Resenha | Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf + Considerações sobre o filme

Oies Bookaholics!

A resenha desse post destina-se à leitura que se tornou uma das minhas leituras favoritas da vida de todos os tempos. Mrs. Dalloway da autora britânica Virginia Woolf  é um dos grandes clássicos da literatura mundial e ganhou um espaço na Coleção Folha Grande Nomes da Literatura, ocupando o número 10, dos 28 clássicos.

Este livro também fez parte de uma das leituras obrigatórias da faculdade, especificamente na disciplina de Correntes Críticas I, e se não fosse por isso, esse livro teria ficado por mais um tempo abandonado na minha estante. Eu gostei tanto da leitura que não consegui parar de ler. Fiquei dois dias lendo e relendo algumas passagens e até marquei uma reunião rápida com o meu professor para conversar sobre a obra e tirar algumas dúvidas. E ele foi um amor, me chamou a atenção para algumas coisas específicas, principalmente por conta da ideia que tive para o trabalho.

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Mrs. Dalloway – Coleções Folha – 2016 – Clássicos – 190 Páginas – 5/5 ❤ 

Sinopse: Em Mrs. Dalloway, livro publicado em 1925, Virginia Woolf (1882-1941) emprega algumas das técnicas narrativas às quais deve sua posição de grande renovadora do romance do século XIX, ao lado de Marcel Proust e James Joyce. Não é mera coincidência, aliás, que o romance da escritora inglesa se passe inteiramente num único dia de junho, assim como Ulisses, de Joyce. Esse recurso, que no escritor irlandês confere conotações épicas à vida do homem comum, adquire na narrativa de Virginia Woolf uma incomum densidade psicológica. Do momento em que sua protagonista sai de casa para comprar flores (pois dará uma recepção em casa à noite) até o momento em que acontece a festa, desenham-se paisagens mentais que envolvem questões ou hesitações existenciais de Clarissa Dalloway e das personagens que refletem seus fantasmas amores do passado, homossexualismo, sequelas da guerra, loucura, banalidade cotidiana. São os fantasmas que se materializam ao longo desse dia, tanto no plano da ação romanesca quanto nos fluxos de consciência e na temporalidade cinematográfica (flashbacks e cortes alternando os pontos de vista das personagens), que fazem de Mrs. Dalloway um retrato interior de sua época.

 

Desmitificando a ideia de que o fluxo de consciência é uma leitura difícil

Sempre que ouvia falar na obra de Virginia Woolf ficava apreensiva, já que depois de ler Profissões para mulheres e outros artigos feministas , livro de ensaios e discursos em palestras, e A Marca na Parede e Outros Contos , histórias mais breves, eu pensei que no romance eu teria mais dificuldades em absorver a complexidade e intensidade da autora. Mas para a minha surpresa, Mrs. Dalloway não foi para mim um leitura difícil por conta do fluxo de consciência, ou seja,  uma técnica literária em que se procura transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de ideias. Revelando um aspecto mais subjetivo que para mim ainda é uma “tortura” durante o processo de leitura, torcendo o nariz erroneamente para autores que escrevem suas obras a partir desse processo. Muito pelo contrário, foi justamente o fluxo de consciência que me deixou tão fissurada na leitura, a fim de compreender as aflições em que os personagens estavam imersos.

 

Afinal de contas, quem está falando em Mrs. Dalloway?

Outra técnica que a autora utilizou com perfeição foi utilizar na narrativa em 3ª pessoa o discurso indireto livre, que significa que a voz do narrador e dos personagens se confundem, já que o narrador assume o lugar desses personagens em seus pensamentos, desejos, anseios (confiram mais detalhadamente em Guia do Estudante). Se por um lado o fluxo de consciência não foi uma dificuldade durante a leitura, por outro diferenciar a voz de quem estava contando a história na obra exigiu esforço. Foi necessário reler algumas passagens e como vou utilizar a obra para fazer um trabalho acadêmico, utilizei tags coloridas numa tentativa de identificar cada personagem, e pode ser bem capaz de eu ter identificado alguma parte por engano.

 

Flashbacks e cortes alterando os pontos de vista do personagens

Foi necessário marcar a fala de cada personagem porque juntamente com o discurso indireto livre, Virginia Woolf também utiliza de flashbacks e cortes de cenas que vai da perspectiva de um personagem a outro. Ou seja, Mrs. Dalloway não conta apenas a história de Clarissa Dalloway, mas de alguns personagens que tem em comum alguma aflição, um sofrimento, mesmo que aparentemente não revelem. Esses flashbacks e cortes aparecem frequentemente na linguagem cinematográfica e estava bem curiosa para saber como a história ficaria em filme, mas sobre isso eu falo mais para frente 😉 Mas imagem uma cena em que Clarissa está passeando em uma rua de Londres e o narrador mostra um personagem próximo, e história vai para a perspectiva desse novo personagem, mas sem nenhuma marcação textual para diferenciar as vozes. Por isso que o grande desafio é identificar quem está falando durante a leitura.

 

O duplo e a temática da 1ª Guerra Mundial

Já que estamos falando dos personagens, um ponto que não tinha ficado claro para mim foi a relação de Clarissa Dalloway com o personagem Septimus, um sobrevivente da 1ª Guerra Mundial que depois de alguns anos ainda sofre com os horrores que viveu no campo de batalha, principalmente com a morte de seu amigo Evans. Engraçado perceber que dois personagens tão diferentes, Clarissa sendo até frívola em comparação com Septimus. Ele sofre do “mal do sobrevivente”, pois não consegue falar claramente após o grande trauma que passou e que ainda se faz presente. Muito do que se conhece desse personagem é da perspectiva de sua esposa que sofre com ele, já que tinha sacrificando tanto para manter o casamento, e parece que ela precisa contar o que ele sofre, já que utilizando das ideias de Walter Benjamin, os sobreviventes da guerra tinham muita dificuldade para falar, era impossível narrar o inenarrável.

A Guerra tinha lhe ensinado. Foi sublime. Tinha passado tudo o que tinha acontecido, amizade, Guerra Europeia, a morte, tinha ganhado a promoção, ainda tinha menos de trinta e estava destinado a sobreviver. Nisso estava certo. As últimas bombas não o pegaram. Ele as viu explodir com indiferença. Quando a paz chegou ele estava em Milão, hospedado em uma pensão com um pátio, flores em vasos, mesinhas ao ar livre, filhas fazendo chapéus, e de Lucrezia, a filha mais nova, ficou noivo um anoitecer quando sentiu o terror – terror que não podia sentir. Pois agora tudo estava terminado, o armistício assinado, os mortos enterrados, ele tinha, especialmente no fim da tarde, esses trovões repentinos de medo. Não podia sentir. (p. 84)

Essas partes foram as que mais me marcaram, porque temáticas de guerra, regime ditatoriais são do meu interesse. Mas além disso em suas quase 200 páginas, Mrs. Dalloway também teve nuances de romance homossexual, o casamento por conveniência, memórias do passado, suicídio, e claro, a depressão. No vídeo a seguir, a Prof. Dra. Noemi Jaffe, destaca, entre outros temas, justamente a relação da vida pessoal de Virginia Woolf na sua obra, já que a autora sofria de depressão e nessa história ela critica justamente a forma dos tratamentos relacionados à depressão. E como não lembrar do livro A Redoma de Vidro, por Sylvia Plath em que uma das formas de tratamento era à base de choques elétricos?

A crítica também ressalta que não precisa ter uma necessidade de classificar a obra, já que em termos formais, estamos na fase (modernista) em que os aspectos formais não se limitam em categorias como as obras anteriores.  E se tratando também da vida biográfica de V. Woolf a questão do feminismo e a obra Um teto todo seu. Recomendo muito o vídeo!

 

Considerações sobre o filme

As minhas expectativas estavam bem altas para a adaptação cinematográfica, mas acabei me frustrando porque não gostei do filme! 😦 O filme de 1997 foi dirigido pela Marleen Gorris e contou com a estrela Vanessa Redgrave como Clarissa Dalloway na fase adulta.

Nas partes “mais técnicas” o filme não decepcionou, porque eu estava bem curiosa se o filme seguiria a linha narrativa do livro, com os flashbacks e os cortes de perspectivas, já que com os recursos da imagem do cinema fica mais perceptível as mudanças. A questão do duplo também não foi esquecida, muito pelo contrário, a diretora optou por colocar a imagem do Septimus na guerra na primeira cena.

O que eu detestei muito foi a atuação do atores! Sério, acho que a única que eu achei “okay” foram as atrizes que fizeram Clarissa, na juventude com Natascha McElhone, e como disse anteriormente a fase adulta com Vanessa Redgrave, apesar de preferir Merry Streep. Mas as demais atuações, principalmente do ator que faz Septimus e Peter (na juventude) foram sofríveis, porque não conseguiram transmitir toda a intensidade da angústia que é tão bem trabalhadas no livro. E outro detalhe, quando tinham cenas mais intensas parecia novela mexicana, com um música melancólica bem alta de fundo com a aquela atuação muito blá 😦 . Talvez se mudasse o elenco eu teria uma opinião totalmente diferente.

Por fim, depois de correr tanto de Mrs. Dalloway acredito que realizei num momento certo de maturidade e bagagem para entender vários detalhes. Digo isso particularmente par mim que tenho dificuldade com subjetividade e fluxos de consciência. Repito: eu amei a leitura, entrou para a minha listinha de livros favoritos da vida! Será uma leitura que eu vou querer reler no futuro! ❤

 

Até o próximo post!

Camila Melo

 

 

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7 Comentários

  1. Adorei suas referências e informações. Ainda não li, mas espero ler em breve. Abraços cordiais

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Fico muito feliz que vc tenha gostado 🙂 Depois que ler me diga o que achou 😉 Bjos

      Curtido por 1 pessoa

  2. […] Sobre um livro que me superou as minhas expectativas! Confiram: Mrs. Dalloway, por Virginia Woolf + Considerações sobre o filme ❤ […]

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  3. […] Resenha | Mrs. Dalloway, por Virginia Woolf + Considerações sobre o filme […]

    Curtido por 1 pessoa

  4. […] 1. Almas mortas (Nikolai Gógol) 2. O lado feio do amor (Colleen Hoover) 3. Mrs. Dalloway (Virginia Woolf) 4. A teoria do romance (Georg Lukács) 5. Dez lições sobre o romance inglês do século XVIII […]

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  5. […] com o professor entendi melhor o seu feedback. Ah, caso não tenham visto, fiz resenha do romance  Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf 😉 Acho que essa disciplina foi mais fácil depois de ter visto muito do contexto da formação […]

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