Resenha | Diário do Hospício + O Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto

Oies Bookaholics!

A última resenha do ano de 2017 é dedicada a esta obra do autor nacional Lima Barreto, o grande homenageado na FLIP – Festa Literária de Paraty, e que também foi objeto de estudo na disciplina de Literatura Brasileira IV. A edição desse livro foi publicada esse ano pela editora Companhia das Letras, mas tem o mesmo conteúdo da edição publicada anteriormente pela extinta Cosac Naify.

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  • Título original: Diário do hospício e O cemitério dos vivos
  • Autor: Lima Barreto
  • Editora: Companhia das Letras
  • País: Brasil
  • Lançamento: 2017
  • Gênero: Clássicos
  • 308 Páginas
  • Classificação: 4/5

 

Sinopse: O CLÁSSICO TESTEMUNHO DA INTERNAÇÃO DE LIMA BARRETO NUM HOSPÍCIO EM NOVA EDIÇÃO COM NOTAS E IMAGENS INÉDITAS.
Internado por duas vezes em instituições psiquiátricas por delírios alcóolicos, Lima Barreto documentou em Diário do hospício sua passagem pelo Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, de maneira lúcida e contundente. No romance inacabado O cemitério dos vivos, o autor transpôs para a chave ficcional a mesma vivência. Os dois textos foram publicados em conjunto postumamente, em 1953 e em 2010, receberam nova e cuidadosa edição organizada por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura e prefaciada por Alfredo Bosi. Relançada agora pela Companhia das Letras, esta edição conta com notas e imagens inéditas, que oferecem nova contextualização do ambiente manicomial, além de incluir ao final uma nova reportagem de Raymundo Magalhães datada de 1920. 

Com a organização de Augusto Massi (vulgo meu professor de Literatura Brasileira IV) e Murilo Marcondes de Moura, a obra é riquíssima, composta por várias notas explicativas, imagens e textos. Posso dizer que se divide em 4 partes: o prefácio escrito pelo crítico Alfredo Bosi, os dois livros Diário do hospício, e O cemitério dos vivos, e por último, o apêndice com textos de alguns autores sobre o tema do hospício durante o final do século XIX e início do século XX.

 

 

Prefácio – O cemitério dos vivos: testemunho e ficção

Alfredo Bosi chama a atenção para o gênero adotado por Lima Barreto em O cemitério dos vivos: o testemunho, ao retratar o estado de opressão e humilhação de forma direta e coerente. Este é um gênero que eu particularmente tenho muito interesse.

Lançado em meio a seres humanos que deliram, Lima Barreto é sempre o escritor de cepa realista que se propõe a “pegar agora no lápis para explicar bem estas notas que vou escrevendo no Hospício”. As marcas do tempo são precisas: “agora” e “vou escrevendo” remetem ao presente imediato e fazem supor que não tenha ocorrido intervalo entre a situação objetiva e o ato de transcrevê-la. (Pág. 13)

Bosi ainda destaca o estilo narrativo, a linguagem e insere o leitor ao contexto histórico:

Lima Barreto, que pertence à geração pós-abolicionista da Primeira República, enfrenta com o mesmo desassombro e a mesma solidão a rotina carcerária solidamente apoiada em velhos modelos europeus que resistiam às mudanças das novas teorias psiquiátricas. (Pág. 9)

E ainda:

Perplexo, o intelectual crítico, cuja obra toda fora uma denúncia da mentira social, teme que os médicos do Hospício o tratem de maneira cega ou arbitrária. Teme principalmente que a ciência livresca que seguem, avessa à ideia mesma de enigma, não lhes permita ter dúvidas, nem lhes faça ver pessoas, mas apenas casos exemplares devidamente catalogados e passíveis das terapias reificadas nos manuais de psiquiatria. (Pág. 24)

 

Diário do hospício

A primeira coisa que é preciso saber a respeito desse livro é que ele foi produzido a partir dos manuscritos do autor durante a sua segunda internação no Hospital Nacional dos Alienados e publicados postumamente. A ideia de nomear como diário se dá pela organização destes textos, com datação, títulos e numeração das páginas.

Não me incomodo muito com o Hospício, mas o que me aborrece  é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda espécie de apreensões que as dificuldades da minha vida material há seis anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: delírio. (Pág. 34)

Lima Barreto revela, além das condições do local, o seu vício em álcool, um dos motivos do autor não ter seu trabalho literário reconhecido. O autor também denuncia a realidade dos negros após a abolição, todas as promessas de liberdade que não foram cumpridas, as dificuldades financeiras que o impossibilitaram de concluir o curso na Escola Politécnica (atualmente a USP) para sustentar a casa após o pai perder o emprego, e por fim, seu vício no álcool.

O mobiliário, o vestuário das camas, as camas, tudo é de uma pobreza sem par. Sem fazer monopólio, os loucos são da proveniência mais diversa, originando-se em geral das camadas mais pobres da nossa gente pobre. São de imigrantes italianos, portugueses e outros mais exóticos, são os negros, roceiros, que teimam em dormir pelos desvãos das janelas sobre uma esteira esmolambada e uma manta sórdida; são copeiros, cocheiros, moços de cavalariça, trabalhadores braçais. No meio disto, muitos com educação, mas que a falta de recursos e proteção atira naquela geena* social. (Pág. 38)

>> *geena: lugar de suplício eterno pelo fogo, associação que o escritor faz entre hospício e inferno.

Amaciando um pouco, tirando dele a brutalidade do acorrentamento, da surras, a superstição de rezas, exorcismo, bruxarias etc., o nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o sequestro. Não há dinheiro que evite a Morte, quando ela tenha de vir; e não há dinheiro nem poder que arrebate um homem da loucura. Aqui no Hospício, com suas divisões de classes, de vestuário etc., eu vejo um cemitério: uns estão de carneiro e outros de cova rasa. Mas, assim e assado, a loucura zomba de todas as vaidades e mergulha todos no insondável mar de seus caprichos incompreensíveis. (Pág. 74)

Podemos notar por essas passagens a condição dos alienados era de miséria, mostrando que os principais “habitantes” do Hospício vinham das classes mais humildes da sociedade e fica difícil não relacionar com as condições do sistema carcerário brasileiro, em que a maior parte é constituída por negros e residentes de periferia. Essa questão despertou ainda mais o meu interesse em ler os livros do Dr. Drauzio Varella Estação Carandiru, Carcereiros e Prisioneiras.

O autor também questiona o que seria a loucura, já que o principal motivo, no seu caso, é o álcool:

Essa questão do álcool, que me atinge, pois bebi muito, e como toda gente, tenho que atribuir as minhas crises de loucura a ele, embora sabendo bem que ele não é o fator principal, acode-me refletir por que razão médicos não encontram no amor, desde o mais baixo, mais carnal, até a sua forma mais elevada, desdobrando-se num verdadeiro misticismo, numa divinização do objeto amado; por que – pergunto eu – não é fator de loucura também? Por que a riqueza, base da nossa atividade, coisa que, desde menino, nos dizem ser o objeto da vida, da nossa atividade na terra, não é também causa da loucura? Por que as posições, os títulos, coisas também que o ensino quase tem por mérito obter, não é causa da loucura? (Págs. 55-56)

Cabe lembrar que naquele tempo não havia muitos critérios para diagnosticar a loucura e podemos recorrer e comparar os textos de Lima Barreto com O Alienista, de Machado de Assis, que também tem como ponto de vista o tema da loucura e se ambienta em um hospício, e o próprio ato de Lima Barreto ao tentar categorizar seus colegas de Hospício. >> confiram: Resenha | O alienista, por Machado de Assis.

Os textos também revelam o cotidiano do autor, e a influência da literatura na sua vida, e esses manuscritos servindo de inspiração para o seu próprio livro O cemitério dos vivos.

 

O cemitério dos vivos

O próprio título do livro revelam a situação dos residentes do Hospício, cemitério remete à ideia de morte, ou seja, um lugar predominada por mortos-vivos.

Tenho me alongado em detalhes que parecem não ter interesse algum para o meu primitivo objetivo; mas espero que, quem tiver a paciência de me ler, há de achá-los necessários para a boa compreensão desta história de uma vida sacudida por angústias íntimas e dores silenciosas. (Pág. 136)

O caráter intimista sobre a atmosfera do hospício se mantem no “romance” O cemitério dos vivos. Lima Barreto situa o leitor sobre a situação dos negros na sociedade e ainda marca a violência enquanto esteve internado, mesclando a ficção com a realidade, o testemunho, como bem disse Alfredo Bosi.

Veio-me, repentinamente, um horror à sociedade e à vida; uma vontade de absoluto aniquilamento, mais do que aquele que a morte traz, um desejo de perecimento total da minha memória na terra; um desespero por ter sonhado e terem me acenado tanta grandeza, e ver agora, de uma hora para outra, sem ter perdido de fato a minha situação, cair tão, tão baixo, que quase me pus a chorar que nem uma criança. (Pág. 148)

É curioso notar passagens bem semelhantes dos manuscritos com o romance, como ocorre com a citação da página 38 apontada anteriormente com a seguinte:

O mobiliário, o vestuário das camas, as camas – tudo é de uma pobreza sem par. O acúmulo dos doentes, o sombrio da dependência  que fica no andar térreo – e o pátio interno é quase ocupado pelo pavilhão das latrinas de ambos os andares – tirando-lhe a luz, tudo isso lhe dá má atmosfera de hospital, de emanações de desinfetantes, um morrinha terrível. (Pág. 164)

E ainda um complemento em:

O Hospício é bem construído e seria adequado, se não tivesse quatro vezes o número de doentes para que foi planejado. (Pág. 170)

 

Apêndice

Com outros textos do próprio Lima Barreto, Machado de Assis, Raul Pompeia e Olavo Bilac. 

A cara era suja e sombria; as enfermarias acanhadas e escuras; os loucos dormiam, ao acaso, atirados pelo chão; as roupas eram velhas e esfarrapadas; a comida era péssima; e tratamento médico, se não já era o mesmo que grande Pinel, em 1792, foi encontrar praticado nos hospício franceses, era ainda bárbara e retrógrada mistura de inépcia e brutalidade: quarto, forte, duchas, e camisa de força… (Pág. 262) 

Olavo Bilac merece destaque ao abordar a situação das crianças no Hospício:  

Antigamente, as crianças idiotas asiladas no Hospício viviam numa sala apenas cimentada, de rojo no chão, gritando e gargalhando, sem ensino, como animais malfazejos ou repulsivos. Eram asiladas e alimentadas – e cifrava-se nisso toda a assistência que lhes dava o Estado. Aquilo era para eles o Limbo sem esperança. Uma vez entradas ali, como criaturas incuráveis, ali ficavam crescendo ao acaso, condenadas ao idiotismo perpétuo, à paralisia geral, e à morte. Inúteis a si mesmas e inúteis à sociedade, os pequeninos idiotas assim ficavam, como o rebotalho maldito da Vida, flores gangrenadas logo ao nascer, sem promessa de melhor sorte.  (Pág. 263)

Em oposição ao tratamento anterior, as crianças são tratadas como uma espécie de rato de laboratório para os testes dos médicos, curioso notar os termos utilizados pelo autor ‘criados artificialmente’ e ‘oficina de reabilitação humana’, assim o Hospício trata dos pacientes como uma peça do maquinário da sociedade:

Hoje, ninguém lhes assegura a salvação completa, a completa e milagrosa cura, porque a ciência, ai de nós!, e ainda é para isso impotente e falaz. Mas já não há ali um bando de animais inúteis ou nocivos: daquela animalidade inconsciente e grosseira, a ciência e o carinho procuram tirar uma humanidade, incompleta e rudimentar, mas, em todo o caso, humanidade, com algum sentimento  e algum pensamento. E, quem sabe?… Nunca se deve desesperar do resultado do trabalho inteligente e piedoso: dali sairão, talvez homens perfeitos e equilibrados, criados artificialmente naquela oficina de reabilitação humana. (Pág. 263)

 

Por fim, posso dizer que esta é uma leitura que exige tempo e atenção, ler com calma, revisitando e relendo passagens. Sei que este é um tipo de livro que vou ler no futuro e que indico, com certeza!

Até o próximo post!

Camila Melo

 

 

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16 Comentários

  1. Adorei o post e certamente incluirei os livros de Lima Barreto em minhas leituras do ano de 2018. 😉

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    1. Oies! Fico muito feliz por vc ter gostado 🙂 Quero muito ler os demais livros do autor 🙂 Depois me diga o que achou 😉 Bjos

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  2. Resenha incrível! Parabéns! Só aumentou a minha vontade de ler Lima Barreto! 😄😄 bjs Agnes

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    1. Oies! Aiii fico tão feliz quando vejo comentários assim por aqui, me estimulam a continuar escrevendo! Muito obrigada Agnes, depois que ler me diga o que achou 😉 Bjos da Cah ❤

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  3. Cah, nada a ver com post mas: procurei resenha sua sobre o fiquei com o seu número e não achei… Vc não fez? Quaria ver sua opinião! Bjks

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    1. Oies! Imagina, rs… Quando eu li não tinha o blog ainda, e procurei no Skoob e vi que não tinha tbm, estranho porque é um dos meus livros preferidos da Sophie =/ Quem sabe eu releia em 2018 e faça a resenha 😉 Bjos

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  4. […] Esta edição é composta por dois livros, sendo que o primeiro (Diário do hospício) eu li em novembro e o segundo (O cemitério dos vivos) em dezembro, e ainda todo o extenso apêndice. Foi uma leitura muito desafiadora, mas que também acrescentou muito. Confiram: Resenha | Diário do Hospício + O Cemitério dos Vivos, por Lima Barreto. […]

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  5. Lima Barreto é um dos autores que me chama atenção e que gostaria muito de ler em 2018. O fato de ele ter sido internado (nas condições em que foi internado), me deixa boquiaberta!

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    1. Oies! Eu quero ler mais obras do autor e sim, eu tbm fiquei bem chocada, mas ainda é saber como a “loucura” era tratada no início do século XIX, era tanta ignorância e discriminação de partir o coração. O livro “O alienista” do Machado de Assis trata muito bem dessa questão tbm 😉 Bjos da Cah 🙂

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  6. […] vez somos lançados ao ponto de vista da loucura, como em O alienista, por Machado de Assis e Diário do Hospício + O Cemitério dos Vivos, por Lima Barreto, obras que retratam o clima nos hospícios. A redoma de vidro, acaba dialogando com estas obras […]

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  7. […] em vez de focar em apenas um ou dois romances, e ainda alguns contos de Lima Barreto (confiram: Resenha | Diário do Hospício + O Cemitério dos Vivos, por Lima Barreto). Eu senti que as aulas deixaram muito a desejar em questão de análise literária, como se […]

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  8. Lima Barreto é um autor que eu devo ler o quanto antes, de excelente qualidade estética, sendo fundamental para compreendermos a nossa sociedade. Parabéns pela resenha! Bjs!

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    1. Oies Ju! Nossa eu só tive conhecimento por conta de LB IV, e adorei a experiência, preciso ler mais livros desse autor! 🙂 Fico feliz que tenha gostado! ❤

      Bjos

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