Diário da Faculdade | Em busca de controle emocional

Oies Bookaholics!

Nesse post vou começar a falar sobre como foram as minhas experiências ao longo do 2º ano do curso de Letras na FFLCH-USP. Como muitas coisas aconteceram em 2016 achei que seria melhor dividir por assuntos, e como adorei os posts de Diário da Faculdade da Vanessa do blog Quase em crise? achei que seriam perfeitos. ❤

Eu sugiro para vocês o post: 1º Ano do Curso de Letras | FFLCH – USP sobre as minhas experiências do meu primeiro ano em 2015. 😉 Antes de começar queria dizer que minhas aulas só vão começar em março e agora que estou de férias do estágio também, consigo pensar e escrever com mais calma. 🙂

Eu não gosto de ficar falando de coisas desagradáveis ou de ficar reclamando, mas eu também preciso ser muito sincera. Estudar na USP sempre foi um sonho para mim, e apesar de 2016 ter trazido muitas coisas boas, em relação à faculdade posso resumir numa palavra: CAOS! Vou listando os problemas que aconteceram e que exigiram de mim muito controle emocional. Preparados?

  • Greve

Para quem estuda em universidade pública sabe que todo início de ano um mal que nos atormenta será se vai ter greve. 2015 passei ilesa, mas 2016 não teve chance. Vou tentar explicar de forma bem resumida: há três grandes grupos de interesse dentro da universidade – professores, funcionários e alunos – os funcionários (que não são a maior parte dos três grupos) resolveram entrar em greve devido à reajuste salarial e outras coisas. O sindicato dos trabalhadores (SINTUSP) entrou em greve no dia 12 de maio e retornaram às atividades depois de dois meses. O meu curso  a partir do centro acadêmico / movimento estudantil resolveu em assembléia a aderir à greve dos funcionários, fazendo ocupação no prédio desde à noite do dia 11 de maio.

O problema foi que o sindicato dos professores (ADUSP) ainda não tinham entrado em assembléia para decidir se entraria em greve também, muitos professores ficaram indignados com a atitude do centro acadêmico, que não esperou um posicionamento para tornar o movimento de greve mais forte ou em pensar em medidas em prol dos professores e alunos. Assim, fomos impossibilitados de entrar no prédio e ter aulas. Estávamos no meio do semestre, deixamos de ver muito conteúdo, muitos professores nem tinham passado nenhum tipo de atividade para atribuir notas e ficamos naquele momento de incerteza sobre como agir e o que esperar.

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O que eu penso sobre greve? Eu acredito sim que a história da universidade se deu pelas conquistas a partir das greves e por muita luta (a greve de 2002, por exemplo, foi uma das mais importantes com muitas melhorias e contratação de muitos professores). Mas esse meio não funciona mais!. A reitoria não dá importância nenhuma aos problemas da universidade, faltam professores, condições físicas dos prédios, fechamento de creches, diminuição de bolsas de iniciação científica, as condições do hospital universitário e mais problemas que estão sendo considerados o “desmonte da universidade”, isso sem mencionar o repasse da verba do governo do estado que vem diminuindo consideravelmente ao longo dos anos, não somente na USP, mas nas universidades públicas de todo país, viram a calamidade que foi 2016 para a Universidade Estadual do Rio de Janeiro?

O curso de Letras foi o pioneiro em mobilizar uma ocupação no prédio e ao longo dos dois meses mais cursos foram aderindo a essa medida. As consequências? Voltamos para as aulas em agosto e tivemos (alunos a partir do 2º ano) apenas duas semanas para repor quase dois meses de aula perdidas, foi muito estressante. E com esse atraso, as aulas se estenderam até janeiro para algumas turmas, posso dizer que fazer prova no dia 19 de dezembro sob muita pressão e estresse foi uma das piores experiências que eu tive. Isso sem mencionar os alunos que são de outros estados e dependem de aluguel e outros benefícios, não sabiam se podia voltar para casa ou não. (Entendam melhor: Jornal do Campus)

  • E-mail anônimo

Já que ainda estou falando da greve, um fato meio curioso e repulsivo aconteceu. Como eu disse após a greve, tivemos duas semanas de reposição. Só fazíamos trabalhos e provas, e na véspera da prova de Literatura Brasileira I, a professora recebeu um e-mail anônimo super agressivo questionando seu método suas atitudes ao longo do semestre. Pensa em como essa professora entrou na sala de aula indignada, e com razão, depois de ser tão atacada? Eu particularmente, tive muita dificuldade no início dessa disciplina, a professora tem alguns problemas de didática, mas nada justifica uma atitude tão imbecil (desculpa a palavra) do aluno que enviou o e-mail. Estamos no ensino fundamental ainda? E se a professora não fosse tão profissional e quisesse prejudicar a sala inteira? Aprendi que independente se gostamos ou não de um professor devemos respeitá-lo e fazer nossa parte como aluno, mas enfim, é complicado.

 

  • Agressão à aluna no CRUSP

Dentro da USP há uma moradia estudantil gratuita, o CRUSP, em abril uma aluna foi agredida por seu namorado dentro da moradia. As frentes feministas entraram em manifestação e exigiram da reitoria a expulsão imediata do agressor. Como a reitoria não está nem aí para os problemas da universidade, (bem possível essa frase se repetir nesse post) virou as costas dizendo que não poderia tomar essa atitude porque pelo regimento (ou sei lá que tipo de norma) esse procedimento não era possível. Detalhe que o agressor é reincidente, e não é a primeira vez, infelizmente, que casos de agressão, assédio e estupro sofrido por mulheres acontecem dentro do campus. E isso é muito revoltante e frustrante! Algumas alunas e alunos resolveram ocupar o prédio da Superintendência de Assistência Social (SAS) em protesto, órgão que administra o CRUSP e todos os programas de permanência estudantil.

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Consequências: muitos alunos não conseguiram receber seus benefícios, como auxílio moradia e alimentação, e o único posto de recarga para os cartões utilizados nos restaurantes/bandejões ficou fechado. Liberaram apenas o restaurante central para utilização, sobrecarregando demais e como não tinha recarga, não entrava dinheiro para a compra de comida. Vocês conseguem entender o efeito disso? Muitas pessoas dependem dos benefícios e dos bandejões para se alimentar, e diferente do que muita gente acha, na USP não tem só “filhinho de papai”, “Mauricinhos” e “Patricinhas” que tem condições de se alimentar adequadamente para conseguir estudar. (Confiram: Huff Post Brasil)

  • Estudante da medicina acusado de estupro

Já que a temática aqui ainda é violência contra mulher, não sei se vocês chegaram a acompanhar o caso do aluno de medicina que foi acusado de estupro conseguiu se formar. Sim, um cara escroto, também reincidente, batizava a bebida das mulheres para cometer os abusos, mas para a universidade isso não é problema, ele pode formar como se nada tivesse acontecido, ainda com o processo em andamento. Gente, ele vai trabalhar, exercer a sua profissão tratando de mulheres, na especialidade de ginecologia e obstetrícia! Por mais que USP tenha deixado o infeliz se formar, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) resolveu impedir o registro profissional dele (menos mal). Entretanto, nessa última semana a Justiça (não sei para quem) resolveu absolver o cara. Eu estou indignada, e tão frustrada, porque levanta toda uma discussão sobre o posicionamento da mulher, e a culpabilidade da vítima em crimes absurdos como esse. É dar nojo e muita revolta 😦 (Maiores detalhes: Huff Post Brasil)

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  • Ônibus atacado e incendiado 

Vamos para o final do mês de agosto. Eu lembro que estava na Bienal do Livro com a minha amiga Amanda (sim, falo muito dela por aqui, rs)  porque não tínhamos aulas na quarta-feira e enquanto eu estava na fila de autógrafos a Amanda ficou do lado de fora da sessão de autógrafos me esperando. Quando eu saí, quase uma hora depois, ela me mostrou que tinham postado várias notícias nos grupos do Facebook da faculdade sobre um ônibus incendiado. Ficamos muito preocupadas e com medo, a Amanda basicamente dentro do campus e dependia do ônibus, não sabíamos como estava de fato a situação lá dentro, foi horrível. Com as notícias, ficamos sabendo depois que houve uma perseguição entre polícia e bandidos e que 2 pessoas foram mortas nos arredores do campus naquele dia mais cedo. Em protesto, atacaram um ônibus dentro da cidade universitária e incendiaram. A Amanda inclusive teve que fazer todo o trajeto a pé e sozinha do metrô Butantã até o campus. Como eu disse anteriormente, diferente do que muita gente acha, na USP não tem só “filhinho de papai”, “Mauricinhos” e “Patricinhas”, muitas pessoas dependem dos ônibus circulares e demais linhas que atendem ao campus. Era muita incerteza e naquela semana os ônibus não circulavam mais nos horários de pico, já que as empresas tinham medo. (Maiores detalhes: Folha de S. Paulo e G1)

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  • Professor acusado de abuso contra mulher

Isso foi a pior coisa que eu pude presenciar ao longo dos dois anos da min ha graduação! Durante as aulas de Literatura Brasileira II o professor inseriu diversos textos polêmicos com temáticas sobre a ditadura militar, homossexualidade, Segunda Guerra, violência, morte e melancolia. Durante a abordagem do texto “O monstro” de Sérgio Sant’anna, que trata de um professor universitário que estupra e mata uma mulher de uma forma tão cruel, o professor levantou alguns dados sobre a violência contra a mulher no Brasil para contextualizar os conceitos apresentados, além de uma análise do texto em questão. Porém ao mencionar os dados de uma pesquisa, ele disse que as mulheres preferiam não fazer a denúncia e isso desencadeou uma série de problemas.

Uma aluna questionou o uso do verbo preferir, e saiu muito revoltada da sala de aula, mesmo o professor pedindo para que ela se expressasse melhor para que ele entendesse o que ela queria dizer. Essa aluna chegou no grupo do curso de Letras 2014 (nenhum grupo do curso tem os professores para que os alunos possam se ajudar e expressar seus sentimentos a cerca das aulas etc), que não tinha nada a ver com a aula em questão e acusou o professor de abuso, o chamou de machista e distorceu tudo o que ele disse em sala de aula. Muitas pessoas, que só tiveram acesso à versão dela, saíram comentando  que ele era machista, que não deveria estar na universidade e por aí vai. Nessa postagem a aluna também disse que na próxima aula dele faria um texto para conseguir se expressar e chamou as mulheres das frentes feministas para apoiá-la. Inclusive, ela fez uma denúncia contra ele na Rede Não Cala, formada por professoras da USP para lidar com os casos de abuso sexual de professores contra alunos.

Agora vamos entender toda a gravidade da situação. O problema é que, infelizmente, é muito comum ter professores assim na universidade, mas no caso desse professor, isso não foi muito justo. Desde o início do semestre esse professor se dedicou a tratar de assuntos pesados, com muito tato e cuidado, a escolha do verbo preferir não estava fora de contexto, ele não entrou na sala de aula e disse simplesmente que as mulheres preferiam não fazer denúncia, ele vinha numa sequência de encadeamento de ideias. A aluna no post em nenhum momento explicou que tipo de aula ele estava lecionando e ainda usou de meio que ele não poderia se defender.

O professor tomou conhecimento e pediu para que sua resposta fosse colocada no post, porque ele estava aberto ao diálogo com todas as pessoas envolvidas e com quem pudesse e quisesse participar. Na aula seguinte, a aluna quis ler a tal da carta que ela queria e gerou um debate horrível. Para resumir o professor contou detalhadamente sua vida vida acadêmica, suas pesquisas na área de violência há mais de 20 anos, para ter sua carreira  e pessoa sendo violada por pessoas que não conhecem o seu trabalho, sendo acusado de algo que ele sempre lutou contra.

Eu estou contando bem resumidamente, mas eu fiquei muito puta! São poucos os professores que estão abertos como esse professor esteve, tão receptivo e didático, tem prazer em lecionar, em ajudar os alunos e digo isso por experiência própria, vou fazer um post específico sobre o quanto essa matéria  significou para mim. O que me deixou muito indignada e muitos colegas também é que nós temos aulas com professores tão escrotos que mereciam o que aconteceu, mas justamente o professor mais humano, teve que passar por isso. No fim, a aluna fez um post (meia boca) de retratação no Facebook sobre o ocorrido.

Uau! Não sabia que escrever esse post me deixaria tão nervosa novamente, mas foram coisas que fizeram parte do meu ano em 2016, e queria compartilhar com vocês. Infelizmente tive que passar por todo esse desconforto e espero que 2017 seja muito mais tranquilo. Oremos!

Até o próximo post.

Camila Melo

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20 Comentários

  1. Poxa Cah, que ano conturbado você teve. Torço para que este ano seja mais tranquilo e que os semestres apresentem um rendimento positivo. Beijos ❤

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    1. Bia! Muito obrigada pelo carinho e motivação! ❤ Bjos ❤

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  2. que post excelente, apesar de perturbador! a história sobre o professor que foi acusado me deixou um tanto quanto chateada, pois o que os machistas mais fazem é negar a existência de um problema e ele pelo jeito estava querendo falar sobre, informar vocês, motivá-los a lutar pelo fim da violência!
    enfim, estou prestes a entrar em uma universidade pública (ou assim espero rs) e acho que já posso tentar preparar meu emocional pra encarar greves e casos de pessoas escrotas, né? e ah, também vou cursar letras 😀

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    1. Oies Isa! Fico muito feliz que você consiga realizar seu sonho 🙂 Em qual universidade você irá entrar? (fiquei curiosa, rs) Olha foi muito complicado toda a situação com o profs mesmo, ele ficou extremamente chateado, não queria mais abordar esses textos polêmicos, não chegou a completar o programa que tinha estabelecido para o semestre, foi muito triste. Alguns alunos o procuraram para pedir as aulas e ele super gentil abriu um horário para gente durante as férias. Ele é excepcional, um dos melhores professores que já tive na Letras! Então toda essa situação me deixou bem abalada… Mas as coisas se resolveram, assim eu espero. Te desejo muita sorte na sua vida acadêmica e qualquer dúvida que tiver pode falar comigo 😉 Bjos

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  3. Eu amei esse post, você falou de um jeito muito aberto, bem diferente do que eu normalmente vejo! Parabéns, eu amei o blog

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    1. Oies! Primeiramente seja muito bem vindo (a) 🙂 Muito obrigada pelo comentário, fico muito feliz que tenha gostado, significa muito para mim! ❤ Bjos

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  4. Parabéns pelo blog e pela sinceridade que podemos perceber em suas palavras. Abraço ♥

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    1. Oies Rodrigo! Primeiramente seja muito bem vindo! 🙂 Obrigada pelo carinho e pela visita! ❤ Bjos

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  5. Bah, como professora tenho pavor da palavrinha “greve”, ainda mais quando a decisão vem de fora da instituição e dentro dela a maioria não quer parar. É uma “democracia” bem opressora, mas querem fazer-nos acreditar no inverso.

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    1. Oies… Exatamente Dalvana! (Você é do Sul né, pelo Bah, rs ❤ ) O que eu sinto lá é que tem tipo uma polarização, vc tem que estar de um lado ou de outro, ou vc é de esquerda ou é de direita. Não pode ficar no meio, e puta isso enche o saco (desculpa, fico nervosa, rs), tem coisas que concordo outras não, dos dois lados. E se me coloco contra às manifestações e greves nossa, meio que sou excluída, tem pessoas que viram a cara, não falam mais comigo, e digo isso pq no meu primeiro ano falei numa assembleia contra paralisação e piquete que queriam fazer em um determinado dia, rs. Então sim, concordo, é uma democracia muito opressora, infelizmente 😦 Bjos 😉

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  6. Sim, sou do sul, guria 😉
    Uma instituição de ensino tem que presar o estudo, a leitura, o debate e o experimento, que são coisas maravilhosas e edificantes, dando a base para a tomada de decisões. Porém, o que vemos é politicagem e falta de conhecimento.
    Temos que ser fortes, mesmo que algumas vezes sejamos rejeitadas. A verdade e a coerência nem sempre estão com a maioria (que por vezes nem é maioria, apenas aparentam ser pelos gritos que dão e pela poluição visual que fazem).

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    1. Exatamente Dalvana, é exatamente isso!

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  7. Nossa, esse ano não foi fácil heim! Espero que os próximos sejam melhores e mais tranquilos. Adorei o diário da faculdade, parabéns! Beijo

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    1. Oies! 🙂 Não foi nada fácil mesmo, mas vou postar sobre as coisas boas que aconteceram tbm, rs 😉 Fico muito feliz que você tenha gostado, muito obrigada pelo carinho ❤ Bjos

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  8. […] vou abordar mais alguns pontos sobre o meu 2º ano e recomendo para vocês o primeiro post Diário da Faculdade | Em busca de controle emocional, confiram! 😉 Como está no título, vou falar sobre as matérias que me decepcionaram e que me […]

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  9. […] de falar sobre os muitos problemas enfrentados e sobre as matérias do 2º ano que me decepcionaram hoje quero falar de coisa boa 🙂 Posso […]

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  11. […] Diário da Faculdade | Em busca de controle emocional […]

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