Resenha | O demônio da perversidade, por Edgar Allan Poe

Oies Bookaholics!

Hoje é dia da quarta resenha do projeto de leitura do Mês do Horror 2016 | Especial Edgar Allan Poe 🙂 Os contos que fazem parte deste projeto compõem o livro “Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias” da Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura ❤

Confiram também as resenhas dos contos que já estão disponíveis no blog:

Publicado em 1845, este conto, em comparação com os demais já lidos, tem um aspecto diferente. Poe através de seu narrador utiliza da grande maioria do conto para elaborar sua teoria sobre a perversidade.

E não é brincadeira, logo no primeiro parágrafo, que nesta edição ocupa mais de uma página, o autor já inicia seu raciocínio utilizando como referência os princípios da frenologia, que é estudo da estrutura do crânio de modo a determinar o caráter das pessoas e sua capacidade mental. Em síntese, o narrador quer dizer que:

“A indução, a posteriori, teria levado os frenólogos a admitir uma coisa paradoxal como princípio inato e primitivo das ações humanas, algo que denominaremos perversidade, na falta de um termo melhor.”

(Págs. 6 e 7)

Algumas características da perversidade que o narrador destaca são:

  1. através dos estímulos da perversidade, agimos pela razão de que não deveríamos agir, ou seja, é irracional;
  2. em certas mentes, sob determinadas condições, torna-se completamente irresistível;
  3. é um impulso radical e primitivo – um impulso elementar;
  4. o desejo por nosso próprio bem-estar não apenas não é despertado, como surge um sentimento que é seu forte antagonista;
  5. trememos com a violência do conflito que está sendo travado dentro de nós, o combate entre o definido e indefinido, a batalha da substância com a sombra. Porém, se a luta chegou a este ponto, lutamos em vão, porque a sombra triunfará.

Eu tenho a obrigação de confessar que este conto foi muito confusão para mim, um dos mais difíceis que li. As ideias que o autor expõe precisaram ser lidas no mínimo duas vezes, tomando anotações e buscando o significado de palavras e conceitos. Mas eu digo, não desanimem! rs 😉

Umas das etapas da análise de conto que pude aprender foi a de reler o conto inúmeras vezes, e quanto mais leituras fizer, melhor. Isso porque sempre poderemos encontrar elementos que estão “escondidos” na primeira leitura, que é a mais rasa, superficial.

Assim, durante a terceira leitura do quarto (longo) parágrafo encontrei uma justificativa para a confusão que o conto estava fazendo na minha mente:

“Não existe homem algum que, em algum período de sua vida, não tenha sido atormentado, por exemplo, pelo sincero desejo de atormentar um ouvinte por meio de circunlóquios. O orador sabe que está desagradando o ouvinte; a sua verdadeira intenção é agradar; em geral, seu estilo é breve, preciso e claro; a linguagem mais lacônica e luminosa está lutando para ser proferida por sua língua; é somente com dificuldade que consegue impedir que ela se manifeste; de fato, teme e lamenta a cólera daquele com quem fala; todavia, é atingido pelo pensamento de que, através de certas manipulações e parênteses, esta raiva pode ser despertada. Esse único pensamento é quanto basta. O impulso transforma-se em desejo, o desejo domina a vontade, esta assume o caráter de um anseio incontrolável e o anseio (para profundo remorso e mesmo vergonha daquele que está falando, apesar de todas as possíveis consequências) é imediatamente satisfeito.”

(Pág. 8)

Podemos compreender que este narrador está nos manipulando, e ainda, os  seus circunlóquios (uso excessivo de palavras para emitir um enunciado que não chega a ser claramente expresso; rodeio, circunlocução, circuito de palavras) impediram de nos dizer quem ele é, por exemplo, não sabemos nada a seu respeito.

Porém, ao continuar a leitura, o narrador finalmente justifica o porquê de sua atitude:

“Descrevi tudo isso para que de certo modo pudesse responder à sua questão, para que pudesse explicar-lhe por que estou aqui, para que pudesse transmitir-lhe alguma coisa que tivesse, pelo menos, um leve aspecto de uma causa para que estivesse agora usando estes grilhões e que justificasse o fato de que habito esta cela destinada aos condenados. Se não tivesse sido tão prolixo, talvez você me tivesse entendido completamente errado; ou, como a ralé, poderia achar que sou louco. Da maneira como descrevi o acontecido, você facilmente perceberá que sou apenas uma das vítimas incontáveis do Demônio da Perversidade.”

(Pág. 10)

As partes destacadas do oitavo parágrafo revelam que este narrador está preso e se coloca como vítima da perversidade, que ele a caracteriza como demônio. No nono parágrafo o narrador descreve o crime que o demônio da perversidade fez que ele cometesse:

“É impossível que qualquer outra proeza pudesse ter sido realizada através de uma deliberação mais completa. Ponderei por semanas, durante meses, sobre a maneira de realizar este assassinato. Rejeitei mil esquemas porque sua realização envolvia a mera possibilidade de detecção. Finalmente, ao ler um volume intitulado Memórias francesas, encontrei o relato de uma doença quase fatal que acometeu uma certa Madame Pilau devido a uma vela acidentalmente envenenada. Imediatamente a ideia estimulou-me a imaginação. Sabia que minha vítima tinha o hábito de ler na cama. Sabia, também, que seu apartamento era estreito e pouco ventilado. Mas não preciso incomodá-lo com todos esses detalhes impertinentes. Não preciso descrever as manobras fáceis com que logrei substituir, no candelabro de seu quarto de dormir, uma vela de cera comum que ali se achava, por outra de minha própria fabricação. Na manhã seguinte, ele foi achado morto em seu leito e o veredito do legista foi o de “Morte pela visita de Deus”, ou seja, morte natural.”

(Págs. 10 e 11) 

Podemos observar que:

  1. o crime, assassinato foi premeditado;
  2. uma vela envenenada foi a arma do crime;
  3. e o assassino saiu impune, já que a morte foi considerada natural.

Outro ponto de diferença entre este conto e os demais é que o autor resume em um único parágrafo o seu crime. Não há o desenvolvimento de um clímax, nem os elementos característicos de Edgar Allan Poe, como o sobrenatural e horror. Não é revelado quem foi a vítima, e sua relação com o narrador parece ser de parentesco já que ele torna-se herdeiro e o motivo do crime foi provocado pelo demônio da perversidade.

Tendo assim herdado suas propriedades, tudo correu bem para mim durante anos. A ideia de ser descoberto não entrou em meu cérebro nem por um momento. Eu mesmo tinha destruído cuidadosamente os restos da vela fatal. Não tinha deixado a sombra de uma pista através da qual pudesse ser possível condenar-me, ou até mesmo suspeitar de mim por esse crime. É inconcebível a riqueza do sentimento de satisfação que surgia em meu peito a cada vez que eu refletia sobre minha absoluta segurança. Por um período de tempo muito longo, acostumei-me a gozar deste sentimento. Ele me trazia uma delícia muito maior que todas as vantagens materiais que havia recebido através de meu pecado.” 

(Pág. 11)

O narrador até chega a mencionar “a riqueza do sentimento de satisfação” por não ser responsabilizado pelo assassinato, mas gradativamente o demônio da perversidade começa a importuná-lo, a ponto do narrador não conseguir mais suportar o peso do segredo que tinha:

“Por um momento, experimentei todas as agonias da sufocação; fiquei cego, surdo e tomado de vertigem; e então, algum demoniozinho invisível, acho eu, bateu-me nas costas com a larga palma da mão. O segredo que aprisionara por tão longo tempo explodiu para fora de minha alma com a força de um tufão.”

(Pág. 12)

E isto explica o fato do crime do narrador não ficar impune, porque ele mesmo, da mesma forma que foi provocado a cometer o assassinato, também foi provocado a confessar o que tinha feito. Podemos perceber que mesmo que o crime seja perfeito, o seu autor nunca sairá impune, alguma coisa, ou ele mesmo irá denunciar os atos.

Se neste conto não há os elementos sobrenaturais ou de horror, podemos perceber outra característica de Poe, a loucura. Como o conto é narrado em primeira pessoa, o narrador não é confiável. Mesmo que ele faça toda uma teoria sobre o demônio da perversidade, dá para questionar o nível de loucura que está a mente deste narrador.

O conto “O coração delator”, ou coração revelador, dependendo da tradução (que não faz parte deste livro) também apresenta elementos muitos semelhantes a este conto, em que um narrador / personagem também está impune de seu crime mas acaba revelando a verdade. Em ambos podemos observar uma loucura na mente.

Lendo várias vezes eu fui gostando mais do conto, que a princípio não tinha gostado tanto como os outros. Eu espero que vocês tenham gostado da resenha!

Me digam nos comentários se já leram este conto, e se sim, o que vocês acharam 😉

Até o próximo post!

Camila Melo 

 

 

Anúncios

8 Comentários

  1. Deve ser demais esse livro! 🙂 Te indiquei em uma TAG lá no meu blog.
    https://quartoamericano.wordpress.com/2016/10/27/tag-six-on-six/
    Espero que goste.
    Abraços.

    Curtir

    1. Leo eu estou adorando! Leia tbm e me diga o que achou, viu? 😉 Muito obrigada por me indicar ❤ Bjos da Cah! 🙂

      Curtido por 1 pessoa

  2. Li há alguns meses um livro de contos de Poe, apenas me apaixonei! Arrasou na resenha =D

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Nivia! Poe é maravilhoso, sempre me surpreendo com suas narrativas ❤ Muito obrigada pelo carinho, significa muito para mim ❤ Bjos da Cah! 😉

      Curtido por 1 pessoa

  3. […] O demônio da perversidade, por Edgar Allan Poe […]

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: