Oies Bookaholics!
Hoje é o dia da primeira resenha do projeto de leitura para o Mês do Horror 2016 | Especial Edgar Allan Poe 🙂 Esse é o terceiro conto que aparece no livro “Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias”. O conto foi publicado em 1845 quando Poe tinha 36 anos.

Eu simplesmente adorei e espero que vocês gostem também 😉

“Um artigo nosso, de mesmo título, foi publicado no último número da Revista Americana, de Mr. Colton, dando origem a um certo grau de discussão – especialmente no que se refere à verdade ou falsidade de algumas assertivas que então fizemos. Não cabe a nós, naturalmente, escrever uma única palavra em defesa do que foi dito. Fomos solicitados a reimprimir este artigo, o que fazemos com prazer. Deixamos que o texto fale por si mesmo. Podemos observar, entretanto, que existe uma certa classe de pessoas que se comprazem na Dúvida, como se fosse uma profissão. – Ed. B. J. (Broadway Journal).”

(Pág. 27)

Com esse trecho tirado de um jornal se inicia a história de Mr. Valdemar. O narrador tem uma justificativa para narrar a referida história:

“Devido ao fato de que todas as partes interessadas desejassem evitar toda e qualquer publicidade, pelo menos por enquanto ou até que o assunto pudesse ser mais plenamente investigado e devido a nossos esforços para mantê-lo assim, um relato truncado e exagerado difundiu-se entre a sociedade e tornou-se a fonte de muitas falsas interpretações, dando origem, naturalmente, a muita descrença.”

(Pág. 27)

A partir de então, este narrador começa a contar os fatos, dizendo logo de início que há três anos teve sua atenção atraída para o assunto do mesmerismo, ou seja, o hipnotismo, e este narrador deseja investigar a experiência da hipnose em uma pessoa no momento da morte, experiência essa ainda nunca realizada.

O narrador quer investigar três pontos essenciais durante esse processo:

  1. se, em tal condição, permanecia no paciente qualquer susceptibilidade à influência magnética (pelo mesmerismo);
  2. se fosse estabelecido que existia, se era prejudicada ou fortalecida por essa condição;
  3. até que ponto e por quanto tempo a atividade da Morte poderia ser interrompida pelo processo.

Gente, vamos pensar um pouco… Essa situação não parece estranha? Como alguém pensa em hipnotizar alguém que está no momento da sua morte?!!!

Daí podemos observar as características de Edgar Allan Poe como autor, ele aborda o gênero do horror, mistério, suspense e da morte de forma nada convencional, digamos assim.

O narrador então precisa encontrar algum paciente que pudesse servir de cobaia para este experimento, e por utilizar o substantivo paciente, fica subentendido que o narrador é possivelmente um médico, ou alguém que lida com tratamentos com a finalidade de cura.

O paciente em questão é Mr. Ernest Valdemar, amigo do narrador. Por o conto iniciar com uma notícia de jornal, alguns detalhes são ditos de forma bem detalhada e sucinta. Mr. Valdemar é descrito como um autor, tinha residido principalmente no bairro de Harlem em Nova York, e era notável pela sua magreza corporal e brancura de sua barba em contraste com os cabelos pretos.

O contexto do espaço e do tempo aqui se faz como uma curiosidade, e não como uma possível influência imprescindível na história. Harlem é um bairro de Nova York que a partir de 1820 entrou num processo de desenvolvimento e urbanização. Várias fábricas foram implantadas, trazendo muitas pessoas, maioria negras, que buscavam por melhores oportunidades de trabalho e renda. Além de ser conhecido pela sua história musical.

Whatever…

Mr. Valdemar sofria de tuberculose e o tornava uma ótima escolha para o experimento:

“Sua doença era daquele caráter que admite um cálculo exato com respeito à época de seu desenlace através da morte; finalmente, foi estabelecido entre nós que ele mandaria me chamar cerca de vinte e quatro horas antes do período anunciado por seu médico para seu falecimento.” 

(Pág. 29)

Cabe ressaltar que durante o final do século XIX e meados do século XX dizimou grandes poetas românticos, é considerado o o mal dos séculos, já que é a doença infecciosa que mais mata no mundo, faz mais vítimas que a aids e a malária.

O narrador recebe um bilhete do próprio paciente, dizendo que os doutores D. e F. (assim mencionados) concordaram que Mr. Valdemar não duraria além da meia-noite do dia seguinte.

Os doutores relataram a condição do paciente que mostram que dificilmente ele sobreviveria:

“Havia já dezoito meses que o pulmão esquerdo estava em um estado semiossificado ou cartilaginoso; desse modo, naturalmente era inútil para todos os propósitos de conservação da vida. A parte superior do pulmão direito também estava parcial ou totalmente ossificada, enquanto a região inferior era apenas uma massa de tubérculos purulentos, quase encostados uns nos outros. Existiam diversas perfurações extensas; em um ponto, já havia adesão permanente às costelas. Esta aparência do pulmão direito surgira em uma data relativamente recente. A ossificação tinha ocorrido com uma rapidez fora do comum; somente um mês antes, não se detectara qualquer sinal dela; e a adesão apenas tinha sido observada há três dias. Independentemente da tísica, suspeitavam que o paciente apresentava um aneurisma na aorta; mas quanto a este ponto, os sintomas ósseos tornavam impossível um diagnóstico exato.”

(Pág. 30)

Mas o narrador só inicia de fato o experimento às oito horas da noite do dia que o paciente morreria, pois queria testemunhas confiáveis de sua experiência, sendo Mr. Theodore L., um estudante de medicina, que tomava notas de tudo o que aconteceria.

O temperamento nervoso o tornava um bom paciente para experiências mesméricas, e o paciente concordou durante todo o processo que queria fazer parte do experimento:

“… embora ele tivesse sempre cedido sua pessoa livremente a minhas experiências, nunca antes demonstrara nenhum sinal de simpatia por minhas atividades…” 

(Pág. 29)

O que eu queria destacar durante o processo hipnótico é um conceito que eu conheci nesse semestre durante as aulas de Literatura Brasileira II, o limiar / entrelugar, que é o estado que não se define. Ou seja, o personagem não é uma coisa, nem outra. Conversando com o meu professor sobre este conto, ele afirmou que o limiar é muito frequente nos processos hipnóticos.

No conto esse fato se evidencia durante as passagens em que o personagem está no processo da experiência proposta pelo narrador:

“– Sim – não – eu estive dormindo. Mas agora – agora – eu estou morto” 

(Pág. 36)

“– Pelo amor de Deus! Depressa! Depressa! Faça-me dormir de novo! Ou então, depressa! Acorde-me – acorde-me logo! – Eu lhe digo que estou morto!”

(Pág. 38)

Fica claro que nessas duas passagens a personagem fala que está morta, mas nós sabemos que mortos não falam, e que ele estava dormindo, ora estava acordado, mas que sim, estava morto.

Dois contos que abordam o conceito de limiar são “O caçador Graco” de Franz Kafka e “Insônia” de Graciliano Ramos, ambos estudados durante esse semestre. Se quiserem posso até fazer um post específicos sobres eles futuramente 😉

Como no início do conto o autor afirma expor os fatos que envolveram o caso do Mr. Valdemar, título do conto, é sob sua (e única) percepção que podemos entender o que aconteceu. Só temos acesso a essa perspectiva, somente um ponto de vista.

Quando há uma narrativa em primeira pessoa, devemos levar em conta o quanto o narrador pode ser confiável, principalmente quando há elementos de mistério e sobrenatural envolvidos.  O que chama atenção neste conto é que o narrador apresenta provas tentando de alguma forma provar a veracidade dos fatos como ele afirma. O uso das iniciais das testemunhas e o bilhete do paciente servem como exemplo.

A nota no jornal no início do conto diz que o texto, no caso o que o narrador está nos contando, fala por si mesmo, então só cabe a nós permanecer na dúvida se é real, verdadeiro ou não.

Eu particularmente não sei dizer se acredito. E também não sei dizer se a ideia de Edgar Allan Poe é fazer o leitor questionar, acreditar ou não. Mas que o efeito de horror criado pelo autor funciona, disso não tenho dúvidas. O experimento durou mais de sete meses, sim, sete meses! Aquele corpo estava sendo observado, e se lembram bem, o corpo de Mr. Valdemar já estava em um estado deplorável pelo efeito da doença, imaginem sete meses depois.

O final é surpreendente, é fodástico!

Poe manteve normalidade, até certo ponto, durante a sua narrativa, e aos poucos foi progredindo, criando um ambiente para que no último parágrafo os elementos de suspense, horror e sobrenatural fossem expostos ao leitor de forma a criar um choque.

Eu super recomendo este conto e se lerem, me digam o que acharam 😉 Se já leram algum outro conto do autor me digam também nos comentários, vou adorar saber!

Até o próximo post!

Camila Melo 

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11 comentários em “Resenha | Os fatos que envolveram o caso de Mr. Valdemar, por Edgar Allan Poe

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