dele, mesmo sendo tão machucada (fisicamente) por isso.

Por essa questão de detalhar os maus causados pela escravidão, a autora consegue trazer aos seus leitores a realidade daquela época, e não só no contexto norte-americano que também é muito semelhante ao que aconteceu no Brasil, bem como as influências que deixaram para o povo negro até os dias atuais. Na época em que o “presente” é narrado, o ano de 1976, há ainda as marcas da escravidão, desde o relacionamento de Dana, uma mulher negra com seu esposo, um homem branco e não aceito pelos familiares dela. Ou ainda o preconceito que os negros sofrem por conta do racismo, e da imagem que passam pela cor de sua pele.

Percebe-se que a autora soube trabalhar com muito cuidado pontos específicos de sua história para dar verossimilhança aos acontecimentos que narra, desde uma forma diferenciada da linguagem do século XIX, não só dos negros mas da população em geral, já que a língua (independente do local) sofre transformações ao long do tempo. E até mesmo a marca sutil da diferença dessa linguagem nos livros daquela época, como ela cita os livros de viagens daquela época, como Robinson Crusoé de Daniel Defoe. E por falar em livros, a autora também chama a atenção para os nomes bíblicos dos filhos dos escravos, que muitas vezes significam a liberdade, Hagar, por exemplo, personagem retratada em Gênesis.

Outro ponto que gostei muito é que a autora nos conta como Dana e Kevin se conhecem, mostrando as condições precárias que os escritores enfrentam para manter seu sonho de ser autores reconhecidos e publicados, sendo necessário trabalhar em empregos desumanos, mal tendo o que comer, nem o apoio da família que achava melhor que estes sonhadores se mantenham em empregos mais tradicionais e consolidados do que uma vida incerta.

Octavia E. Butler é uma autora que eu espero que tenha mais espaço em solo brasileiro e que através de seus livros possamos ter mais contato com as questões dos negros para compreender melhor que a questão do racismo é algo que continua porque teve origem nas raízes da escravidão, porque se o objetivo é incomodar com a realidade do que aconteceu (e que por vezes ainda acontece) e trazer mal-estar seu objetivo foi claramente alcançado comigo.

 

Até o próximo post!

 

A Bookaholic Girl (2)

 

 

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6 Comentários

  1. Cá, já dá pra adicionar esse livro ao projeto. Fiquei curiosa pra ler 🖤

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    1. Aeee, que bom que gostou! 🙂

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  2. […] Autora revelação e que já me conquistou, confiram: Resenha | Kindred – Laços de sangue, de Octavia E. Butler ❤ […]

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  3. […] Não chorei, mas cheguei bem perto, rs. Resenha | Kindred – Laços de sangue, por Octavia E. Butler. […]

    Curtido por 1 pessoa

  4. […] R$ 15 R$ 19,33 R$ 19,33 R$ 19,33 R$ 26 R$ 15 R$ 35 R$ 23 R$ 23 R$ 10 R$ […]

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