Resenha | Hop-Frog ou os oito orangotangos acorrentados, por Edgar Allan Poe

Oies Bookaholics!

Hoje é o dia da segunda resenha do projeto de leitura do Mês do Horror 2016 | Especial Edgar Allan Poe, para quem não viu ainda a primeira resenha foi do conto Os fatos que envolveram o caso de Mr. Valdemar, por Edgar Allan Poe, confiram 😉

Poe publica este conto em 1849, quando tinha 40 anos. Na edição de “Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias” da Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura , esse é o segundo dos seis contos que compõem o livro.

Narrado em terceira pessoa, o conto tem elementos que se assemelham às histórias de contos de fada:

Contos de fada são narrativas em que aparecem seres encantados e elementos mágicos pertencentes a um mundo imaginário, maravilhoso. São histórias muito antigas, que eram transmitidas de boca em boca e passada de geração para geração. Há neles, também, uma ordem existente, ou seja, uma situação inicial; uma ordem perturbadora, quando a situação de equilíbrio inicial se desestabiliza, dando origem a uma série de conflitos que só se interrompem com o aparecimento de uma força maior. A seguir a ordem é restabelecida. Geralmente há personagens do bem e do mal, e a vitória, apesar do sofrimento, sempre é do personagem do bem. O ‘’Era uma vez…’’ nos remete ao passado e serve de passaporte do mundo real para um mundo irreal, mundo da fantasia.

Ao longo do conto, as indicações da natureza são limitadas e vagas, não permitindo determinar com rigor a duração de ação ou localização num contexto histórico preciso. O mesmo ocorre relativamente com espaço: um palácio, uma casa, uma floresta,… Essas características permitem aos contos um caráter atemporal e universal, concedendo a eles uma reatualização permanente, pois podem acontecer em qualquer lugar e tempo.

Características dos contos de fada

No conto o rei, entretanto, tem um gosto interessante:

“Nunca conheci ninguém que gostasse tanto de uma piada quanto o rei. Parecia viver somente para brincadeiras. Contar uma boa e divertida anedota, isto é, contá-la da maneira certa que salientasse o imprevisto do desfecho, era a melhor maneira de conquistar-lhe o favor.” 

(Pág. 13)

E esse gosto do rei por piadas que muitas vezes era capaz de suportar a extensão de uma história pelo prazer do seu alcance, e as brincadeiras pesadas agradavam mais a seu gosto que os motejos meramente verbais, ou seja, o rei achava mais graça nas ações do que nas piadas faladas.

O rei contava com sete ministros que eram muito semelhantes fisicamente:

“Todos eles eram fisicamente parecidos com o rei, homens grandes, corpulentos e gordos, do mesmo modo que inimitáveis brincalhões. Não sei se as pessoas engordam porque fazem gracejos, ou se existe alguma coisa na própria gordura que predispõe a pessoa à jovialidade…” 

(Pág. 13)

Pela percepção do narrador podemos perceber que a história se passa a partir do período da Idade Média em que existiu a figura do Bobo da Corte, que era a pessoa na monarquia encarregada de entreter o rei e a rainha e fazê-los rirem.

“Na época em que transcorre minha narrativa, ainda não tinha saído de moda completamente ter humoristas profissionais nas cortes e palácios. Diversos dos grandes poderes do continente europeu mantinham os seus “bobos”, que usavam roupas recortadas de tecidos multicoloridos, capuzes e guizos, e de quem se esperava que estivessem sempre a postos – ou até mesmo interferissem nos assuntos sérios – com críticas contundentes, preparadas de antemão ou criadas na inspiração do momento, em troca das migalhas que caíam da mesa real.”

(Pág. 14)

A ilustração abaixo pode nos dar uma imagem dessa figura:

hopfrog_final1_1244

Escolhi esta imagem porque “além de ser um humorista profissional, todavia, não era somente um tolo brincalhão. Seu valor era triplicado aos olhos do rei pelo duplo fato de que, além de anão, também era aleijado.”

Dessa forma, se explica o termo Hop-Frog, literalmente, uma rã saltadora, nome que deram ao bobo, nome este escolhido pelos sete ministros do rei, devido a sua incapacidade de caminhar como os outros homens.

“De fato, Hop-Frog só conseguia movimentar-se através de uma espécie de passo interrompido – um misto de pulo e contorção – um movimento que provocava diversão ilimitada e dava um certo consolo ao rei, porque, (apesar de uma imensa pança protuberante e um inchaço de nascença que tinha na cabeça) a corte inteira proclamava que seu soberano era um homem muito bonito.”

(Pág. 15)

A partir desse ponto podemos perceber como o rei e os seus ministros tinham uma atitude preconceituosa com alguém que nascera com uma dificuldade física, simplesmente por esse anão ser diferente do que a maioria das pessoas são.

Entretanto…

“Embora Hop-Frog, devido à deformação de suas pernas, só conseguisse mover-se com muita dor e dificuldade ao longo de uma estrada ou pelo assoalho, o prodigioso poder muscular que a Natureza havia conferido a seus braços, como uma espécie de compensação pela deficiência nos membros inferiores, permitia-lhe executar muitas proezas de maravilhosa destreza, no que se refere a árvores, cordas ou qualquer outra coisa em que pudesse usar os braços para trepar. Em tais exercícios ele realmente lembrava muito mais um esquilo ou um macaquinho do que um sapo.”

(Pág. 15)

O narrador conta que o anão fora dado de persente ao rei juntamente com uma outra anã, Trippetta vindos de outro país, mais que isso, eles tinham sido arrancados de seus respectivos lares. Os dois eram muito íntimos e eram responsáveis pelas solenidades do palácio.

“… sempre que uma mascarada, ou coisa desse gênero, era organizada na corte, imediatamente lembravam-se de convocar em seu benefício os talentos tanto de Hop-Frog como de Trippetta. Hop-Frog, em particular, era muito inventivo em projetar desfiles e atividades cênicas, sugerir novos caracteres e desenhar fantasias; e aparentemente nenhum baile de máscaras poderia ser preparado sem a sua assistência.” 

(Pág. 16)

O rei chama Hop-Frog para que o anão dê ideias sobre a fantasia de que o rei e seus ministros poderiam usar, mas como o rei estava de mau humor fez com que o anão tomasse vinho, vinho que excitava o pobre coxo a ponto de ficar doido. Como o anão não queria beber, o rei lembra dos amigos e familiares que ficaram para trás a fim de pressionar. E ainda não satisfeito, o tirano, como o narrador descreve o rei, obriga-o a beber mais.

Ao presenciar o sofrimento do amigo, Trippetta ajoelha-se aos pés do rei para que ele pare,mas o rei empurrou-a  violentamente e jogou o conteúdo do copo cheio no rosto da anã, humilhando-a.

Podemos perceber o quanto a postura do rei é maléfica, tirana, bem como o narrador o descreve. O autor cria em nós leitores um sentimento de ódio, aversão ao rei, e empatia polos anões e um sentimento de pena.

Este conto tem como tema a vingança. E nos faz refletir até que ponto se pode chegar para se vingar.

E falo isso porque a forma com que o anões se vingam do rei e de seus ministros é muito chocante e cruel. Não vou dizer de que forma a vingança se dá para não estragar a surpresa, mas envolve os elementos de horror característicos de Edgar Allan Poe, de forma magistral, perfeita, além de fazer referência ao título do conto 😉

Por criar o sentimento de empatia entre o leitor e as personagens eu diria que seria quase impossível sentir pena do rei e de seus ministros. A impressão que tenho é que o autor quis passar a ideia de que nós concordamos com a vingança, de que o objetivo destrutivo da vingança nos é aceitável.

Se já leram o conto me digam o que acharam, vamos discutir! 😉

Até o próximo post!

Camila Melo 

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11 Comentários

  1. Muito bom! ❤
    Além do autor abordar um tema polêmico (vingança), a sua resenha ainda me fez ficar morrendo de curiosidade sobre o desfecho!
    Imaginei mil coisas rs

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Marcela! Fico muito feliz que você tenha gostado! 🙂 É muito bom, tenho certeza de que vc irá gostar 😉 Bjos da Cah! ❤

      Curtido por 1 pessoa

  2. Oi, Cá! Adorei o post.
    Esse foi um dos meus contos preferidos do livro. Acho que existe essa comunhão com o leitor de que a justiça foi feita, apesar de cruel… E nos contos de fada os “maus” nca são mais ou menos legais, né, sempre merecem as chamas do inferno msm… hehe
    Bjs!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Val! Muito obrigada pelo carinho! ❤ Adorei a sua colocação, os maus sempre merecem as chamas do inferno hahaha. Bjos 🙂

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