Um livro real que choca o modelo de família tradicional brasileira…

Oies Bookaholics!

A primeira resenha do ano trata desse livro incrível! Eu comecei a leitura de “Dois irmãos” no final de dezembro, mas só finalizei agora, não porque o livro é ruim, mas porque estava “economizando”, rs.

 

KEEP CALM: NÃO HÁ SPOILERS NESSA RESENHA!

dois-irmaos

  • Título: Dois Irmãos
  • Autor: Milton Hatoum
  • Gênero: Literatura brasileira / Romance
  • Lançamento: 2000
  • Editora: Companhia das Letras
  • 200 Páginas
  • Classificação: 5/5 ❤

Eu já tinha ouvido falar do livro, mas não tinha pensado em ler tão cedo, mas depois que comprei a adaptação da HQ de Fábio Moon & Gabriel Bá e saber que teria a adaptação para a televisão, tive que ler o quanto antes. E esse livro me surpreendeu muito! 🙂

Eu não conhecia muito da história e nem do estilo do autor, e não tinha lido a sinopse (preferi não colocar a porque todas as sinopses que encontrei tinham spoilers), então foi uma surpresa a cada página. Milton Hatoum é nascido em Manaus e é descendente de libaneses, suas origens e suas experiências de vida refletem na obra.

A história é bem diferente do que estou acostumada, se passa em Manaus, com uma família que é descendentes de libaneses. O centro da narrativa se dá pela disputa dos gêmeos Yaqub e Omar, suas relações com a família: o pai Halim, a mãe Zana e a irmã Rânia; e também com Domingas, a empregada da casa e claro, o narrador da história.

Yaqub e Omar são extremamente diferentes, dois opostos. Enquanto Yaqub se dedica aos estudos, Omar é o “vadio” da casa. Disputam desde criança por tudo, gerando uma briga que marca (literalmente) Yaqub para sempre. A mãe decide mandar o filho mais velho para o Líbano, separando os irmãos. Yaqub volta para Manaus e não se vê mais pertencente daquele lugar, daquela casa, daquela família. Parte para São Paulo e passa a se dedicar aos estudos na Escola Politécnica da USP, se formando em Engenharia. Enquanto isso, Omar, vive às custas da família nas noitadas com várias mulheres. Não trabalha e sempre volta para casa bêbado nas madrugadas, só acorda depois do meio dia para tirar a paz da casa.

A personalidade dos gêmeos também é bastante diferente, sendo Omar o mais agressivo e Yaqub aquele que aceita tudo calado. Eu sou muito curiosa e fui procurar o significado do nome Yaqub, por ser tão diferente para saber se esse nome tinha alguma relação direta com a história, e  para minha surpresa, tinha sim, fazendo muito sentido ao  final da história.

Yaqub é um nome de origem hebraica que significa aquele que suplanta, ou seja, aquele vence obstáculos ou adversários.

Acredito que a rivalidade dos gêmeos pode ser comparada com a história bíblica de Caim e Abel, mas a grande diferença se dá pelo amor doentio e obsessivo de Zana, a mãe dos gêmeos, por Omar, também chamado de “Caçula” (achei meio irônico por serem gêmeos há pouca diferença de tempo de nascimento, mas…) que desde o nascimento teve alguns problemas de saúde.

Em vários momentos do livro eu fiquei pensando nas atitudes dessa mulher e fiquei muito intrigada. Eu tenho mais dois irmãos, (mais velhos que eu), e muitas vezes meus irmãos e pessoas mais próximas falam que minha mãe me mima demais ou que tem preferência a um filho, mas depois que li esse livro, percebi que minha mãe tenta nos tratar de forma igual. (vou emprestar esse livro para eles!)

Em contrapartida, o pai, Halim, desde o começo só tem olhos para a esposa Zana, na verdade nem queria ter filhos, para não ter que dividir a atenção da mulher e se privar dos momentos de intimidade que tem com ela. Ele tem que passar sua vida tentando harmonizar a relação dos filhos, tentando resolver as brigas e os problemas.

Um ponto muito interessante que achei foi a narrativa, até o quarto capítulo não sabemos quem é o narrador da história, e aos poucos os detalhes vão sendo revelados. Se vocês lerem a sinopse, vão perder a surpresa! A narrativa ora se volta ao tempo presente, ora a fragmentos do passado de histórias que esse narrador ouviu e também testemunhou. Uma das técnicas do autor foi utilizar de pequenos cliffhangers, a fim de deixar a leitura mais fluída e rápida.

Não poderia deixar de mencionar que em um determinado momento a narrativa tem como contexto histórico a ditadura militar brasileira, a partir do golpe militar de 1964. Foi muito interessante ter um aspecto de um lugar diferente, Manaus, já que boa parte das coisas que li sobre o assunto se passavam no eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Inclusive, há uma passagem que preciso mencionar a cerca da violência e torturas que ocorrem a professores durante esse período:

“Foi humilhado no centro da praça das Acácias, esbofeteado como se fosse um cão vadio à mercê da sanha de uma gangue feroz. Seu paletó branco explodiu de vermelho e ele rodopiou no centro do coreto, as mãos cegas procurando um apoio, o rosto inchado voltado para o sol, o corpo girando sem rumo, cambaleando, tropeçando nos degraus da escada até tombar na beira do lago da praça. Os pássaros, os jaburus e as seriemas fugiram. A vaia e os protestos de estudantes e professores do liceu não intimidaram os policiais. Laval foi arrastado para um veículo do Exército, e logo depois as portas do Café Mocambo foram fechadas. Muitas portas foram fechadas quando dois dias depois soubemos que Antenor Laval estava morto. Tudo isso em abril, nos primeiros dias de abril.” (Pág. 142)

Outra passagem que evidencia as ações dos ditadores que merece destaque é:

“Ele sabia que Manaus se tornara uma cidade ocupada. As escolas e os cinemas tinham sido fechados, lanchas da Marinha patrulhavam a baía do Negro, e as estações de rádio transmitiam comunicados do Comando Militar da Amazônia. Rânia teve que fechar a loja porque a greve dos portuários terminara num confronto com a polícia do Exército. Halim me aconselhou a não mencionar o nome de Laval fora de casa. Outros nomes foram emudecidos. A tarja preta que cobria uma parte da fachada do liceu fora arrancada e as portas do prédio permaneceram trancadas por várias semanas.” (Pág. 149)

A ditadura militar tem um papel decisivo ao final da história dos dois irmãos. E achei bem interessante e porque não surpreendente?

Quando eu digo que esse é um livro real que choca o modelo de família tradicional brasileira, diz respeito a vários problemas e situações absurdas de abuso que não posso mencionar nessa resenha para não dar spoilers 😉 Então, mais uma vez, por favor: não leiam a sinopse! É um livro sobre vingança, ódio, paixão, memórias, mistérios e relação familiar.

Eu gostei muito do livro e quero ler as demais obras de Milton Hatoum, sendo mais três romances: “Relato de um certo oriente” (1989), “Cinzas do norte” (2005) e “Órfãos do Eldorado” (2008), o livro de contos “A cidade ilhada” (2009), além de suas crônicas e ensaios.

Como eu disse anteriormente, o livro foi adaptado para a televisão pela Rede Globo. A minissérie de mesmo nome do livro, será exibida a partir de amanhã, dia 9, e terá 10 capítulos. A trama traz no papel dos gêmeos Cauã Reymond (na fase adulta) e um elenco de peso, com Maria Fernanda Cândido, Juliana Paes, Antonio Fagundes, Antonio Calloni e Eliane Giardini.

Eu estou bem ansiosa para assistir à minissérie e espero, de verdade, que a Globo não (cague) estrague a história maravilhosa do livro. Confiram o vídeo:

 

Eu super recomendo o livro e não poderia ter começado 2017 com uma leitura tão incrível como esta. Espero muito que vocês também possam ler a obra ou ver a série.

Até o próximo post.

Camila Melo

 

 

 

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23 comentários em “Resenha | Dois irmãos, por Milton Hatoum

  1. muito legal a resenha, Cá.
    Uma professora minha da faculdade falou mal do Milton Hatoum e eu meio q deixei de lado, mas tenho curiosidade 🙂
    Meu comentário para você foi incompleto ontem, não sei se vc conseguiu ver o resto:
    Ops, enviei sem querer… Eu tb estou querendo comprar pelo menos umas prateleiras para colocar os livros, pq eles estão dentro de um armário e dá a impressão de q isso não vai dar certo… Rs… Sobre o projeto, achei mto legal msm e percebi q vc começou 2017 com tudo, o blog está mt legal!!😉 Bjos!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Val… Fiquei curiosa para saber o que sua profs falou, rs. Sobre livros no armário para mim não funcionou, pq conforme foi aumento o volume as prateleiras e gavetas começaram a ceder, um dia caiu tudo, para o meu desespero! Estou muito empolgada com esse início de ano e tenho muita fé que muitas coisas boas irão acontecer, e aí acaba refletindo no blog, com várias ideias novas, rs. Bjos ❤

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  2. Oii Cah, devo mencionar que suas resenhas estão ficando cada vez melhores! Meniiina, sério, está escrevendo muito bem, parabéns!!!
    Já faz um tempo que venho lendo comentários e resenhas positivas e inspiradoras acerca do autor e suas obras. Fiquei curiosa para conhecê-lo e apesar da obra que resenhou não ser de um gênero que costumo ler, achei interessante, é tão bom sair da zona de conforto, rs.
    Beijinhos ❤

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    1. Aii Bia! Muito obrigada, comentários como os seus significam muito para mim, me motivam e me inspiram a melhorar! ❤ ❤ ❤ Sobre o livro, eu te entendo perfeitamente, mas sabe, o livro é viciante, tem todo um clima, uma abordagem diferenciada. Leia o livro sim, tenho quase certeza de que você irá gostar! ❤ Bjos ❤

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  3. Que bacana, Camila! Parabéns pelo texto. Acho que comentei com você que tenho esse livro (autografado). – Ah, como eu sou insuportável! – Assistir a série eu não garanto mas vou ler com certeza!

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