Resenha | A hora da estrela, por Clarice Lispector

Oies Bookaholics!

A resenha de hoje faz parte de mais uma leitura obrigatória do programa do curso de Literatura Brasileira II  (que eu estou amando!!!) ❤ ❤ É a segunda vez que leio a obra, e por incrível que pareça ainda me surpreendo com as diferenças de percepção entre uma leitura e outra.

DESAFIO ANUAL: 50/50

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  • Título original: A hora da estrela
  • Autora: Clarice Lispector
  • Gênero: Literatura brasileira / Romance
  • Lançamento: 1977
  • 88 Páginas
  • Classificação: 5/5 ❤

Sinopse: A história da nordestina Macabéa é contada passo a passo por seu autor, o escritor Rodrigo S.M. (um alter-ego de Clarice Lispector), de um modo que os leitores acompanhem o seu processo de criação. À medida que mostra esta alagoana, órfã de pai e mãe, criada por uma tia, desprovida de qualquer encanto, incapaz de comunicar-se com os outros, ele conhece um pouco mais sua própria identidade. A descrição do dia-a-dia de Macabéa na cidade do Rio de Janeiro como datilógrafa, o namoro com Olímpico de Jesus, seu relacionamento com o patrão e com a colega Glória e o encontro final com a cartomante estão sempre acompanhados por convites constantes ao leitor para ver com o autor de que matéria é feita a vida de um ser humano.

Skoob

Vou ressaltar alguns pontos baseadas em anotações durante as aulas, da mesma forma que fiz com Vidas Secas, por Graciliano RamosPauliceia Desvairada, Por Mário de Andrade e Amar, verbo intransitivo, Por Mário de Andrade 😉

Eu li no ano passado “A paixão segundo G.H.” também da autora e não gostei muito. Achei o livro muito subjetivo e difícil, não conseguia compreender a linguagem e as reflexões, acho que muitos têm a mesma percepção que eu tive sobre as obras de Clarice Lispector, mas “A hora da estrela” é completamente diferente, pelo menos na minha percepção.

Cabe lembrar que por mais que seja um livro clássico, sua publicação foi em 1977, 2ª fase do Movimento Modernista no Brasil. Não há toda aquela balela de que livro clássico é difícil por ter uma linguagem muito rebuscada, muito pelo contrário.

O primeiro ponto que merece atenção diz respeito a forma com que a história de Macabéa é contada. Narrado em 3ª pessoa, Rodrigo trata da personagem de forma  de superioridade e com gestos extremamente desumanos, e o mais curioso é que não há interação entre narrador (Rodrigo) e personagem (Macabéa):

“Quero neste instante falar da nordestina. É o seguinte: ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzira-se a si.”(Pág. 18)

Poderia destacar muitas passagens, mas o livro inteiro é composto desta maneira.

“Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? O seu viver é ralo.” (Pág. 23)

Com base na análise de Yudith Rosembaum, psicóloga e mestra em teoria literária  e literatura comparada, há três níveis possíveis para a leitura da obra:

  1. Macabéa: como personagem;
  2. Rodrigo: como narrador que não interage com a personagem;
  3. o ato de narrar: o conflito interno do narrador.

Quando se fala em conflito interno do narrador, podemos tratar de cinismo e ambiguidade:

“Só eu a vejo encantadora. Só eu, seu autor, a amo. Sofro por ela. E só eu é que posso dizer assim: “que é que você me pede chorando que eu não lhe dê cantando?” Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro.” (Pág. 27)

Nesse trecho percebemos que o narrador tanto diz que ama e sofre por Macabéa e também a compara com um cachorro. E a ambiguidade também se faz por só o seu autor a ama, ou seja, ninguém mais tem afeição por ela, ela é abandonada, desolada, excluída e desamparada pela sociedade; há uma declaração de amor irônica.

Ainda tratando da ambiguidade na narrativa durante toda a obra é possível encontrar outros elementos que criam um efeito de controle:

  • jogos de linguagem quando a função da fala não é referir a uma realidade, mas controlar o ouvinte à conversação. Não está compreendido a dizer verdades e diz respeito à persuasão, semelhante à publicidade e discurso político (o leitor / ouvinte não pode dar valor de verdade);
  • manipulação a partir do discurso melodramático;
  • variação da posição do narrador: seu discurso muda a todo momento.

Levando em consideração ao abandono da personagem, podemos considerar a obra como uma crítica à sociedade que excluí os nordestinos que chegam à “cidade grande” para lutar por melhor condição de vida. Até hoje há superioridade e preconceitos, não há como negar, faz parte do contexto histórico brasileiro:

“Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe? (Pág. 14)

E até a forma da narrativa adotada não dá voz à personagem, que é a protagonista da história. É possível compreender que Rodrigo é um narrador erudito que utiliza do discurso de insultos e humilhação para descrever uma personagem nordestina e pobre. Clarice Lispector critica a forma que os intelectuais falam sobre os pobres, ao mesmo tempo que os representa, não dão espaço.

Os sofrimentos de Macabéa, a partir da descrição do seu corpo físico, retratam não só um sofrimento particular, mas uma questão de saúde púbica que até hoje existem no sertão de Alagoas e também em grande parte da região nordeste:

“Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão – os maus antecedentes de que falei. Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdera as botas… Dava-lhe sempre com os nós dos dedos na cabeça de ossos fracos por falta de cálcio.” (Pág. 28)

E Rodrigo como narrador acentua ainda mais um agravante, o machismo:

“… Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.”  (Pág. 14)

Piegas significa sentimentalismo extremo, que é típico da mulher, como consideram. Clarice critica o modelo patriarcal que discrimina e não reconhece a mulher na sociedade, e o que ela escreve não é pertinente se comparado ao que o homem escreve.

O registro de Macabéa sofrendo violência física por parte da tia reflete também da moral conservadora que existe na mulher, mais uma prática do modelo patriarcal:

“Dava-lhe sempre com os nós dos dedos na cabeça de ossos fracos por falta de cálcio. Batia mas não era somente porque ao bater gozava de grande prazer sensual – a tia que não se casara por nojo – é que também considerava de dever seu evitar que a menina vivesse um dia a ser uma dessas moças que em Maceió ficavam nas ruas de cigarro acesso esperando homem. Embora a menina não tivesse dado mostras de no futuro vir a ser vagabunda de rua. Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação.” (Pág. 28) 

A tia da personagem é uma mulher com muita repreensão sexual, canalizou a sexualidade à criança. É possível perceber um comportamento erótico e incestuoso, além de hostilidade: não há afeto nem acolhimento durante a criação de Macabéa.

Mesmo assim, desde a infância a personagem sofre de resignação e conformismo pela violência que sofria, ela não se revolta:

“A menina não perguntava por que era sempre castigada mas nem tudo se precisa saber e não saber fazia parte importante de sua vida.” (Págs. 28 e 29)

Todo esse conformismo se prolonga ao longo da história que é caracterizada por dificuldades na vida profissional, amorosa e afetiva, gerando muita vulnerabilidade e acentuação de seu sofrimento.

O título da obra causa ambiguidade, além de causar um efeito de surpresa ao leitor ao final da leitura, é surpreendente! Podem acreditar!

Há uma adaptação cinematográfica do livro  disponível no YouTube, e assistindo algumas cenas durante a aula percebemos várias diferenças em relação ao livro, já que ignora a presença do narrador, enfatiza a sexualidade no contexto precário, não trata sobre a relação do pobre nordestino, ignorando o efeito provocado pelo livro. Apesar do filme ser bem reconhecido e premiado.

Eu super recomendo essa leitura pelos pontos que destaquei, por tratar de assuntos tão pertinentes de reflexão, e sua leitura é muito fluída e rápida.

Minha visão sobre a autora mudou muito, tenho uma nova (e melhor) compreensão de Clarice Lispector. Vou recomendar este vídeo que pode ajudar muito os que têm curiosidade, interesse ou dificuldade em ler as obras da autora:

Espero muito que vocês tenham gostado da resenha e me digam nos comentários se já leram ou tem interesse em ler Clarice Lispector. Vamos interagir! 😉

Até o próximo post!

Camila Melo 

 

 

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10 Comentários

  1. Ei!

    Então vale a pena ler o livro? Quer dizer, sempre vale a pena ler Clarice, mas comecei o livro e acabei deixando de lado para ler outros. Ganhei o livro faz anos, e até hoje, não consegui pegá-lo para ler – e olha que é fino, né? Haha.
    Adorei a resenha!
    Beijos :*

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim! Vale muito 🙂 É uma experiência incrível… Ele é bem fino mesmo, mas mundo profundo. Dá uma segunda chance sim 😉

      Curtido por 1 pessoa

      1. Farei isso então 🙂

        Curtido por 1 pessoa

        1. Isso, depois me diga o que achou! 😉

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  2. Não me deu vontade de ler este livro até hoje. Bjs

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ahh Bia leia e depois me diga o que achou! Bjos da Cah! 😉

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  3. […] Leitura obrigatória da disciplina de Literatura Brasileira II e eu amei!❤ Confiram: Resenha | A hora da estrela, por Clarice Lispector ❤ […]

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  4. […] 88 páginas com assuntos tão profundos, tão fortes, tão perturbadores e questionadores! Confiram a resenha de A hora da estrela, por Clarice Lispector ❤ […]

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