Diário da Faculdade | Sobre a disciplina de Teoria Literária I

Oies Bookaholics!

Se preparem porque vai ter textão sim! 🙂

Nesse semestre cursei minha primeira disciplina optativa dentro do curso de Letras (isso porque ela não faz parte das disciplinas obrigatórias e eu preciso de uma quantidade de créditos para me formar) e eu estava muito ansiosa 🙂 Desde o ano passado soube dessa disciplina e tive acesso ao programa do curso, com alguns sacrifícios consegui cursar e o resultado foi maravilhoso.

O curso foi ministrado pela Professora Dra. Andrea Saad Hossne e o enfoque foi sobre “Narrativa e memória na contemporaneidade”.

  • Objetivo: apresentar e discutir aspectos da narrativa contemporânea que envolvem a memória coletiva e a individual, seja na temática, seja na formalização literária, por meio da retomada panorâmica de modalidades e formas tradicionais Confissão, Diário, Memórias, Autobiografia, Romance Autobiográfico) e da abordagem de manifestações contemporâneas (Autoficção, Blogs), bem como através de percursos analítico-interpretativos de obras contemporâneas.

Infelizmente no curso de Letras da USP, quase não temos contato com autores contemporâneos. A maioria do curso se limita a estudar autores clássicos e canônicos, excluindo o que está acontecendo na atualidade. São raros os professores que fogem da “regra” e trabalham com obras que relatam muitos temas tabus como a ditadura militar, Segunda Guerra, pobreza, LGBT, escravidão e assuntos mais marginalizados.

Disciplinas desse tipo são muito concorridas. E em tese eu só poderia cursar no meu 7º semestre, e eu estava no 5º. Eu não consegui a vaga na turma durante a matrícula, então tive que conversar com a professora (o que tinha feito desde o ano passado) para que ela me aceitasse na turma, nós chamamos essa prática de “Requerimento” quando o Júpiter (sistema que administra os cursos de graduação na USP ) “nos chuta” de uma disciplina com turma lotada.

  • Justificativa: atualmente, a questão da memória, seja ela a do trauma histórico, seja a das chamadas “escritas de si”, vem ocupando um lugar de destaque tanto na produção literária quanto na crítica a que a ela se faz. O curso pretende fornecer alguns referenciais para a introdução à discussão sobre o assunto e ao estudo de tais obras.

 

Rotina

Essa disciplina exigiu muito de mim quando se trata de sacrifício. Minha rotina durante as terças-feiras era muito cansativa. As aulas eram no período da manhã (eu estudo à noite), cursava no primeiro horário (8h-10h), eu tinha que levantar às 5h, devido ao trânsito infernal. Eu chegava por volta das 7h, porque se eu deixasse para pegar o ônibus depois das 6h30 não chegava a tempo, aliás, preciso pegar 2 ônibus.

O bom era que eu conseguia tomar café da manhã no Bandejão da faculdade, tinha direito a 1 pão francês (normal ou integral), manteiga, bebida quente (chá, leite, café, chocolate) e uma fruta, por apenas R$ 0,50. Foi daí que eu me viciei em café para me manter acordada, rs

Depois da aula eu pegava outro ônibus e ia para o estágio, almoçava por lá, cumpria as minhas 6 horas diárias de trabalho e voltava para a aula da noite. Sem contar que nas segundas-feiras eu tinha duas aulas à noite, chegando em casa quase meia noite para levantar às 5h no dia seguinte.

Mas acreditem: eu não faltei em nenhuma aula, mesmo em dias de chuva.

 

Programa

Toda disciplina tem um programa que é pré-definida pelo professor, e em Teoria Literária I estudamos os pontos a seguir, não necessariamente nessa ordem, e nem na mesma intensidade:
1. Escritas da memória: panorama acerca de modalidades e formas da tradição literária
2. Entre a história e a escrita de si: aspectos e consonâncias
3. Autobiografia, romance autobiográfico e autoficção: aproximações e diferenças
4. Memória íntima e trauma histórico
5. Memória e esquecimento
6. Blogs, diários e performatividade

O curso focou muito na parte teórica e quase não tivemos contato com o texto literário mesmo, mas eu adorei! Fazia várias anotações durante as aulas, e eu ficava fascinada. Adorava ouvir a interação dos colegas, as indicações de filmes, livros e séries que abordavam a questão da memória, sendo citados “Black Mirror” e “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, por exemplo (não assisti ambos, ainda). A professora deixava a aula “correr solta” gostava de ouvir as falas dos alunos, criando um ambiente de troca e conhecimento de ambos os lados. ❤

 

Repertório Literário

O que me chamou atenção para cursar essa disciplina foram as obras que seriam trabalhadas, no repertório literário básico (nomes das obras em negrito):

Fernando Bonassi: Texto” 55”. In: 100 Histórias colhidas na rua. São Paulo: Scritta, 1996.
João Anzanello Carrascoza: Cadernos de um ausente. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
Ricardo Lísias: O céu dos suicidas. Rio de janeiro: Objetiva-Alfaguara,2012.
Marcelo Rubens Paiva: Ainda estou aqui. Rio de janeiro: Objetiva-Alfaguara, 2015.
J.R. Terron:  “A delação”, “Com vista para o céu” e “Peixes e Urubus”. In: Curva de Rio Sujo. São Paulo: Planeta, 2003

Destaco o maravilhoso Ainda estou aqui do Marcelo Rubens Paiva, livro que eu li no ano passado e me amei, aposto que vocês não me cansam de me ver falando dele por aqui hahaha. (confiram: Resenha | Ainda Estou Aqui, Por Marcelo Rubens Paiva) Eu busquei essa disciplina justamente por esse livro. Ainda assim, outras obras fizeram parte do repertório complementar:

Bernardo Kucinski: K. Relato de uma busca. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
J.L. Passos: O sonâmbulo amador. Rio de janeiro: Objetiva-Alfaguara,2012.
O. Sacks: Sempre em movimento. Uma vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Paloma Vidal: Mar azul. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.

Eu acabei lendo o K. Relato de uma busca (confiram: Resenha | K. Relato de uma busca, por Bernardo Kucinski) e A resistência (confiram: Resenha | A resistência, por Julián Fuks) ambos sobre o gênero de Autoficção ❤ Foram obras que me ajudaram a compreender melhor este novo gênero, bem como fazer comparações. Inclusive, eu uso uma citação do livro de Kucinski na conclusão do meu trabalho. Por coincidência, para a minha felicidade, alguns dos autores no repertório literário participaram do evento Segundas Intenções na Biblioteca do Parque Villa-Lobos nesse semestre. Foram momentos incríveis de me aprofundar nas obras e continuar as aulas fora da sala. (confiram: Segundas Intenções | Bate-papo com Julián Fuks / Segundas Intenções | Bate-papo com João Anzanello Carrascoza / Segundas Intenções | Bate-papo com Bernardo Kucinski) ❤ ❤

 

Avaliação: como foi fazer uma análise de “Ainda estou aqui

O método de avaliação se deu da seguinte maneira:Trabalho acerca de uma das obras literárias que constam no Repertório Literário do curso (com exceção dos textos de Bonassi e Terron), contemplando a relação entre narrativa e memória.

A minha escolha foi (obviamente) Ainda estou aqui, e eu pensei que teria mais facilidade por já ter ter lido o livro.  Eu tinha que fazer uma análise literária, e reli a obra, (o que não estava nos meus planos, rs), e consegui pensar mais detalhadamente nos pontos que queria abordar. Eu tinha que escrever um trabalho de 8 páginas, (sem contar capa e referências), com base no assunto estudo e poderia (tinha) que usar a bibliografia básica (que eu não coloquei aqui para não deixar o texto muito extenso).

Acontece que duas semanas antes da entrega eu estava surtando porque a) a professora ia nos passar uma leitura específica para cada obra e não tinha passado ainda e b) eu sabia tudo que queria colocar no meu trabalho mas não sabia por onde começar. Eu tirava várias dúvidas durante as aulas e tentava conversar com a professora ao final da aula, porque diferentemente de todas as disciplinas que já tive na USP, os professores sempre davam alguma aula expositiva sobre a obra. A professora Andrea optou por um caminho diferente: esperava ver a nossa própria interpretação baseada nos assuntos que vimos durante o curso, e na nossa própria bagagem literária.

Apesar de todas as informações estarem uma bagunça na minha cabeça, eu não tive muitas dificuldades para elaborar o trabalho. Isso porque no ano passado eu me apaixonei pela área de Teoria Literária e Literatura Comparada (confiram: Diário da Faculdade | Teoria Literária e Literatura Comparada), e desde novembro do ano passado participo das reuniões de um grupo de pesquisa sobre literatura e cinema contemporâneo. Várias ideias pipocavam na minha mente durante as reuniões, e bem aflita, a professora me aconselhou a sentar e escrever o trabalho, colocar no papel tudo que eu queria, sem me preocupar com a ordem das coisas em um primeiro momento. Super fofa ela me disse: “Calma, respira! Senta e escreve. Não pule etapa do processo. Você sabe tudo o que quer colocar, tem sua base, escreve e depois pensa de que forma você vai apresentar isso ao leitor. As coisas vão ficar claras para você!”

Com isso, meu trabalho teve como base o ensaio do autor Walter Benjamin “Sobre o conceito de história”, em que o autor defende a ideia que não há uma totalidade na história, que há lacunas, principalmente porque os excluídos não tiveram seu espaço de fala. E eu fiz uma relação desse texto com a ideia da ditadura militar brasileira (tema do livro do Marcelo), e ainda fui adequando às questões da memória (tema recorrente porque a mãe do autor sofre do mal de Alzheimer) e como a narrativa do autor se dava durante a escrita (ideia de narrativa).

Diante dessas ideias em mente, meu trabalho teve como título “Sobre o conceito de história em Ainda estou aqui: memória e narrativa“. Dividi o trabalho em 3 partes: uma introdução sobre o ensaio de Benjamin, conceitos sobre a memória e por último a narrativa. Conforme citava os autores base, eu utilizava fragmentos (muitos fragmentos na verdade) da obra para comprovar o que estava propondo. Eu ainda utilizei autores como Theodor Adorno, (uma das minhas maiores conquistas), já que durante as reuniões do grupo e a leitura dos textos eu tinha muita dificuldade para interpretar as ideias expressas. Um livro que me ajudou muito foi “Críticas em tempo de violência” do Professor Dr. Jaime Ginzburg, que me despertou a vontade de estudar cada vez mais sobre a temática da violência durante as aulas de Literatura Brasileira 2 (confiram: Diário da Faculdade | Sobre cursar a melhor matéria do curso de Letras).

Acho importante dizer que a análise literária tem que ter um fundamento, não adianta colocar vários achismos, é preciso ler e reler quanto mais possível for, para comprovar as hipóteses no texto e com base nos textos de apoio, de autores que dominam o assunto. Desde o ano passado eu tenho tentado ler muita coisa sobre o assunto da ditadura militar, porque me fascina muito. É um assunto que merece muito ser debatido, tem muita coisa escondida por debaixo do tapete, e ver obras literárias tratando do tema é um prato cheio para tentar preencher as lacunas históricas.

Entreguei o trabalho no dia 13 de Junho e sabe aquela sensação que você sabe que foi bem? Eu estava me sentindo assim, mas não de forma arrogante, mas porque várias ideias que eu vinha pensando há muito tempo conseguiram se organizar. Foi um dos trabalhos que mais tive prazer em escrever na graduação. No final fechei com 9 e extremamente feliz, não esperava a nota máxima porque tem sempre algum probleminha de escrita, um parágrafo mal desenvolvido, ou até algum ponto da minha hipótese. Eu esperava um 8 ou 8,5, mas saí muito feliz. 🙂

 

E agora? Perspectivas para o futuro…

Claro que em um trabalho 8 páginas não são suficientes para abordar todos os pontos de um livro e minha ideia é continuar trabalhando com o texto. Meu desejo é fazer Iniciação Científica (maiores detalhes aqui), período em que pesquiso sobre a obra e os assuntos que ela aborda. Estou esperando a professora voltar de uma viagem para conversarmos sobre! Estou muito ansiosa 🙂

Outra ideia é publicar meu trabalho em revistas acadêmicas, após fazer as devidas correções, muitas universidades possuem revistas de pesquisas e abrem chamadas para que estudantes universitários mandem seus textos. Se tudo der certo, conto aqui para vocês 😉

 

Sei que o post ficou bem extenso, mas precisava compartilhar todos os detalhes aqui, rs … Essa disciplina ressaltou a minha vontade e o desejo de cursar Letras, de reafirmar que eu escolhi o curso certo ❤ Se tiverem alguma dúvida ou questão sobre o assunto, fiquem à vontade, posso tentar esclarecer 😉

Até o próximo post!

EST. 2015

 

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4 Comentários

  1. Parabéns, Camil! Adorei! Sempre em frente, sempre em frente.
    Para o alto e além!
    Bjss.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada parça! 😉 Bjos

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  2. Uau, quanta informação! Menina, como eu amo esses post que você faz sobre a faculdade! Leio todos ❤ E que rotina hein? Minha nossa!
    E assista Black Mirror! É uma série maravilhosa!
    Beijinhos 😘

    Curtido por 1 pessoa

    1. Geo sua fofa! Muito obrigada pelo carinho, espera que terá mais Diários da Faculdade 😉 Black Mirror está na minha lista e não vejo a hora de poder assistir 🙂 Bjos ❤

      Curtido por 1 pessoa

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