Oies Bookaholics!

Hoje vou falar sobre um livro que se tornou uma das melhores leituras que já fiz na vida. E a experiência se tornou melhor devido ao evento  Segundas Intenções | Bate-papo com Julián Fuks, promovido pela Biblioteca Parque Villa-Lobos. ❤

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  • Título original: A resistência
  • Autor: Julián Fuks
  • Editora: Companhia das Letras
  • Nacionalidade: Brasileira
  • Gênero: Romance / Autoficção
  • Lançamento: 2015
  • 144 páginas
  • Classificação: 5 / 5 ❤ ❤

Sinopse: “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.”, escreve, logo na primeira linha, Sebastián, narrador deste romance. Como em diversas obras que tematizam a Guerra Suja — o regime de terror inaugurado em 1976 na Argentina —, A resistência envereda pela memória pessoal e nacional. Sebastién é o filho mais novo, e seu irmão adotado, o primogênito de um casal de psicanalistas argentinos que logo buscarão exílio no Brasil. Os pais conhecem bem as teorias sobre filhos adotados e biológicos (Winnicott, em especial), mas a vida é diferente da bibliografia especializada. Cabe então ao narrador o exame desse passado violento e a reescritura do enredo familiar. O resultado, uma prosa a um só tempo lírica e ensaística, lembra belos filmes platinos como O segredo dos seus olhos.

 

Como falar desse livro? Há uma riqueza de elementos que não sei se consigo fazer uma resenha que alcance tudo por completo. Por mais que o livro seja bem curto, 144 páginas, eu fui “economizando” a leitura, fazendo várias pausas e até relendo capítulos. Não que a escrita de Julián Fuks seja enfadonha ou maçante, muito pelo contrário, mas esse é um livro daqueles que eu precisei parar e processar de forma bem devagar o que estava lendo.

A forma do texto utilizada pelo autor é muito tranquila, os capítulos são bem curtos e os diálogos, quando aparecem, estão inseridos no próprio corpo do texto sem travessões, ao estilo brasileiro em que estamos acostumados. Há uma preocupação do autor com o vocabulário, escolhendo palavras específicas para contar sua história, a linguagem é singular.  Pode-se dizer também que o tempo não é retratado de forma linear, já que os fatos dependem da memória do personagem:

“Isto não é uma história. Isto é história. Isto é história e, no entanto, quase tudo o que tenho a meu dispor é a memória, noções fugazes de dias tão remotos, impressões anteriores à consciência e à linguagem, resquícios indigentes que eu insisto em malversar em palavras”. (Pág. 23) 

Cabe ressaltar um detalhe do contexto histórico, durante a ditadura argentina as mulheres grávidas que eram da esquerda eram sequestradas e mortas, e os bebês não eram devolvidos para as famílias. Até os dias de hoje as avós buscam pelos seus netos, as mães buscam não só por condenação  dos torturadores e assassinos, mas também pelos direitos humanos e outras causas em geral. (Maiores detalhes sobre a ditadura argentina e a história da Mães da Praça de Maio em 360 Meridianos)

“O sequestro de bebês era parte de um plano da ditadura argentina e ocorria de maneira sistemática, segundo grupos de direitos humanos. O objetivo era dar os filhos de pessoas que o governo considera subversivas a famílias de militares e seus aliados. Na lógica da ditadura, isso evitaria que fosse criada outra geração do que os militares consideravam radicais da esquerda […] A organização Avós da Praça da Maio foi fundada em 1977 com o objetivo de encontrar os filhos roubados e adotados ilegalmente durante o governo militares.

Fonte: BBC Brasil

 

Julián Fuks aborda o papel das Avós da Praça de Maio em seu livro:

 

“Há um empenho sensível de lhes conferir força e dignidade: elas são as filhas de mulheres fortes e dignas que agora procuram os muitos bebês sequestrados, apropriados pelos militantes, entregues a famílias amigadas ao regime, passados de mão em mão como mercadorias valiosas, extraviados sem deixar rastro”. (Pág. 94)

O núcleo familiar é tratado de forma curiosa, contada através de Sebastién, que como disse anteriormente depende da sua memória. Como filho mais novo de um casal que passou por vários problemas para engravidar, sente que é de sua responsabilidade contar a história da família. Ele se encontra por vezes em Buenos Aires, no antigo apartamento dos pais, ou nas ruas da cidade, oras relatando momentos da infância e da adolescência, ora está retratando sobre o tempo “presente”.

Seus pais adotam um bebê e fogem para Brasil na década de 1970, aqui tem mais dois filhos biológicos. O filho adotivo tem vários problemas de socialização com a família, se fecha no quarto e em seu próprio mundo. Em algumas passagens tem atitudes de muita raiva, ele não sente que faz parte daquela família e nem que são o seu lugar. E através da terapia familiar buscam amenizar os problemas e fortalecer suas relações.

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O livro retrata várias cenas de violência e marcas da ditadura, casos de torturas e desaparecimento de amigos da família. As memórias narradas lembram muito o estilo do gênero testemunho, que é uma forma narrativa caracterizada por dois aspectos: elementos documentais incluindo marca de tempo e espaço e elementos incluindo fabulação.

“De outra noite não me esqueço, numa cidade longínqua desse mundo que se fizera vasto, num ano longínquo ao da escapada, mais próximo a este em que me ponho a contá-la. Estava em Barcelona com meus pais, jantávamos com Valentín Baremblitt, vidros tilintavam numa alegra coreografia de taças. Entre um sorriso e outro de Valentím, entre uma anedota e outra que contava, uma sombra cobriu-lhe a face, turvando-a por um instante, ele se afastou da mesa e ergueu a barra da calça. Seu tornozelo direito estava inchado, vermelho, deformado: Está vendo este meu tornozelo?, ele indagou à minha mãe. Fizeram isso enquanto perguntavam sobre você”. (Págs. 83/84)

O mais interessante é que todos os fatos do livro podem ser reais. Julián Fuks tem as mesmas características de Sebastién, é um escritor, filho de argentinos que adotaram uma criança e fugiram para o Brasil durante a ditadura militar. Então, é interessante pensar até que ponto o que é narrado é fato ou ficção. Não por acaso o gênero do livro é considerado pela crítica como autoficção, termo usado na crítica literária para se referir a uma forma de autobiografia ficcional.

No bate-papo com o autor, ele disse que o título do livro seria “irmão possível”, mas com conversas com a editora optaram por “A resistência”. O título possui múltiplos sentidos: a resistência do irmão no convívio familiar, a resistência dos pais militantes, a resistência do narrador ao contar a história.

Eu super recomendo a leitura e espero que da mesma forma que me tocou, também toque vocês! 😉 Aproveitem e confiram a resenha maravilhosa da Brenda do blog Sobre Livros e Traduções ❤

Até o próximo post!

Camila Melo

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3 comentários em “Resenha | A resistência, por Julián Fuks

  1. Aaaaah, muito, muito obrigada pela indicação do SLET! ❤

    Nossa, essa parte das Mães da Praça de Maio realmente é muito triste e interessante. Você já leu Mulheres que mordem, da Beatriz Leal? O livro concorreu ao Prêmio Jabuti de melhor romance junto com A resistência. Ele também se trata sobre esse mesmo assunto, gravidez durante a ditadura. Quando li o livro do Fuks me lembrei bastante desse outro. Sinto de não ter escrito uma resenha sobre ele. =( Às vezes eu enrolo demais depois de terminar um livro e não me sinto mais capaz de escrever sobre a história. Mas comprei o eBook bem baratinho! 😉

    Beijo,
    Brenda

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies! Muito obrigada pela dica, já vou inserir na minha lista 🙂 … Eu me emocionei muito durante a leitura, é muito forte e pesado. Na sua resenha vi que vc destacou bem a relação da mãe com o bebê =/ E entendo bem essa sua característica ao escrever resenhas! Porque parece que estamos com o sentimento do término da leitura ali, exalando no mais alto nível, e conforme o tempo passa, parece que a vontade e todo aquele sentimento vai junto shuahusa… Bjos ❤

      Curtir

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