Resenha | Pauliceia Desvairada, Por Mário de Andrade

Oies Bookaholics! A resenha de hoje vai abordar uma obra que deu início ao movimento modernista brasileiro no século XX, especificamente na década de 1920. Essa leitura não foi mero acaso, nesse semestre uma das minhas matérias foi Literatura Brasileira I, disciplina que tem como objetivo o estudo da literatura brasileira da primeira metade do século XX, a partir das questões trazidas pelo modernismo, tais como o experimentalismo artístico e as interpretações do Brasil, com análise e interpretação de obras do período, com ênfase nos seguintes autores: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade (mas na realidade estudamos apenas Mário de Andrade e um pouco de Oswald de Andrade por conta da greve).

Quero lembrar que eu já fiz a resenha de Amar, verbo intransitivo – Por Mário de Andrade uma das obras também analisada durante o semestre, eu super recomendo 😉 Vale ressaltar que várias considerações que eu fizer nessa resenha tem por base as anotações das aulas e as leituras de ensaios lidos durante todo o semestre. 😉

DESAFIO ANUAL: 38/50

pauliceia desvairada

  • Título original: Pauliceia desvairada
  • Autor: Mário de Andrade
  • Editora: Ciranda Cultural
  • Gênero: Poesia
  • Lançamento: 2016
  • 79 Páginas
  • Classificação: 4/5

Sinopse: O livro Pauliceia Desvairada foi publicado em 1922, mesmo ano da Semana de Arte Moderna. Trata-se do primeiro livro de poemas modernista, cuja ‘confecção tumultuária’ Mário de Andrade descreveria muitos anos depois na famosa conferência de 1942 sobre o movimento que transformaria o panorama das artes no Brasil. O salto para o modernismo consolidado em Pauliceia desvairada ilumina Mário de Andrade moderno, unindo renovação, experimentação, à análise não mais ingênua de seu tempo.

Lançado em 1922, Pauliceia Desvairada é o primeiro livro modernista brasileiro, composto por 22 poemas, tem como pano de fundo uma cidade em processo de modernização e urbanização, um momento de desvairamento. A obra é uma busca pela identidade nacional, mesmo na relação contraditória  de sarcasmo e afeto pela cidade de São Paulo, o núcleo e objeto do livro, há uma defesa do exagero, deformação do real e uma nova reprodução da realidade.

Mário de Andrade inicia sua obra com o Prefácio Interessantíssimo, num texto extremamente complexo, o autor já começa a utilizar de sua subjetividade poética para explicar ao leitor as técnicas utilizadas na composição de seus versos, este prefácio ainda é considerado um manifesto (muitas vezes em nome da própria figura do autor), como também uma teoria poética.

Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste “Prefácio interessantíssimo”. (Pág. 5) 

Vou destacar os poemas que eu mais gostei por trazerem de certa maneira algum elemento ou tema curioso que me chamaram a atenção. O primeiro poema que abre o livro é “Inspiração“:

Inspiração

São Paulo! Comoção de minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequinal!… Traje de losangos… Cinza e ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paris… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…

São Paulo! Comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!

Inspiração se remete “às musas”, muito utilizada na poesia épica. A primeira palavra é São Paulo que revela uma efusão lírica do autor que usa e abusa das reticências (…),  ao longo de todo poema vemos versos longos composto por palavras “soltas”, há também o uso maior de substantivos do que de verbos, diferenciando a poesia de Mário de Andrade a outros poetas. Podemos perceber a apresentação do tema que será desenvolvido no livro, que é a cidade paulista. Há vários pares de oposição (cinza e ouro; forno e inverno morno, por exemplo) e foca na região específica do Trianon, refletindo a característica social da burguesia com “galicismo”, sendo ecos de Paris, influência e uso superficial da cultura francesa.  Cabe ressaltar que a cidade estava em um processo de urbanização e por isso “desertos” significa um lugar ainda vazio, na expressão “Galicismos a berrar nos desertos da América” e berrar sugere à animalização dos homens.

O trovador 

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras…
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal…
Intermitentemente…
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo…
Cantabona! Cantabona!
Dlorom…
Sou um tupi tangendo um alaúde!

No segundo poema da obra há apresentação de “quem” é o autor: é o tupi como poeta, e termo trovador mostra uma relação de ambiguidade. O poema explora muito a sonoridade, quer ser música a partir da utilização de palavras sem sentido e pares em antítese, inclusive nas obras de Mário de Andrade é possível ver o quanto ele utilizou da música para compor seus trabalhos. O tupi aparece como a figura nacional do indígena, Mário de Andrade faz assim uma retomada da cultura brasileira.

Um dos poemas que traz uma imagem bem pessimista do eu-lírico à cidade de São Paulo é apresentado a seguir:

Os Cortejos

Monotonias das minhas retinas…
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…
Todos os sempres das minhas visões! “Bon Giorno, caro.”

Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades…
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! os tumultuários das ausências!
Paulicéia – a grande boca de mil dentes;
e os jorros dentre a língua trissulca
de pus e de mais pus de distinção…
Giram homens fracos, baixos, magros…
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…

Estes homens de São Paulo,
toso iguais e desiguais,
quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
parecem-me uns macacos, uns macacos.

O eu-poético tenta resistir à padronização do homem: a massa, a multidão, aliás, o tema da multidão foi muito explorado na literatura europeia no século XIX, sendo referência à Mário de Andrade, como também a experiência do choque do autor em meio a este processo de modernização e urbanização das cidades. Há também uma sonoridade semelhante ao movimento do simbolismo. Na expressão “Bon giorno, caro” podemos identificar o contexto histórico do período com a imigração européia, principalmente de italianos que buscaram no Brasil tanto uma fuga da Primeira Guerra, como aproveitando a forte economia do café no estado de São Paulo. A ambiguidade também se faz presente nesse poema se considerarmos que os cortejos tanto podem ser fúnebres ou carnavalesco, e não é por acaso, durante o poema o autor utiliza duas vezes o verso “… serpentinas de entes frementes a se desenrolar…” sendo serpentina um adereço do próprio carnaval. E para finalizar a sua visão pessimista da sociedade paulista Mário de Andrade deixa evidente na última estrofe sua visão de que os homens se movem por gestos maquinais, desprovidos de seus próprios sentidos, transformando-os em animais, em macacos. Esse poema me lembra muito o filme Tempos Modernos de Charlie Chaplin pois se refere à padronização do homem dentro do processo produtivo na sociedade.

O último poema que compartilhar com vocês consegue refletir exatamente o que eu penso e sinto sobre o atual momento político no Brasil:
O rebanho
Oh! Minhas alucinações!
Vi os deputados, chapéus altos,
sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas,
saírem de mãos dadas do Congresso…
Como um possesso num acesso em meus aplausos
aos salvadores do meu estado amado!..
Desciam, inteligentes, de mãos dadas,
entre o trepidar dos táxis vascolejantes,
a rua Marechal Deodoro…
Oh! Minhas alucinações!
Como um possesso num acesso em meus aplausos
aos heróis do meu Estado amado!..
E as esperanças de ver tudo salvo!
Duas mil reformas, três projetos…
Emigraram os futuros noturnos…
E verde, verde, verde!…
Oh! minhas alucinações!
Mas os deputados, chapéus altos,
mudavam-se pouco a pouco em cabras!
Crescem-lhes os cornos, descem-lhes as barbinhas…
E vi que os chapéus altos do meu estado amado,
com os triângulos de madeira no pescoço,
nos verdes esperanças, sob as franjas de oiro da tarde,
se punham a pastar
rente do palácio do senhor presidente…
Oh! minhas alucinações!
O eu-lírico ao longo do poema se mostra num processo de perca de esperança a cerca da política, essa mudança está bem evidente após as duas primeiras estrofes, a transformação dos deputados de inteligentes em animais a pastar, culmina no fim da esperança. Há uma crítica quando Mário de Andrade diz em “… e as esperanças de ver tudo salvo! Duas mil reformas, três projetos… Emigram os futuros noturnos…”, ou seja, os projetos elaborados não saem do papel, só ficam na teoria, as mudanças não ocorrem na prática.
Eu achei a leitura muito complexa, pois há vários termos utilizados que parecem não ter sentido ou lógica, mas depois de ler após as várias leituras básica da disciplina e as aulas parece que tudo fica um pouco mais compreensivo. Há quem critique as obras de Mário de Andrade por achar sua linguagem pedante (que ou o que se expressa ostentando cultura e erudição), mas faz parte da literatura brasileira, é de fundamental importância conhecer esses autores (principalmente no meu curso hahaha). 
Eu recomendo a leitura de Pauliceia Desvairada para situar o leitor ao período do início do modernismo no Brasil e a uma comparação da cidade de São Paulo da década de 1920 aos dias atuais, para conhecer o contexto e registro histórico a partir desta obra.
Me digam nos comentários qual poeta ou autor nacional vocês mais gostam ou algum trauma que já sofreram por ter que ler algum livro clássico, vou adorar saber! 😉
Até o próximo post!
Camila Melo 
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13 Comentários

  1. Que resenha ótima!! Parabéns Cah, não vou mentir q nunca tive interesse em livros desse gênero mas fiquei tão encantada em conhecer essa versão da literatura brasileira que até aqui pra mim era desconhecida.

    Adorei a dica!!

    Bjuu

    Curtido por 1 pessoa

    1. Raquel sua linda, muito obrigada ❤ Eu tinha (tenho, na verdade, rs) um certo receio para ler esses livros clássicos, fico com a impressão de que tem uma linguagem muito difícil ou que não vou conseguir entender, mas depois das aulas a leitura se torna cada vez mais fácil. Pensei em fazer resenhas dos livros de literatura brasileira para colaborar de alguma forma com esse pré conceito que se tem sobre livros desses gêneros, afinal também estou lutando contra esse mal, rs 😉 Bjos da Cah! ❤

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  2. Amei sua resenha Ca, ficou ótima!! Eu gosto de alguns livros nacionais clássicos sim, mas tem uns que eu não suporto, quando tive que ler Til eu simplesmente detestei, mas essa fase modernista eu acho bem legal e nunca li nada do tipo, fiquei curiosa agora hehe
    Beijoos!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Naty! Muito obrigada pelo carinho! ❤ Fico muito feliz que você tenha gostado 🙂 Eu gosto muito de relacionar os livros clássicos com o contexto histórico e essa fase do modernismo é bem interessante por causa da primeira e segunda guerra, mas confesso que já "As cidades e as serras" e quase tive um colapso do porre que foi hahaha. Boa sorte no vertibular! 😉 Bjos da Cah! ❤

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  3. Oi, tudo bem? Admito que adoro livros nacionais, mas os “clássicos” me deixam um pouco receosa porque sempre fico pensando que são “complicados” demais… Ainda mais se for poesia (eu tenho a estranha mania de ficar achando pelo em ovo – que, no caso, seriam “significados” – em poesias/poemas). Sua resenha me deixou morrendo de vontade de ler Pauliceia desvairada! Parabéns pelo ótimo trabalho! Beijão

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oies Gi, tudo bem sim e vc? Muito obrigada pelo carinho, significa muito para mim ❤ Eu tbm tenho certos problemas com os clássicos, mas acho que o curso de Letras tem mudado isso (ainda bem, rs) e eu não gostava de poesia pq eu não entendia, acha tudo muito subjetivo, mas o que me ajuda muito é pesquisar sobre o contexto histórico da época e vai começando a ficar mais claro pra mim. Quando ler me diga o que achou , viu? 😉 Bjos da Cah! 🙂

      Curtido por 1 pessoa

      1. Também tenho esse problema de entendimento, ou então acabo exagerando e entendendo até o que não quiseram passar hahaha adorei a dica! Nao tenho esse costume de pesquisar o contexto histórico, mas vou começar a a fazer! Conto sim! Beijos

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        1. Fico muito feliz Gi 🙂

          Curtido por 1 pessoa

  4. […] Como sempre decido os livros que vou ler mesmo em maratonas e desafios, vou considerar os livros “obrigatórios” da faculdade: Amar, verbo intransitivo, Por Mário de Andrade e Pauliceia Desvairada, Por Mário de Andrade. […]

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  5. […] bom conhecer um pouco mais de poesia e os aspectos da cidade de São Paulo nos anos de 1920. Tem resenha completa disponível aqui no blog. […]

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  6. […] em anotações durante as aulas, da mesma forma que fiz com Vidas Secas, por Graciliano Ramos, Pauliceia Desvairada, Por Mário de Andrade e Amar, verbo intransitivo, Por Mário de […]

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