Resenha | Para educar crianças feministas, de Chimamanda Ngozi Adiche

Oies Bookaholics!

Eu admiro muito o trabalho e o empenho da nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche em relação ao feminismo e empoderamento feminino, a maneira como aborda é o que mais me encanta, o que mais faz sentido para mim, dentre tantas vertentes existente da causa das mulheres.

Nessa curto texto entitulado Para educar crianças feministas, direcionado a uma amiga que acabou de gerar uma menina,  Chimamanda encanta novamente, compartilhando suas ideias naquilo que ela acredita ser as bases que uma mãe deveria tomar na educação de seus filhos em prol de uma sociedade mais igualitária quando se pensa nos gêneros.

 

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Dear Ijeawelem or a feminist manifesto in fifteen suggestions – Companhia das Letras – 2017 – 5 Estrelas ❤

Sinopse: Após o enorme sucesso de Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie retoma o tema da igualdade de gêneros neste manifesto com quinze sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista. Escrito no formato de uma carta da autora a uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina, Para educar crianças feministas traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, o que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. E é por isso que este breve manifesto pode ser lido igualmente por homens e mulheres, pais de meninas e meninos. Partindo de sua experiência pessoal para mostrar o longo caminho que ainda temos a percorrer, Adichie oferece uma leitura essencial para quem deseja preparar seus filhos para o mundo contemporâneo e contribuir para uma sociedade mais justa.

 

Em formato de carta, a autora propõe 15 sugestões de como educar uma criança sob a base na igualdade de gêneros. De forma clara, objetiva e direta Chimamanda confronta os padrões (patriarcais) pré-estipulados que silenciam as mulheres, simplesmente por serem mulheres.

O livro apresenta como subtítulo o termo manifesto, que nada mais é do que um texto persuasivo que possui um objetivo específico, um propósito a fim de convencer outros. A autora desenvolve seus ideias de forma tão incrível que a vontade é sair marcando o livro todo! Vou apontar as passagens  que mais me chamaram a atenção, mesmo que a ideia fosse compartilhar o texto na íntegra 😉

Toda a discussão sobre a igualdade de gênero é bastante polêmica, já que há vários pré-conceitos sobre o assunto e sobre a questão feminista, além de muitos equívocos. Eu acredito e concordo muito com a visão da Chimamanda em muitos aspectos, principalmente na igualdade de gênero e não numa superioridade feminina (isso seria o femismo, o contrário de machismo). Quando vemos o quanto as mulheres foram, e ainda são, sendo reduzidas apenas como reprodutoras, ou com a função de manter a casa em ordem para seu marido, pai, filhos. Se a sociedade fosse igualitária, não sofreríamos preconceito, abuso e o número de feminicídio seria bem menor.

Porque quando há igualdade não existe ressentimento. (Pág. 19)

Hoje em dia, nós mulheres temos o direito de estudar, formar uma carreira, o que não era possível no passado, podemos trabalhar e chegar a lugares que provavelmente nossas avós e mães não puderam. Isso tudo resulta em duplas e até tripla jornada, sendo necessário se dedicar aos estudos, casa, educação dos filhos e cuidados da casa, como se fossemos uma espécie de mulher maravilha do século XXI:

Nossa cultura enaltece a ideia das mulheres capazes de “dar conta de tudo”, mas não questiona a premissa desse enaltecimento. Não tenho o menor interesse no debate sobre as mulheres que “dão conta de tudo”, porque o pressuposto desse debate é que o trabalho de cuidar da casa e dos filhos é uma seara particularmente feminina, ideia que repudio vivamente. O trabalho de cuidar da casa e dos filhos não deveria ter gênero, e o que devemos perguntar não é se uma mulher consegue “dar conta de tudo”, e sim, qual é a melhor maneira de apoiar o casal em suas duplas obrigações no emprego e no lar. (Págs. 17/18)

Mas ainda vivemos um outro lado, já se perguntou quantas vezes deixou de fazer algo por não ser considerado “coisa de mulher”?

Os estereótipos de gênero são tão profundamente incutidos em nós que é comum os seguirmos mesmo quando vão contra nossos verdadeiros desejos, nossas necessidades, nossa felicidade. (Pág. 28)

Outra questão do feminismo que causa bastante confusão é sobre a feminilidade, que relaciona coisas como maquiagem e roupas femininas, e aproveito para incluir a questão da depilação também.

Se ela gostar de maquiagem, deixa-a se maquiar. Se ela gostar de roupas da moda, deixa-a usar. Mas, se não gostar, deixe também. Não pense que criá-la como feminista significa obrigá-la a rejeitar a feminilidade. Feminismo e feminilidade não são mutuamente excludentes. É misógino sugerir o contrário. Infelizmente, há mulheres que aprenderam a se envergonhar e a se desculpar por interesses vistos como tradicionalmente femininos, como moda e maquiagem. Mas nossa sociedade não espera que os homens sintam envergonhados por interesses tidos como masculinos – carros esportivos, certos esportes profissionais. Da mesma forma, o fato de um homem se arrumar bem nunca é visto com a desconfiança que se aplica a uma mulher – um homem bem-vestido não se preocupa que, por estar assim, possam colocar em dúvida sua inteligência, sua seriedade ou sua capacidade. Uma mulher, por outro lado, está sempre consciente de como um batom chamativo ou uma roupa bem montada poder fazer com que os outros a vejam como frívola. (Págs. 55/56)

Ainda falando sobre feminilidade, porque não falar sobre os estereótipos de cabelo? Eu assumi meus cabelos crespos no ano passado, depois de tantos anos tentando me encaixar no padrão, e me identifiquei muito com essa passagem:

Então, quanto ao cabelo dela, sugiro que você redefina “bem ajeitado”. Se o cabelo está associado à dor para tantas meninas, em parte é porque os adultos resolveram seguir uma versão de “bem ajeitado” que significa Esticado Demais, Repuxando o Couro Cabeludo e Dando Dor de Cabeça. (Pág. 58)

E sim, a discussão fica mais séria e necessária quando estamos falando do cabelo crespo.

Partindo para a esfera de violência, cabe ressaltar que na maioria das vezes a mulher, a vítima, é culpabilizada. E quando passam por  abuso e estupro é triste ver que há homens que só respeitam as mulheres do seu círculo de relacionamento:

Ensine Chizalum a questionar os homens que só conseguem sentir empatia pelas mulheres dentro de uma rede de relações, e não como indivíduos humanos iguais. Homens que, discutindo o estupro, sempre dirão algo como: “se fosse minha filha ou esposa ou irmã”. Mas esses homens não precisam imaginar um homem vítima de um crime “como irmão ou filho” para sentir empatia. (Págs. 38/39)

E já que a discussão chegou a esse ponto como não relacionar com as músicas com apologia ao estupro, principalmente no começo do ano, e o quanto a discussão foi importante e chamou a atenção para a causa e a violência contra a mulher.

Diga-lhe que o corpo dela pertence a ela e somente a ela, e que nunca deve sentir a necessidade de dizer “sim” a algo que não quer ou a algo que se sente pressionada a fazer. Ensina-lhe que dizer “não” quando sentir que é o certo é motivo de orgulho. (Pág. 65)

E o quanto a pressão da sociedade em formar mulheres boazinhas, e as piores consequências disso, como o livro Amor Amargo, por Jennifer Brown que trata sobre relacionamento abusivo:

Ensinamos as meninas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas. E não ensinamos a mesma coisa aos meninos. É perigoso. Muitos predadores  sexuais se aproveitam disso. Muitas meninas ficam quietas quando são abusadas, porque querem ser boazinhas. Muitas meninas passam tempo demais tentando ser “boazinhas” com pessoas que lhe fazem mal. Muitas meninas pensam nos “sentimentos” de seus agressores. Esta é a consequência catastrófica de querer agradar. (Págs. 48/49) 

 

A autora ainda aborda várias outras questões de extrema importância. Por fim, posso concluir que este livro não é direcionando somente para a educação de crianças feministas, mas como um guia para qualquer pessoa que tenha interesse no assunto ou ainda aquelas que não tem conhecimento ou preconceito.

 

Até o próximo post!

Camila Melo

 

 

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9 Comentários

  1. Eu amo a Chimamanda. Estou lendo “No Seu Pescoço”. É ótimo, recomendo! Bjos

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Juju! Mulher to tentando arrumar um tempinho para ler “Hibisco roxo” nesse mês ainda, espero que dê 😉 E tbm estou louca por “No seu pescoço”, é de contos né? Bjos

      Curtido por 1 pessoa

      1. Isso, é de contos sim e vale muito a pena. É perfeito.

        Curtido por 1 pessoa

        1. Uau, vou colocar na minha listinha (infinita) de livros desejados então 😉 Bjos

          Curtido por 1 pessoa

  2. Oi Camila, tudo bem?
    Adorei a dica de leitura! Já quero esse livro pra ontem.
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Pri! Fico contente por isso 🙂 Depois que ler me diga o que achou, tá bom?! 😉 Bjos

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  3. […] A segunda obra que leio da nigeriana Chimamanda e fico cada vez mais apaixonada pela forma com que ela aborda a temática do feminismo e no que ela acredita! Confiram: Resenha | Para educar crianças feministas, por Chimamanda Ngozi Adiche ❤ […]

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  4. […] É a partir da personagem da tia Ifeoma que a autora usa para abordar as importância da igualdade de gêneros, ao colocar os filhos para cumprir as tarefas domésticas, independente do sexo, a prática de esportes e o empoderamento feminino, incentivando as jovens a estudar na faculdade em vez de acreditar que elas só servem para casar, cuidar da casa e procriar. Como professora universitária acredita na educação como um fator essencial para a formação não só profissional, mas de valores e do cuidado com outros seres humanos. E por isso me recordei de vários pontos do livro de não-ficção de Chimamanda, o  Para educar crianças feministas 🙂 […]

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  5. […] 1. Amor amargo (Jennifer Brown) 2. Para educar crianças feministas (Chimamanda Ngozi Adiche) 3. A filha do capitão (Aleksander Pushkin) 4. Retrato do artista quando jovem (James Joyce) 5. […]

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