Resenha | Angústia, por Graciliano Ramos

“Na superfície do fluxo narrativo, “Angústia” (1936), de Graciliano Ramos, se organiza por um duplo processo de rememoração, levado a cabo por Luís da Silva, narrador e personagem do romance. Luís fixará residência na capital do estado natal, Maceió. Era funcionário público e, nas horas vagas e noturnas, jornalista e escritor.” (Silviano Santiago) 

Oies Bookaholics!

Eu levei metade do mês de fevereiro para finalizar essa leitura e ela acabou entrando para a Maratona Literária de Carnaval Segura o Livro, mesmo sem estar na minha TBR, livros para ler durante os dias do feriado. O que eu pude perceber depois de finalizar a leitura é que “Angústia” recebeu o prêmio Lima Barreto  em 1936, mesmo ano da publicação dessa obra de Graciliano Ramos.

MARATONA LITERÁRIA DE CARNAVAL – SEGURA O LIVRO: DESAFIO LER UM LIVRO PREMIADO

  • angustia_1313519852b Título: Angústia
  • Autor: Graciliano Ramos
  • Editora: Record
  • País: Brasil
  • Gênero: Literatura Brasileira / Romance
  • Lançamento: 1936
  • 336 Páginas
  • Classificação: 4/5

Sinopse: Marco do romance moderno brasileiro, “Angústia” é a expressão máxima do embate, entre a subjetividade do escritor e a realidade objetiva é sempre opressora, que se revela na figura de um pequeno funcionário e sua consciência de condenado à mediocridade.

Eu decidi ler este livro  devido ao programa de Clube de Leitura realizado pela Biblioteca do Parque Villa-Lobos 🙂 Eu confesso que pensei que seria uma leitura tranquila, mas me enganei completamente, tanto que não consegui ler a tempo para a reunião do grupo e precisei encaixar na maratona.

Apesar de ser uma leitura um tanto difícil eu gostei muito, não é daqueles livros que você consegue ler de uma vez só ou em poucos dias, é preciso tempo para absorver as ideias que Graciliano Ramos quer transmitir, é muito denso e profundo.

Um dos pontos que tornaram a leitura mais devagar, pelo menos para mim, foi o fluxo de consciência. Narrado em primeira pessoa, era muito fácil se perder nos devaneios, memórias e no tempo da história. Há muita subjetividade e me lembrou muito o estilo de A obscena Senhora D, por Hilda Hilst.

Uma curiosidade a cerca deste livro é que muitos consideram que ele não foi finalizado ou que foi mal escrito porque Graciliano Ramos é preso e não teve tempo de revisar o texto, já que ele levava muito tempo para revisar seus livros antes de serem publicados. → Maiores detalhes aqui!

O personagem Luís da Silva vive o sentimento de angústia, ou seja, estado de ansiedade, inquietude; sofrimento, tormento. E esse estado se torna mais extremo ao se relacionar com a vizinha Marina, que ele tem ciúmes fora do controle. Além disso, toda a vida de Luís é deplorável, ele é funcionário público mas vive em situações precárias na sua casa, só escreve o que lhe é mandado, mesmo tendo o objetivo de escrever o seu próprio livro. Luís não consegue tomar atitudes que possam mudar a sua realidade, e nem sei se alguma mudança seria possível.

Luís teve uma infância muito difícil, a mãe não é citada em nenhum momento, o pai e o avô morreram e ele ficou desemparado, morou em vários lugares, passou dificuldades mas conseguiu um pouco de estabilidade ao passar no concurso público e trabalhar num jornal, mesmo sem formação acadêmica.

Um dos pontos que me chocaram muito foi que em um determinado momento Luís afirma que preferia voltar ao tempo que era criança ao momento presente, mesmo com relatos do tratamento que o pai lhe dava, como na passagem a seguir:

“Quando eu ainda não sabia nadar, meu pai me levava para ali, segurava-me um braço e atirava-me num lugar fundo. Puxava-me para cima e deixa-me respirar um instante. Em seguida repetia a tortura. Com o correr do tempo aprendi natação com os bichos e livrei-me disso.’ (Pág. 18)

Luís brincava sozinho, tinha problemas na escola, e outra passagem muito forte é durante o velório do pai que a única coisa que fizeram Luís chorar foi a uma vizinha lhe oferecer café. O curioso é observar que a relação entre pai e filho nessa história é bem conflituosa, além Luís sofrer com o tratamento que sofre do pai, Marina também sofre sem motivos aparentes com um pai opressor e conservador.

Há um triângulo amoroso entre Julião Tavares, Luís e Marina, sendo que Julião rouba o amor da moça. Nesse triângulo podemos ver as diferenças entre Julião, o rico, e o Luís, o pobre, numa luta de classes pelo amor da mulher. Inclusive, os momentos de ciúmes de Luís são muito doentios e a forma com que ele a descreve dá muita raiva, por ser tão machista e abusivo.

Outra passagem que merece destaque é a seguinte:

“A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros. Comovo-me lendo os sofrimentos alheios, penso na minhas misérias passadas, nas viagens pelas fazendas, no sono curto à beira das estradas ou nos bancos dos jardins. Mas a fome desapareceu, os tormentos são apenas recordações. Onde andariam os outros vagabundos daquele tempo? Naturalmente a fome antiga me enfraqueceu a memória. Lembro-me de vultos bisonhos que se arrastavam como bichos, remoendo pragas. Que fim teriam levado? Mortos nos hospitais, nas cadeias, debaixo dos bondes, nos rolos sangrentos das favelas. Alguns raros, teriam conseguido, como eu, um emprego público , seriam parafusos insignificantes na máquina do Estado e estariam visitando outras favelas, desajeitados, ignorando tudo, olhando com assombro as pessoas e as coisas. Teriam as suas pequenas almas de parafusos fazendo voltas num lugar só.” (Págs. 140/141)

Podemos fazer uma comparação e um paralelo com Vidas Secas obra posterior de Graciliano Ramos, em que o maior problema da família de Fabiano é a miséria, seca  e fome enfrentados no sertão. Como Luís passou por problemas semelhantes na sua vida e conseguiu um emprego e melhorar sua condição de vida outro problema o assombra, ser um parafuso  insignificante para o Estado, o que me lembra de uma das razões que tornam o ser humano infeliz, destacado em O mal-estar na civilização, por Sigmund Freud. Assim, você até pode vencer a fome e a miséria, mas ainda assim não terá uma vida plena.

Vários outros pontos enriquecem muito a história, mas se eu mencionar haverá muito spoilers 😉 Há um fato final que pode pegar muitos leitores de surpresa, acredito que isso se dá pela narrativa incerta sobre o que é real ou não, mas vários pontos ao longo de todo livro antecipavam o fato final da história.

Como eu já anteriormente, não é uma leitura fácil, mas destaco o prefácio de Silviano Santigo que há nessa edição, que serve como um guia após a leitura, compreendendo melhor a história e seu contexto.

É um livro que recomendo muito e que valoriza a literatura brasileira e seus autores consagrados!

Até o próximo post.

Camila Melo

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5 Comentários

  1. […] LER UM LIVRO PREMIADO – Angústia, por Graciliano Ramos (finalizei a leitura, foram apenas 70 […]

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  2. […] 12/60 – Angústia, por Graciliano Ramos […]

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  3. Que resenha incrível! Eu cheguei a ler “Vidas Secas” no ensino médio e na época foi uma leitura tão difícil, não digo tanto pelo vocabulário, mas sim, pelo enredo, é tanto sofrimento e o autor consegue fazer o leitor se sentir no ambiente, como se fosse um dos personagens e imagino que com este título que resenhou deve acontecer o mesmo.
    Beijos ❤

    Curtido por 1 pessoa

    1. Bia é exatamente isso! Pelos dois livros que li de Graciliano Ramos os enredos são muito sofridos e tristes mesmo. Eu não vejo tanto problema no vocabulário utilizado pelo autor não, se for comparar com outros autores. Eu recomendo muito essa leitura! 😉 Obrigada pela visita e pelo comentário! ❤ Bjos

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