Oies Bookaholics! A resenha de hoje destina-se a uma leitura obrigatória da matéria de Literatura Portuguesa II, que enfoca o período dos séculos XVIII e XIX, e se não fosse pelo curso de Letras, provavelmente nunca teria acesso à esta obra 😉

DESAFIO ANUAL: 47/50

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  • Título original: Letters Portugaises
  • Autora: Soror Mariana Alcoforado
  • Gênero: Literatura estrangeira / Literatura portuguesa
  • Editora: Núcleo
  • Lançamento: 1669?
  • 41 Páginas
  • Classificação: 4/5

Sinopse: Obra que reúne as cartas de amor (presumivelmente verdadeiras, pois a história é verídica) de uma jovem freira portuguesa do século XVII, dirigidas ao seu amante francês que a abandonou no convento. Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer sabe agradecer-to.

Nem todas as obras que vejo durante o curso consigo / acho interessante falar por aqui, mas nesse caso há vários pontos interessantes que acho que valem a pena ser considerados, e, vou tentar organizá-los em tópicos para facilitar a compreensão e o nexo das ideias, baseado na anotações durante as aulas 😉

  • Mistério Literário

Até hoje há várias dúvidas sobre a autoria dessas cartas, porque as cartas não foram escritas em português, e sim traduzidas do francês por homens, e só “voltaram” a Portugal após 150 anos, sim, 150 anos, depois da primeira “edição”.  Vale esclarecer também que as mulheres não eram reconhecidas naquela época. Mas mesmo assim, a obra se tornou o mais importante registro feminino escrito em português até o século XIX.

  • Questão social

Por que as mulheres não reconhecidas nessa época? Os familiares ainda se preocupavam com a questão do dinheiro, então para que suas filhas não dividissem o dote da família se casassem, eram internadas em conventos, mesmo sem ter nenhuma vocação. Ou seja, as mulheres eram enclausuradas, vítimas da segregação, para preservar os bens da família. O que se diz é que esses conventos eram tidos como bordéis e um local de divertimento para a casa Real com livre acesso à alta monarquia, era o “amor freirático”, um amor erótico.

  • Contexto histórico

E os conventos não eram só um “divertimento” para os monarcas, mas também para os cavaleiros e capitães. A ação era bem frequente pois Portugal estava na Guerra da Restauração contra a Espanha. Durante 60 anos, o império espanhol, o mais poderoso do mundo, dominou Portugal, e após 28 anos de guerra, a Espanha reconheceu a independência dos portugueses. A descoberta do ouro brasileiro em Minas Gerais, em 1699, serviu como uma premiação do período  de restauração da monarquia portuguesa após os vários anos de domínio. Dom João IV foi o “restaurador” (período do Barroco português) e durante os anos de 1705 e 1750 transformou Portugal num reino de luxo e prestígio, através do ouro da colônia, produzindo arte com influência da península Ibérica, principalmente França e norte da Itália, a fim de esquecer o passado com a Espanha.

  • Mariana Alcoforado

Mariana Alcoforado (Beja, 1640 – 1723) é a personagem e presumível autora das cinco “Lettres Portugaises” (As Cartas Portuguesas – titulo com que foram publicadas 1669, em França) dirigidas a Noel Bouton de Chamilly, conde de Saint-Léger, oficial francês que lutou em solo português sob as ordens de Frederico de Schomberg, durante a Guerra da Restauração. Tais cartas acabariam por se tornar num clássico da literatura universal por anteciparem o movimento literário romântico e serviram de inspiração a La Bruyère, Saint-Simon, Saint-Beuve e muitos outros autores românticos. O que sabe a respeito é que Mariana era fidalga, uma “bem nascida”, foi letrada em francês e escrevia bem. Se tornou escrivã do convento, além de ser mais que uma freira, era sóror: professora, o que reforça a autoria das cartas.

  • Sobre as cartas 

Depois de entender um pouco sobre a situação e contexto da época, dá para ter uma ideia do que se esperar dessas cartas: “sofrência”. É fácil pensar que nada mais disso poderia se esperar, uma mulher que foi mandada ao convento contra sua vontade, está trancada, não tem contato com sua família. A freira começa um relacionamento proibido com um conde, que pode mudar a sua realidade, se apaixona e é abandonada: “… na sua espera em vão, escreveu as referidas cartas, que contam uma história sempre igual: esperança no início, seguida de incerteza e, por fim, a convicção do abandono.”

Mariana relata como é terrível a sua situação no convento:

“Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa…”

(Pág. 12) 

“A família, os amigos e este convento são me insuportáveis. Tudo o que seja obrigada a ver, tudo o que inadiavelmente tenha de fazer, me é odioso.”

(Pág. 28)

“Eu era nova, ingenua; tinham-me encerrado neste convento desde pequena, não tinha visto senão gente desagradável, nunca ouvira as belas coisas que me constantemente me dizia…” 

(Pág. 41)

E inúmeros momentos de desespero, despertado pela paixão, como:

“… o meu amor já não depende da maneira como tu me tratares.” 

(Pág. 18)

“… sinto um prazer fatal por ter arriscado a vida e a honra por ti.” 

(Pág. 21)

“Não sei o que sou, nem o que faço, nem o que quero; estou despedaçada por mil sentimentos contrários. Pode imaginar-se estado mais deplorável? Amo-te de tal maneira que nem ouso sequer desejar que venhas a ser perturbado por igual arrebatamento.”

(Pág. 21)

“Às vezes parece-me que até me sujeitaria a servir aquela que amas.” 

(Pág. 31)

O contexto social também é notado, pelo sacrifício que a mulher precisou enfrentar para tentar viver com seu grande amor:

“Contra  mim própria me indigno, quando penso em tudo o que sacrifiquei: perdi a reputação, expus-me à cólera da minha família, a severidade das leis deste país, para com as freiras, e à tua ingratidão, que me parece o maior de todos os males.”

(Págs. 21 e 22) 

As cartas servem como uma forma de substituir a ausência do amado, de expor seu sofrimento e decepções, momentos de esperança, de espera e por fim, de abandono.

Eu gostei bastante da leitura, e recomendo, pelos trechos puderam perceber que a linguagem não é difícil (pelo menos nessa edição), e nos faz conhecer outro período da história, ver como a luta das mulheres por autonomia já precisava ser iniciada.

Espero que tenham gostado 🙂

Até o próximo post!

Camila Melo 

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17 comentários em “Resenha | Cartas de amor de uma freira portuguesa, por Soror Mariana Alcoforado

    1. Oies Naty, fico muito feliz que vc tenha gostado, o mais interessante foi perceber que desde muito tempo a mulher não tinha direitos, por mais que ainda tenham muita diferenças, antigamente era bem pior =/ Mas tenho esperança que as coisas mudem! Bjos da Cah! ❤

      Curtir

  1. Oi Camila, eu aqui no sabadão à noite, tentando organizar as aulas para a prova de segunda, e pesquisando sobre Mariana Alcoforado, encontro sua resenha sobre as Cartas. Já vai me ajudar na prova.
    Parabéns, admiro muito seu talento de escrever tão bem.
    Bjsss…

    Curtido por 1 pessoa

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