Oies Bookaholics!

A disciplina de Literatura Portuguesa 3 me fez ler esse livro, e estou fazendo este post para dizer que eu sobrevivi à leitura de “Viagens na minha terra” hahaha. O movimento literário que estamos estou estudando é o romantismo português, então as obras focam o século XIX e XX.

Deixa eu explicar para vocês como tentei correr dessa leitura: no vestibular da FUVEST 2015 (o ano que consegui entrar na universidade) eu não li, no ano passado em Literatura Portuguesa 2 eu também não li (vocês podem entender um dos motivos no post: Diário da Faculdade | Sobre as matérias do 2º ano que me decepcionaram). Eu fiquei com peso na consciência e até coloquei como meta na Segura o Livro: Maratona Literária de Carnaval 2017, mas não consegui concluir, rs. Até que as minhas aulas do 5º semestre começaram e adivinhem qual foi a primeira obra de leitura obrigatória do programa? Hahaha Não tive escapatória!

cap

  • Título original: Viagens na minha terra
  • Autor: Almeida Garrett
  • Gênero: Clássicos / Literatura Portuguesa
  • Lançamento: 1845 – Edição: 2012
  • 254 páginas
  • Classificação: 3,5 / 5

Sinopse: Obra-prima do romantismo de Portugal, Viagens na minha terra foi publicada inicialmente na Revista Universal Lisbonense, em 1845. A inovadora narrativa de Almeida Garrett, composta por diversos gêneros, mistura um enredo novelesco a relatos de viagem de Lisboa a Santarém que o autor realizou em 1843. O enredo retrata a atmosfera cultural, social e, sobretudo, política que o país vivia na época, dependente da Inglaterra, e interage com a história de Frei Dinis, Carlos e sua prima Joaninha. O amor entre os dois primos parece inabalável, mas reviravoltas externas e um segredo são capazes de comprometer a estabilidade da relação. Além disso, os personagens da obra assumem simbologias políticas: Frei Dinis, como o Portugal obsoleto e absolutista, e Carlos, como o liberal incentivador da renovação. Um cenário de crítica à política e à sociedade portuguesa do século XIX

Eu sou muito sincera e verdadeira com as minhas colocações aqui no blog e preciso confessar logo de início, que livro chato! O início é muito maçante e extremamente confuso, e as coisas só começam a ficar menos piores a partir do capítulo 10. Mas também preciso admitir que se não fosse pelas aulas eu mal teria compreendido a história e muito menos notado a importância e seus significados, e no final o livro não se tornou tão insuportável como eu pensei que seria até o fim.

Com base em algumas anotações em sala de aula e observações da minha professora Aparecida Fátima Bueno, vou tentar traçar alguns pontos que merecem destaque e podem ajudar a compreender melhor as ideias de Almeida Garrett.

  • Contexto histórico 

É impossível entender a obra sem entender o contexto histórico de Portugal. Resumidamente Portugal está vivendo uma guerra civil diante da disputa do poder entre os liberais (que defendem a Constituição) e os absolutistas / Miguelistas (que defendem a monarquia), é uma luta de poder entre os irmãos D. Pedro e D. Miguel. Além de vários problemas e crises enfrentados pelo país em relação aos países vizinhos Espanha e Inglaterra, bem como as consequências da independência do Brasil, que foi colônia explorada de Portugal.

Almeida Garrett tem uma vida política muito movimentada, além de ser escritor, dramaturgo, ensaísta, é à favor dos liberais. Durante o reinado de D. Miguel é exilado na França e Inglaterra, favorecendo de certo modo à riqueza cultural e intelectual de Garrett. A história do livro retrata a viagem de Almeida Garrett de Lisboa a Santarém, cerca de 80 km, para visitar Manuel Passos, um dos principais chefes políticos do governo liberal, mesmo que no momento da viagem (1843)  o poder está sob os absolutistas.

  • Hibridismo de gêneros

A partir desse ponto podemos acompanhar a obra, como um diário de viagem, gênero muito comum  na literatura desse período, exemplos com as obras “Robinson Crusoé” e “As viagens de Gulliver”. O livro também se trata de um romance, como ensaio com as afirmações do autor sobre como escrever um romance, mesmo que de forma irônica. Cartas também aparecem na história, além de crônicas, o que torna a compreensão comprometida, já que nós leitores brasileiros do século XXI, não estamos no mesmo contexto do século XIX português. Não é à toa, que é necessário um bom entendimento do contexto histórico.

Na minha visão, são as crônicas são o que tornam o livro maçante, o aspecto jornalístico parece não fazer muito sentido para quem não conhece o contexto histórico. Mas preciso destacar que em todos os capítulos há uma síntese, um resumo do que o capítulo vai apresentar aos seus leitores.

  • Moldura narrativa

Se Almeida Garrett insere vários gêneros diferentes em sua obra, outra ferramenta utilizada é a moldura narrativa. Ou seja, além das narrativas da viagem do autor em 1843 a cerca do contexto histórico, temporal e político do tempo presente; há também o romance de Carlos e Joaninha, que se passa durante a guerra civil, entre 1828 e 1829 o passado recente.

Há uma complexidade da estrutura da obra, bem como intertextualidade filosófica, política e literária e contexto sócio histórico. Por isso, pode-se explicar porque o título se refere às viagens em geral, não se remete apenas ao espaço (Lisboa – Santarém), mas nesses demais campos de reflexão do autor, simboliza a história e a memória, à reflexão. Não é por acaso que a leitura é uma tortura para muitos estudantes, principalmente quando a leitura se torna obrigatória, seja na escola, ou para o vestibular.

  • Romance de Carlos e Joaninha, a menina dos rouxinóis –  a história do passado

Para mim, o que mais gostei na obra foi a história de Carlos e Joaninha. Os dois são primos que foram criados juntos pela avó Francisca. Os três tem a assistência de Frei Dinis, que se responsabiliza pela educação dos jovens. Carlos é alguns anos mais velho que Joaninha, e decide ir embora lutar com os liberais, indo contra vontade do Frei, que é da parte dos absolutistas.

Joaninha é descrita como um estereótipo de pureza, preservação de inocência, ainda mais pela casa ser situada no Vale de Santarém, lugar que remete o jardim do Éden, e possibilita ao homem ser um ser mais natural. Aliás, uma das características do romantismo é a natureza, e há passagens com vários atributos positivos sobre.  (Recomendo a resenha de Os sofrimentos do jovem Werther, por Goethe)

Carlos fica anos sem aparecer e sem que a família tenha suas notícias, até que depois de alguns anos os primos se reencontram e começa toda uma série de intrigas, típico de novela mexicana, rs. Mas é muito legal 😉 A família é marcada por grandes segredos e mistérios que dão algumas reviravoltas ao longo da história.

Vale ressaltar que figura do frei não deve ser desmerecida, a rivalidade entre Frei Dinis e Carlos representa simbolicamente a disputa entre o antigo regime (absolutismo) e o liberalismo. Não há como falar da sociedade portuguesa do século XIX sem mencionar e dar importância ao clero. Não por caso, Garrett, cita ao longo da obra o motivo de utilizar membros do clero em seus livros. Outro autor que também utiliza da figura do clero em suas obras é Eça de Queirós, mesmo após 30 anos depois de “Viagens na minha terra”. (Recomendo a resenha de O crime do padre Amaro, por Eça de Queirós) E voltando novamente ao contexto histórico, em 1834 com a vitória dos liberais na guerra, uma das primeiras ordens monásticas é a destituição dos bens do clero, resumindo, a classe perde o poder que detinha.

  • Santarém de Almeida Garrett, a Santarém do presente

Quando Almeida Garrett chega à Santarém há uma suspensão da história de Joaninha e Carlos, há uma nostalgia do autor diante de uma cidade em ruínas,  memória de indignação. O que aconteceu em Santarém simboliza a profanação de toda Portugal diante das marcas recentes da guerra civil e perdas históricas:

“Já me enfada Santarém, já me cansam estas perpétuas ruínas, estes pardieiros intermináveis, o aspecto desgracioso destes entulhos, a tristeza destas ruas desertas. Vou-me embora. […] Decididamente vou-me embora, não posso estar aqui, não quero ver isto. Não é horror que me faz, é náusea, é asco, é zanga. Malditas sejam as mãos que te profanaram, Santarém… que te desonraram, Portugal… que te envelheceram e degradaram, nação que tudo perdeste, até os padrões da tua história!…” (Pág. 208)

Entende-se como padrões os monumentos de Portugal, uma crítica de Almeida Garrett à guerra que destruiu o país. Mas o autor também faz um balanço dos seus próprios ideais, mesmo sendo liberal, reconhece que ambos os lados (absolutistas e liberais) erraram.

“Erramos ambos. […] Erramos e sem remédio. A sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era: mas muito menos ainda pode ser o que é. O que há de ser, não sei. Deus proverá.” (Pág. 239)

Com isso, é possível concluir que o viajante Garrett que vai não é o mesmo que volta, há uma transformação do autor ao longo da viagem, remetendo novamente às ideias de viagens que aparecem no título e que foram mencionadas anteriormente.

  • Planos narrativos na obra

Para finalizar esta resenha, é preciso destacar os planos de narração que estão presentes ao longo da obra, sendo eles:

– Plano da viagem: presente (1843) – narrador = autor (narrador muitas vezes irônico)

– Plano do romance de Joaninha e Carlos: passado (final de 1834) – narrador = companheiro de viagem de Almeida Garret

– Plano da carta de Carlos: passado (1834) – narrador em 1ª pessoa = Carlos

Espero que eu tenha conseguido transmitir de maneira clara a complexidade dessa obra, que não seria possível se não fosse pelas aulas que tive. Acredito ser um daqueles livros que eu precisei ter a professora do lado me explicando cada ponto, rs … Essa leitura não foi nada fácil.

Quero dizer também que além de passar resenhas desse tipo aqui no blog e ajudar quem precisa, é uma forma que eu tenho de estudar também, revendo minhas anotações e organizando de uma forma que faça mais sentido.

Me digam nos comentários já leram este livro e/ou precisam ler. Se já leram, me digam o que mais incomodou na história, vou adorar saber! 😉

Até o próximo post!

Camila Melo

 

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6 comentários em “Resenha | Viagens na minha terra, por Almeida Garrett

  1. Oi Ca! Adorei o post! Não conhecia a obra, mas achei bem legal você trazer da aula as explicações que muitos podem não ter. Acho interessante que quando lê-mos algo fora de nossa zona de conforto possamos entender melhor o contexto história em que a obra foi escrita. Muito boa e confesso, não leria por ser algo chato rs.
    Beijos

    Curtido por 2 pessoas

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