Resenha | Quando me descobri negra, por Bianca Santana + considerações sobre a consciência negra

Oies Bookaholics!

No mês de Junho participei de um debate sobre mulheres negras na literatura, e tive a oportunidade de conhecer várias autoras, dentre elas, a Bianca Santana: jornalista, professora da Faculdade Cásper Líbero e militante feminista. O livro fez parte das Leituras do Mês | Junho de 2016 e foi uma experiência incrível.

DESAFIO ANUAL: 28/50

quando me descobri

 

  • Titulo original: Quando me descobri negra
  • Autora: Bianca Santana
  • Gênero: Literatura brasileira
  • Editora: SESI-SP
  • Lançamento: 2015
  • 96 Páginas
  • Classificação: 5/5 ❤

Sinopse: ”Quando me descobri negra fala com sutileza e firmeza de um processo de descoberta inicialmente doloroso e depois libertador. Bianca Santana, através da experiência de si, consegue desvelar um processo contínuo de rompimento de imposições sobre a negritude, de desconstrução de muros colocados à força que impedem um olhar positivo sobre si. Caminhos que aos poucos revelam novas camadas, de um ser ressignificado. Considero este livro um presente, é algo para se ter sempre às mãos e ir sendo revisitado. Bianca, ao falar de si, fala de nós.” – Djamila Ribeiro (Skoob)

“Tenho 30 anos, mas sou negra há 10. Antes, era morena.” É com essa afirmação que Bianca Santana inicia uma série de relatos sobre experiências pessoais ou ouvidas no círculo de mulheres negras que organiza. Com uma escrita ágil e visceral, denuncia com lucidez – e sem as armadilhas do discurso do ódio – nosso racismo velado de cada dia, bem brasileiro, de alisamentos no cabelo, opressão policial e profissões subjugadas. (Saraiva)

Dividido em três partes intituladas: “do que vivi”, “do que ouvi” e “do que pari” a autora desenvolve sua narrativa de forma rápida, clara e muito concisa. Os relatos apresentados mostram o quanto a sociedade é racista e preconceituosa.

Nem todo lugar é de preto

No ano passado, participei de um debate sobre reforma política. Uma jovem negra, preocupada em levar o debate à maior parte da população, perguntou como a campanha estava sendo feita na periferia. Ela não mora na periferia e foi muito assertiva na pergunta. Outra participante, tentando  ser solidária, perguntou em que bairro a jovem negra morava. Se a preocupação com a periferia tivesse vindo de uma pessoa branca, ela não teria sido mal interpretada. Esse racismo sutil, implícito e difuso é o mais comum. Afinal, pode ser uma simples confusão de quem sentiu o racismo. Ou um protocolo de segurança, mero procedimento. Mas ele acontece todos os dias. Fere. Machuca. E reafirma, com crueldade, que nem todo lugar é lugar de preto, principalmente se sua aparência não for “aceitável”. Imagino que cabelo alisado e roupas de grife atenuem a abordagem racista. Com meu cabelo crespo e as roupas de que gosto, todos os dias sou lembrada de que bairro central, casa grande , cafés e restaurante de classe média e ser professora universitária não são para mim.”

(Págs. 25 e 26) 

Outro ponto que queria destacar:

Prevenção

“Pai médico, mão advogada. Filho único, escola particular, aula de inglês e de alemão. Roupa de marca, tênis colorido, o último smartphone. Fone de ouvido profissional, desses que as celebridades exibem. Cabelo bem cortado, perfume, óculos de sol. Bom gosto de quem usa o que é bonito, sem importar se é caro ou barato. E todo fim de tarde, quando andava pelo calçadão, quem vinha da outra mão mudava de calçada.”

(Pág. 93)

Há vários relatos iguais ou até mesmo mais chocantes do que os destacados nessa resenha. É uma leitura que nos faz refletir sobre o ambiente em que estamos inseridos. Por ser negra me imagina nas situações descritas, nos meus familiares e meus amigos. O quanto sofremos todos os dias para provar, inclusive para nós mesmos, que nós negros não somos incapazes pela cor da nossa pele, mesmo que a sociedade tenta nos moldar em seus patrões conservadores.

Preciso destacar toda a arte e diagramação do livro. A obra ficou em terceiro lugar no Prêmio Jabuti 2016 na categoria de ilustração. Com as páginas pretas, letras brancas e ilustrações de Mateu Velasco, o livro chama muita atenção pelo seu formato diferenciado e seu design.

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Eu passei a admirar a coragem e ousadia da autora ao escrever de forma tão realista a posição do negro no Brasil, e ainda, ser negra e mulher. Pelo processo de transformação que ela mesma sofreu sobre sua raça, eu me identifiquei em vários momentos.

É uma leitura pesada, triste, mas necessária, não dá mais para ignorar o racismo, preconceito e discriminação, é impossível! Todos precisam ler este livro para se conscientizar!

Mas por que resolvi falar desse livro especialmente hoje? Hoje, dia 20 de novembro, é considerado o dia da Consciência Negra:

O Dia da Consciência Negra é comemorado no Brasil, no dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares um escravo que foi líder do Quilombo dos Palmares e simbolizou a luta do negro contra a escravidão que sofriam os brasileiros de raça negra. Zumbi morreu enquanto defendia a sua comunidade e lutava pelos direitos do seu povo. A data foi incluída em 2003 no calendário escolar nacional. Contudo, somente a Lei 12.519 de 2011 instituiu oficialmente o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência NegraA data virou feriado no Brasil, embora não seja adotado em todos os locais – é feriado em  1.047 municípios brasileiros.

Fonte

É impossível falar de consciência negra, sem falar sobre o racismo. E sim, o RACISMO EXISTE, infelizmente! Nessa semana o Governo do Estado do Paraná fez uma campanha sobre a data de hoje, para tratar sobre este assunto:

Vale lembrar também da fala do Emicida no programa Altas Horas no ano passado:

 

E ainda encontrei esse outro vídeo também muito interessante:

Sou negra e tenho orgulho da minha cor, da minha raça e cultura. A sociedade precisa aprender a tratar os negros com respeito, a cor da pele de uma pessoa não pode mais determinar o juízo de valor sobre ela. É preciso acabar com os estereótipos! (confiram: Estereótipos? #PqNão) Sou a favor das cotas sim, e sabe o porquê? Porque infelizmente a sociedade não sabe lidar com pessoas negras no mesmo ambiente, muitos acreditam que os negros não tem capacidade ou condições de estudar em universidade pública ou ocupar posições de poder, por exemplo.

Mas sabe, nós podemos!

Nossa luta ainda não acabou!

Até o próximo post!

Camila Melo

 

 

 

 

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8 Comentários

  1. Mulher, que post maravilhoso!
    O livro me impressionou bastante, lembrando inclusive o “Sejamos todos feministas” – mesmo que abordem questões diferentes – e a forma de escrever da Chimmamanda.
    Ótimas referências no final. ❤

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Marcela! Muito obrigada 🙂 Esse livro é maravilhoso ❤ E adorei tbm o livro da Chimmamanda, ela é maravilhosa, só não quis falar muito pq queria destacar mais o racismo no Brasil 😉 Bjos sua linda ❤ ❤

      Curtido por 1 pessoa

  2. Ah, que coincidência linda, vi essa reportagem do Emicida hoje de manhã! Tem do MV Bill também 🙂 Bjo

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sério? Muito boa né? Vou procurar essa do MV Bill, obrigada pela dica 😉 Bjos

      Curtido por 1 pessoa

  3. […] Além dos livros que irei citar, também disponibilizei a resenha de um livro em especial ao dia da Consciência Negra, no dia 20 de Novembro: Resenha | Quando me descobri negra, por Bianca Santana + considerações sobre a consciência negra 😉 […]

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  4. […] (confiram também Resenha | Quando me descobri negra, por Bianca Santana + considerações sobre a consciência negra) […]

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