Resenha | K. Relato de uma busca, por Bernardo Kucinski

Oies Bookaholics!

Mais um livro com uma temática que eu me interesso muito: a ditadura militar brasileira. Esse foi um livro que eu queria ler e graças à disciplina de Teoria Literária I, consegui ler 🙂

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  • Título original: K. Relato de uma busca
  • Autor: Bernardo Kucinski
  • Editora: Companhia das Letras
  • País: Brasileira
  • Gênero: Romance / Autoficção
  • Lançamento: 2016
  • 176 páginas
  • Classificação: 5 / 5 ❤ ❤

Sinopse: Em 1974, a irmã de Bernardo Kucinski, professora de Química na Universidade de São Paulo, é presa pelos militares ao lado do marido e desaparece sem deixar rastros. O pai dela, dono de uma loja no Bom Retiro e judeu imigrante que na juventude fora preso por suas atividades políticas, inicia então uma busca incansável pela filha e depara com a muralha de silêncio em torno do desaparecimento dos presos políticos. K. narra a história dessa busca.

Lançado originalmente em 2011 pela editora Expressão Popular, em 2013 ganhou nova edição pela Cosac Naify, e finalmente, em 2016, chegou à Companhia das Letras. Ao longo desses anos, K. se firmou como um clássico contemporâneo da literatura brasileira.

 

O que dizer desse livro? Eu fiquei comovida por essa história, assim como os livros que têm como base a mesma temática da ditadura. “K” se configura no mesmo gênero que o livro de A resistência (Julián Fuks), é um livro de autoficção, ou seja, fatos da vida real se confunde com os fatos da ficção.

Aliás, logo no início o autor deixa um aviso ao leitor:

“Caro leitor: Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu.”

O livro retrata o desaparecimento de Ana Rosa Kucinski, e a busca do pai pela filha. É um livro marcante e com momentos de extrema tristeza, afinal estamos lidando com os horrores da ditadura militar, não é mesmo?

Ana Rosa Kucinski era Professora Doutora no curso de Química na Universidade de São Paulo, que, para muita indignação, demitiu-a por abandono de emprego, quando ela foi sequestrada. E pasmem, 40 ano após o sequestro, em 2014 com a Comissão da Verdade, a USP inaugura uma escultura em homenagem a (mais uma) vítima da barbárie brasileira. (Vejam mais: Estadão e USP)

A perseguição a professores durante a ditadura militar, também aparece de forma bem forte em Dois irmãos (Milton Hatoum), e mesmo que a obra de Milton Hatoum seja de ficção, não dá para dizer que a tortura durante esse período são fatos isolados, é a verdadeira história que finalmente vem preenchendo as lacunas.

O autor, na maior parte do tempo, assume a voz do pai, um judeu que fugiu da Polônia, durante a Segunda Guerra para o Brasil, e que se sente culpado não só pelo desaparecimento da filha, mas por não saber em que Ana estava envolvida. É um livro que relata a busca do pai pela verdade, bem como a busca de Marcelo Rubens Paiva pelo pai relatado em Ainda Estou Aqui.

Os relatos são tão tocantes que é impossível não se comover. Há relatos da família, da vida de Ana Rosa Kucinski e em vários momentos há comparações com a Segunda Guerra Mundial, por exemplo:

K. tudo ouvia, espantado. Até os nazistas que reduziam suas vítimas a cinzas registravam os mortos. Cada um tinha um número, tatuado no braço. A cada morte, davam baixa num livro. É verdade que nos primeiros dias da invasão houve chacinas e depois também. Enfileiravam todos os judeus de uma aldeia ao lado de uma vala, fuzilavam, jogavam cal em cima, depois terra e pronto. Mas os goim de cada lugar sabiam que os seus judeus estavam enterrados naquele buraco, sabiam quantos eram e quem era cada um. Não havia a agonia da incerteza; eram execuções em massa, não era um sumidouro de pessoas. (Pág. 25)

 

Além disso, o autor intercala vozes com pontos de vista diferentes, mostrando uma possível perspectiva dos torturadores e oficiais. Com capítulos curtos, mas com intensa comoção, “K” é daqueles livros em que as todos deveriam ler. Porque retratam mais uma vítima da nossa ditadura, essa que tanto tentam esconder, e que muitos saem às ruas pedindo o controle do país pelos militares.

Não por acaso, há uma crítica à Comissão de Direitos Humanos:

Ao falar da ditadura, K. lembra-se com desgosto da Comissão de Direitos humanos da OEA que rejeitara sua petição de modo muito cínico. Disseram que, segundo o Governo brasileiro, nada constava sobre a filha. É claro, foram perguntar aos bandidos se eles eram bandidos. A Cruz Vermelha recebeu-o bem, anotaram os dados e prometeram iniciar uma busca. Mas ao que parece não esperam muito de sua seção brasileira. (Pág. 55)

 

É um livro forte, marcante, pesado, mas que precisa ser lido. Não pode cair na no esquecimento para evitar “um mal de Alzheimer nacional” (pág. 15). Eu super recomendo a leitura e espero que mais autores e histórias desse período apareçam e nos ensinem, nos libertem da ignorância.

 

Cabe ressaltar que em 2016 o livro ganha uma espécie de continuação com “Os visitantes”, livro publicado pela editora Companhia das Letras:

14096_ggSinopse: O jornalista Bernardo Kucinski causou furor na cena literária brasileira com seu romance K: Relato de uma busca, publicado em 2013. História de um pai em busca da filha que desapareceu durante a ditadura no Brasil, o romance angariou uma legião de fãs e foi aclamado como uma das grandes obras literárias daquele ano. A novela Os visitantes é uma continuação de K, e cada capítulo narra a visita de uma pessoa diferente que vai até o autor cobrar satisfações sobre o livro anterior. Narrado com frieza e precisão, Os visitantes confirma o lugar de Bernardo Kucinski entre os grandes autores da literatura brasileira.

 

Eu tive o prazer de participar de um evento com o autor, mas isso já é assunto para outro post 😉

 

Até o próximo post!

 

Camila Melo

 

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10 Comentários

  1. Olá, parabéns pelo post!! Me interessou muito a história de Ana Rosa Kucinski, que eu não conhecia. Vou colocar na minha lista! bjs!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Ju! Fico muito feliz por você ter se interessado pela história 🙂 Leia sim e depois me diga o que achou, combinado? 😉 Bjos

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  2. Tenho um blog em que público resenhas musicais, na maior parte sobre MPB, deste período (60-70). Publiquei uma está semana inclusive sobre um disco de Joyce Moreno interpretando canções de autores censurados ou exilados. Dê uma olhadinha lá, acho q vc vai gostar.

    https://intencaocritica.wordpress.com/2017/06/24/passarinho-urbano/

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Primeiramente seja muito bem vindo Alexandre! 🙂 Fiquei bem curiosa, vou conferir seu post. Obrigada 🙂 Camila

      Curtido por 1 pessoa

  3. […] tem como uma de suas obras principais o livro K. Relato de uma busca (confiram no blog a a Resenha | K. Relato de uma busca, por Bernardo Kucinski) […]

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  4. Olá Camil! Parabéns pela resenha! Preciso ler esse livro. Assisti uma palestra do autor no auditório da História no primeiro ano da graduação (não sei se você também viu)

    Para você que curte o tema indico os livros do Ignácio de Loyola Brandão: “Zero”, livro experimental proibido no Brasil na época da ditadura e por isso publicado primeiramente na Itália, “Não Verás País Nenhum”, romance distópico (li na fila do alistamento militar só de bronca, rs) e “Cadeiras Proibidas”, livro de contos que se vale do surrealismo para tecer uma crítica ao regime.

    Continue sempre, Camil!
    Um bjão!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Parça, muito obrigada pelo incentivo, como sempre! 🙂 Vou anotar todas as suas dicas! Eu não lembro desse evento com o autor não, na verdade naquela época nem tinha interesse no assunto, rs…
      Bjos! ❤

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  5. […] Confiram: Resenha | K. Relato de uma busca, por Bernardo Kucinski […]

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  6. […] acabei lendo o K. Relato de uma busca (confiram: Resenha | K. Relato de uma busca, por Bernardo Kucinski) e A resistência (confiram: Resenha | A resistência, por Julián Fuks) ambos sobre o gênero de […]

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