Resenha | Nunca aposte sua cabeça com o Diabo, por Edgar Allan Poe

Oies Bookaholics!

A resenha de hoje do projeto de leitura do Mês do Horror 2016 | Especial Edgar Allan Poe vai abordar o quinto conto dos seis que compõem o livro “Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias” da Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura ❤

Eu quero recomendar as resenhas de Os fatos que envolveram o caso de Mr. Valdemar, por Edgar Allan Poe e Hop-Frog ou os oito orangotangos acorrentados, por Edgar Allan Poe, as duas leituras desse projeto 😉

Uma das características de Edgar Allan Poe é abordar temas de diversas áreas e aprofundar sobre elas, trazendo a sua perspectiva, além de citações de obras e outros autores. Nesse conto o narrador defende a ideia de que:

“Toda obra de ficção deve ter uma moral; a propósito, a crítica literária descobriu que toda obra de ficção de fato tem.” 

(Pág. 53)

E ainda…

“… desde que as atitudes morais de um autor sejam puras em sua vida diária, a moral expressada por ele através de seus livros não tem a menor importância.”

(Pág. 53)

Podemos perceber que Poe faz afirmações sobre a arte da escrita, sobre a crítica literária, e ainda levanta considerações sobre o estilo dos novelistas.

“Nenhum homem pode se assentar a escrever sem que tenha um desígnio muito profundo.”

(Pág. 54)

Tudo isso para defender uma ideia que nos faz perguntar qual é o limite entre o autor e a figura do narrador, o quanto a vida do autor pode influenciar na sua obra.

“Não há razão, portanto, para a acusação que me foi feita por alguns ignorantes, de que eu nunca escrevi um conto com cunho moral, ou, para usar uma terminologia mais precisa, uma história com uma moral. Não são estes críticos que vão me corrigir e desenvolver minha moral – este é o segredo (…) Enquanto isso, para adiar minha execução, para mitigar as acusações levantadas contra mim, ofereço a triste história publicada abaixo, sobre cuja moral não pode recair a menor acusação, uma vez que pode ser lida nas grandes maiúsculas que formam o título do conto. Eu deveria receber o devido crédito por esta disposição do cabeçalho, muito mais inteligente que a de La Fontaine e de outros, que reservam a lição moral para o último momento e assim a introduzem justamente no final de suas fábulas.”

(Págs. 54 e 55)

Fica claro então que a ideia do autor é escrever um conto que tem uma moral, citando La Fontaine, o autor assume as características do gênero da fábula:

“As fábulas possuem caráter educativo e fazem uma analogia entre o cotidiano humano com as histórias vivenciadas pelas personagens, essa analogia é chamada de moral e geralmente é apresentada no fim da narrativa.”

A história por fim se inicia e já sabemos que a personagem Toby Dammit é amigo falecido do narrador, que o descreve como um patife infeliz como um cachorro e morreu uma morte de cão, porém o narrador assume que os defeitos da personalidade da mãe de seu amigo que não o fazia culpado dos vícios.

“Ela se esforçou o máximo para espancá-lo com frequência enquanto ele era menino, porque, para sua mente bem-regulada, os deveres eram sempre prazeres, e as crianças, como os bifes duros, ou como as modernas oliveiras gregas, invariavelmente melhoram com as batidas. Só que a pobre mulher tinha a infelicidade de ser canhota e é melhor que uma criança não apanhe nunca dos que batam nela com a mão esquerda. O mundo se move da direita para a esquerda. Não convém bater em uma criança da esquerda para a direita. Se cada golpe dado na direção certa expulsa uma inclinação má, seguese que cada palmada aplicada na direção errada aumenta a maldade do indivíduo. Muitas vezes estive presente enquanto Toby era chicoteado; e até mesmo pela maneira como ele esperneava, dava para perceber que estava piorando a cada dia. Finalmente eu vi, através das lágrimas em meus olhos, que o pequeno vilão não tinha a menor esperança de se corrigir; e um dia em que ele tinha sido esbofeteado até ficar com o rosto tão preto que dava para confundi-lo com um jovem africano e o único efeito produzido foi um acesso de raiva, não pude mais suportar, e, caindo imediatamente de joelhos, erguendo minha voz bem alto, profetizei sua ruína.”

(Págs. 55 e 56)

A partir desse ponto o narrador começa a descrever a personalidade de Tobby desde que o amigo tinha 5 meses, e o menino era “atentado” desde muito pequeno. O amigo tinha o hábito de fazer apostas para dar credibilidade ao que dizia.

“Quando ele dizia “aposto tal e tal coisa”, ninguém jamais pensava em pegá-lo pela palavra; mesmo assim, eu não podia deixar de considerar que meu dever era repreendê-lo. O hábito era imoral e eu lhe repetia esta opinião frequentemente. Era um hábito vulgar; eu lhe pedia que acreditasse nisso. Era um hábito condenado pela sociedade – não lhe dizia mais que a verdade.”

(Págs. 56 e 57)

O narrador também afirma que pela mãe de Dammit ser deficiente físico impunha ao filho o vício da pobreza:

“A pobreza era outro vício que a deficiência física peculiar da mãe de Dammit tinha imposto a seu filho. Ele era detestavelmente pobre; sem dúvida esta era a razão por que suas expressões características sobre apostas raramente assumiam uma coloração pecuniária. Sou obrigado a dizer que nunca o escutei utilizar uma figura de linguagem tal como “aposto um dólar”. Em geral, ele dizia coisas como “aposto o que você quiser” ou “aposto tudo o que você tiver coragem” ou “aposto qualquer besteira” ou então, o que era muito mais significativo, sua expressão mais vulgar: “Aposto minha cabeça com o Diabo”.

(Pág. 57)

Como Dammit tornou a usar cada vez mais a expressão, o narrador se viu na obrigação de tentar salvar o amigo, pois acreditava que sua alma já estava em grande perigo. Porém Dammit não precisava do conselho de ninguém, desprezava as insinuações do amigo e tinha idade suficiente para cuidar de si, o que nos leva a entender que há uma diferença de idade entre os amigos, sendo o narrador mais velho, mais experiente.

Porém, o narrador acaba entrando no jogo de Dammit e por duas vezes vê o amigo apostando sua cabeça contra o diabo. Na segunda vez os dois estavam para atravessar um rio através de uma ponte, e ao final tinha roleta de uma considerável altura. O narrador desafia o amigo a pular aquela catraca e então começa os elementos sobrenaturais no conto.

Um fato muito interessante que aparece nas notas do tradutor é que o nome Dammit faz trocadilho com Damm it! – maldição, maldição, maldito seja, dane-se, em inglês, ou seja, o nome do personagem foi escolhido desde o início com intenção irônica.

Como no início do conto já sabemos o fim da morte de Dammit o impressionante é saber como essa morte se dá, e como o conto tem a função de deixar a moral de nunca apostar a cabeça com o diabo:

“A verdade é que ele não tinha mais cabeça; e depois de examinar em volta com todo o cuidado, não pude encontrá-la em parte alguma.”

(Pág. 65)

E o último parágrafo nos faz questionar qual era o nível de amizade entre o narrador e Dammit, é de surpreender!

Eu gostei muito deste conto, mas não achei tão apavorante como os demais do livro. mas recomendo muito!

Espero que tenham gostado! Em breve os demais contos serão resenhados 😉

Até o próximo post!

Camila Melo 

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11 Comentários

  1. Oie! Não sei nem dizer como tô amando esse seu projeto Mês do Horror! Tenho o mesmo problema que você: sou medrosa demais! Mas sempre tive muita curiosidade pra ler Poe e suas resenhas estão me inspirando! Ele já entrou na lista. Parabéns e obrigada! Beijão

    Curtido por 1 pessoa

    1. Aiii Gi, eu to tentando superar esse meu medo, mas sabe, Poe é maravilhoso. E a ideia do projeto além de sair da minha zona de conforto é apresentar esse autor às outras pessoas, por ser um autor clássico não tem problemas com a linguagem que ele utiliza, nem com os temas. Só em saber que vc está gostando me deixa muito feliz, parece que a ideia do projeto está funcionando! 🙂 Assim que ler me diga o que achou, vai ser muito legal compartilhar sua experiência! Bjos da Cah! ❤

      Curtido por 1 pessoa

      1. Com certeza está funcionando! Continue inspirando sempre! E pode deixar que vou contar sim hehe beijosss

        Curtido por 1 pessoa

  2. O poe é viciante, comecei lendo um conto e depois estava buscando tudo dele! Beijos :**

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim, muito viciante! Hahaha Bjos da Cah! 🙂

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  3. […] Nunca aposte sua cabeça com o Diabo, por Edgar Allan Poe […]

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