Resenha | O crime do padre Amaro, por Eça de Queirós

“O crime do padre Amaro (… ) é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província portuguesa”

(Eça de Queirós em nota à segunda edição do livro)

Oies Bookaholics!

Hoje vim trazer a primeira resenha do Projeto de Leitura | Coleção Folha Grandes Nomes da LiteraturaEu confesso que fiquei bem apreensiva quando esse livro foi sorteado, mas fiquei bem surpreendida, positivamente, durante a leitura. 🙂

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  • Título: O crime do Padre Amaro
  • Autor: Eça de Queirós
  • País: Portugal
  •  Gênero: Clássicos / Literatura Portuguesa
  • Lançamento: 1874 – Edição: 2016
  • 472 Páginas
  • Classificação: 4/5

 

Antes de qualquer coisa quero apontar dois pontos que não fizeram dar 5 estrelas ao livro: o primeiro é que achei muitas partes descritivas, “atrasando” o ritmo da história; já o segundo por capítulos muito longos. Entretanto, a experiência foi maravilhosa! ❤ Confesso que precisei sim recorrer ao dicionário em vários momentos para compreender melhor a história, e algumas citações históricas, mas nada que fosse entediante, acreditem: foi muito enriquecedor 😉

Narrado em terceira pessoa, o livro apresenta, em linhas gerais, como tema central o relacionamento impróprio de um jovem padre com uma devota, a jovem mais bonita da região. O mais surpreendente foi a ousadia do autor ao publicar uma obra que vem ser várias críticas à Igreja Católica Portuguesa no século XIX. Conversando com uma colega de trabalho hoje sobre a obra, ela me disse que quando era criança o livro era censurado, as pessoas não podiam ler, ou se liam, era escondido dos pais. Olha a polêmica, rs… E não é por acaso não.

Vou tentar expor minha opinião a cerca da leitura em tópicos para facilitar a compreensão das minhas bagunçadas ideias.

  • Formação de padres sem vocação

Podemos considerar que Amaro Vieira, representa os jovens que foram obrigados a serem padres, sem ter vocação nenhuma. Ainda jovem perdeu os pais e ficou sob os cuidados dos tios que não lhe davam sossego, entrar para o seminário seria cumprir uma promessa imposta pela mãe, além de poder usufruir dos benefícios que os padres detinham naquela época.

“E o rapaz desejava o seminário, como um libertamento. nunca ninguém consultara as suas tendências ou a sua vocação. Impunham-lhe uma sobrepeliz; a sua natureza passiva, facilmente dominável, aceitava-a, como aceitaria uma farda. De resto não lhe desagradava ser padre. (…) lembravam-lhe porém os padres que vira em casa da senhora marquesa, pessoas brancas e bem tratadas que comiam ao lado das fidalgas e tomavam rapé em caixas de ouro; e convinha-lhe aquela profissão em que se fala baixo com as mulheres – vivendo entre elas, cochichando, sentindo-lhes o calor penetrante – e se recebem presentes em bandejas de prata.” (Pág. 30)

  • A profissão de ser padre

Fiquei bem chocada como os padres foram descritos ao longo da obra, eles fumam e bebem, não só vinho, rs. Mas além disso, o comportamento deles não condiz com o amor ao próximo que o cristianismo prega. Eles usam de todo e qualquer artifício para benefício próprio ou para fugir de responsabilidades, usam principalmente das confissões dos fiéis.

“- Escutem, criaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou pedreiro-livre. O que eu quero dizer é que é um meio de persuasão, de saber o que se passa, de dirigir o rebanho para aqui e para ali… E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Aí está o que é – a absolvição é uma arma!” (Pág. 103)

Essa cena se passa durante um jantar entre os padres, e durante esse mesmo jantar um morador de rua bate à casa pedindo comida e eles riem, ignoram e criticam que o homem não quer trabalhar, enquanto se fartam à mesa. Eles usavam das confissões para que os fiéis pagassem valores para terem os seus pecados perdoados, as penitências, valores esses estipulados pelos próprios padres.

“Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas acusações mais longe, contra o Celibato e a Igreja: por que proibia ela aos seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que até têm os animais? Quem imagina que desde que um velho bispo diz – será casto – a um homem novo e forte, o seu sangue vai subitamente esfriar-se? (Pág. 139)

Amaro, porém, tem algumas ideias contrárias a cerca dessa profissão, principalmente nos momentos em que sente ciúmes de João Eduardo, noivo de Amélia.

“Abominava então todo o mundo secular – por lhe ter perdido para sempre os privilégios: e, como sacerdócio excluía da participação nos prazeres humanos e sociais, refugiava-se, em compensação, na ideia da superioridade espiritual que lhe dava sobre os homens. Aquele miserável escrevente podia casar e possuir a rapariga – mas que era ele em comparação dum pároco a quem Deus conferia o poder supremo de distribuir o céu e o inferno? (…) Assim aquele inofensivo moço tinha durante horas, sob a excitação colérica duma paixão contrariada, ambições grandiosas de tirania católica (…)” (Págs. 124 / 125)

Ao longo da história pode-se perceber uma transformação de caráter no protagonista da história, mesmo com os desejos sexuais reprimidos desde sua adolescência, Amaro que antes não concordava com as atitudes tão mesquinhas de seus superiores, passa a ser igual a eles. Para manter seus encontros com Amélia, mente e cria várias artimanhas, bem como de planos bem tenebrosos ao descobrir que a jovem está grávida de um filho que vem manchar a sua reputação.

  • A representação da mulher

Se até os dias de hoje nos deparamos com o machismo, imaginem durante o século XIX?

“As mulheres não entendem nada de política. Têm medo que o homem se meta em barulhos, tenha turras com a polícia (…) E quando há segredo há um segredo a guardar? O homem casado não pode guardar um segredo!… E aí está às vezes uma revolução comprometida…” (Pág. 239)

Nesse ponto João Eduardo conversa com um amigo que luta contra o poder e dominação do clero em Portugal.

“E Amélia, diante daquele chilrear glorioso dum pássaro  contente, subitamente, sem razão, num destes abalos nervosos que vêm às mulheres histéricas, rompeu a chorar.” (Pág. 385)

E o pior no que diz respeito à representação da mulher, acredito eu, foi como o relacionamento do padre com a jovem se tornou abusivo:

“O senhor pároco queria ou o senhor pároco dizia” era para ela uma razão toda suficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos nele, numa obediência animal: tinha só a se curvar-se quando ele falava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.” (Pág. 310)

E a situação passa a ser mais crítica:

“Ela acreditava-o com um receio, todavia, que as altas dignidades o afastassem dela, o levassem para longe de Leiria. Aquela paixão, em que estava abismada e que a saturava, tornara-a estúpida e obtusa a tudo o que não respeitava o senhor pároco ou a seu amor. Amaro de resto não lhe consentia interesses, curiosidades alheias à sua pessoa. Proibia-lhe até que lesse romances e poesias. Para que se havia de fazer doutora? Que lhe importava o que ia no mundo? Um dia que ela falara, com algum apetite, dum baile que iam dar em Vias-Claras, ofendeu-se como duma traição. Fez-lhe em casa do tio Esguelhas acusações tremendas: era uma vaidosa, uma perdida, uma filha de satanás!…

– Mas mato-te! Percebes? Mato-te! – exclamou agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com um olhar acesso.” (Pág. 311)

 

Como eu disse no post de apresentação deste projeto de leitura, eu buscaria material de especialistas e pesquisadores na crítica literária para aprofundar a leitura. Esse artigo foi publicado no livro “Literatura portuguesa aquém-mar” uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas – DLCV / USP. Aparecida de Fátima Bueno é professora doutora em Literatura Portuguesa da USP e minha futura professora nesse semestre 🙂 Queria destacar dois pontos de seu artigo que achei muito interessantes.

1. Espaço

A história se passa numa província e a pesquisadora apontou alguns elementos sobre o espaço que justificam a trama:

“Aliás, o espaço da província, diferente dos “cativeiros de luxo que caracterizam a cidade, é configurado no romance como muito mais propício para a fé. Ao menos para uma fé cega, e um domínio quase absoluto do clero sobre a comunidade de beatas que gravita ao seu redor. Talvez por ser um espaço mais conservador, que acompanha com mais lentidão as mudanças que ocorriam no país, nele encontramos o Portugal tradicional, fervorosamente católico, intolerante e supersticioso, fanático e reacionário. (…) Também devemos levar em conta que no espaço da cidade dificilmente Amélia seria seduzida por Amaro da forma como ocorre na província. Até porque o poder do sacerdócio, de modo geral, exerce sobre as mulheres em Leiria, não se dá da mesma maneira em Lisboa, principalmente na classe social que é aí enfocada, a alta aristocracia. (…) Podemos pensar que no espaço da grande cidade, capital do país, onde são traçados os destinos da nação, e na classe social a que tem algum acesso, mas numa clara posição de subalternidade, a situação de Amaro, um “eclesiástico novo”, como salienta o ministro ao relutar indicá-lo para Leiria, é de dependência, de subserviência, muito diferente do poder que exercerá na província, ao menos no círculo de beatas que passa a frequentar.”

2. Erotismo e sacralidade

Durante a leitura eu já tinha percebido que todas as manifestações eróticas de Amaro eram associadas à símbolos sagrados. A pesquisadora afirma:

“A atitude de Amaro pode ser facilmente justificável, se levarmos em conta que o período em que estuda no seminário coincide com o da adolescência, portanto, com o do despertar da sexualidade, e que, nesse espaço, o único acesso ao feminino se dá através de imagens sacralizadas. Por outro lado, o intriga a ambiguidade de tratamento dado à imagem da mulher (…) Parece assim que, neste romance, o espaço onde o erotismo é possível é apenas aquele em que mesmo um padre socialmente mediano como é o caso de Amaro, pode ter um poder absoluto sobre seu rebanho.” 

E ainda aborda sobre a personagem Amélia:

“Já no imaginário de Amélia o seu relacionamento com Amara é de uma forma de ascese, em função deste “poder divino do padre, [d]esta familiaridade com Deus”. 

Para concluir, como eu já mencionei anteriormente, eu adorei a leitura.  A forma com que a história termina foi muito condizente com todas as ideias e críticas abordadas ao longo da obra. Não há justiça e nem ao menos importância ao crime cometido pelo padre. A ideia de impunidade e descaso consegue fechar de forma real os podres que envolvem uma classe que detém o poder em suas mãos.

O livro teve duas adaptações para o cinema, vou assistir a versão de 2002 com o Gael Garcia Bernal no papel principal. Assim que assistir, falarei no blog as minhas impressões, aguardem! 😉

Eu super recomendo a leitura e digo que vale muito a pena.

O próximo livro do projeto já foi sorteado e será:

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Até o próximo post!

Camila Melo

 

 

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13 Comentários

  1. Muito bom, Cá! Eu gosto muito dessas suas resenhas de clássicos porque dá para perceber que você traz muito do seu curso nelas! E também adoro o formato de tópico, acho didático e sempre aprendo bastante! Haha =)

    Beijo!

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    1. Oies Brenda! Muito obrigada pelo carinho, significa muito para mim! ❤ Estou apaixonada pela área de Teoria e Crítica Literária (vou até fazer um post sobre, rs), e aí acabo seguindo alguns estilos, rs… Bjos ❤

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  2. […] 4/60 – O crime do padre Amaro, por Eça de Queirós […]

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  3. Que legal, Cá! Adorei o post. Tenho medo de fazer desafios assim com a coleção da folha e caírem uns mto difíceis como esse hehehehe #confissoes RS Não sei se vc já viu o primeiro poema da língua portuguesa, mas é a maior baixaria heheheh acho que esses padrões do que é aceitável vão e vêm 🙂 bjs, Cá!! Parabéns pelo post

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    1. Oies Val, eu fiquei com muito medo do sorteio, principalmente pq o livro tem quase 500 páginas, mas até que não achei tão difícil como eu pensei que fosse, ufaaa 😉 Me passa esse poema (talvez eu já tenha visto, mas como não curto muito poesia devo ter apagado da minha mente haha). Obrigada pelo carinho e incentivo, como sempre! Bjos ❤

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  4. Oii Cah, boa noite 🙂
    Amei o formato da resenha! Você consegue explorar os pontos principais dos clássicos de maneira tão natural e simples, parabéns!
    Beijos ♥

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    1. Bom dia Biaa! Uauuu fico muito feliz que você tenha gostado ❤ Muito obrigada pelo apoio e incentivo ❤ ❤ Bjos

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  5. […] Na verdade eu sou apaixonada por toda a Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura, mas como esse foi o último livro da coleção que eu li, resolvi destacar esse. Inclusive eu gostei muito do livro e recomendo a resenha disponível 😉 […]

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  6. […] Hoje vou falar do segundo livro lido do Projeto de Leitura | Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura e para quem não viu tem disponível no blog a resenha de O crime do padre Amaro, por Eça de Queirós 😉 […]

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  7. […] mesmo após 30 anos depois de “Viagens na minha terra”. (Recomendo a resenha de O crime do padre Amaro, por Eça de Queirós) E voltando novamente ao contexto histórico, em 1834 com a vitória dos liberais na guerra, uma […]

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