Oies BOOKAHOLICS! Neste semestre no curso de Letras, tenho a matéria de Literatura Brasileira I, que enfoca o Modernismo, especificamente o modernismo paulista, assim, um dos grandes autores estudados é Mário de Andrade. Essa obra é o primeiro romance do autor e vou contar um pouco da minha experiência de leitura e ainda acrescentar algumas informações durante a aula. 😉

DESAFIO ANUAL: 26/50 

amar, verbo intransitivo.jpg

  • Título original: Amar, verbo intransitivo – idílio
  • Autor: Mário de Andrade
  • Gênero: Romance / Literatura Brasileira
  • Lançamento: 1927
  • Editora: Agir
  •  240 Páginas
  • Classificação: 3,5/5

Sinopse: Em seu primeiro romance — Amar, verbo intransitivo —, Mário de Andrade aventura-se a explorar e apreender a natureza e o mistério da alma feminina lançando mão de uma magistral composição da personagem-chave do seu livro: a governanta alemã Fräulein. Narrativa experimental, ousada, plasmada numa linguagem cinematográfica, espontânea, esta obra é uma importante referência dentro do movimento modernista, cujo valor literário reconhecem, à medida que sobre ela se debruçam, os críticos e estudiosos da formação da literatura nacional.

Mas eu só queria saber neste mundo misturado quem concorda consigo mesmo! Somos misturas incompletas, assustadoras incoerências, metades, três-quartos e quando muito nove-décimos. Até afirmo não existir uma só pessoa perfeita, de São Paulo a São Paulo,  a gente fazendo toda a volta deste globo, com expressiva justeza adjetivadora, chamado de terráqueo. (Pág. 58)

O livro foi escrito em 1923, porém só foi publicado em 1927, é um livro que usa muito do recurso das cenas, criando assim um efeito cinematográfico. Não por acaso, a história ganhou uma adaptação com o filme nacional Lição de Amor.

Um dos aspectos diferentes na história é a presença constante (e até mesmo muito irritante em várias passagens) do narrador, chegando até mesmo a ser considerado um personagem na própria história, uma das figuras centrais junto com a alemã Fräulein (senhorita em alemão). Esse narrador possuí elementos pedagógico, moralista e vanguardista, ironiza a primeira matéria que está narrando, é interveniente e abusivo, toma a cena.

Eu não sei se alcançar a felicidade máxima,  extasiar-se aí,  e sentir que ela, apesar de superlativa,  onda cresce, e reparar que onda pode crescer mais… isso é viver? A felicidade  tão oposta à vida que, estando nela, a gente esquece que vive. Depois quando acaba, dure pouco,  dure muito, fica apenas aquela impressão do segundo. (Pág.  73)

O livro é intitulado como idílio, que segundo o dicionário Michaelis pode significar:

1 Pequeno poema, cujo assunto é geralmente pastoril, mas não dialogado como a écloga. 2 Sonho, fantasia, devaneio. 3 Amor poético e suave. Entretenimento amoroso.

Eu acredito que as definições 2, 3 e 4 são as que mais se enquadram na história, já que Felisberto Souza Costa contrata a alemã Fräulein com o intuito de iniciar a vida sexual do filho Carlos de 16 anos. Como o trato é somente entre a mulher e Souza Costa, é necessário que ela tenha uma ocupação de fachada, então ela também é preceptora, governanta, professora de música e línguas.

Porém quando as verdades saltam do coração,  nós homens intelectuais lhes damos o nome-feio de confissões. (Pág.  88)

Assim Fräulein vai trabalhar numa casa em Higienópolis, bairro de burgueses na cidade de São Paulo, parece meio estranho um pai levar uma prostituta para dentro de sua própria casa para iniciar a vida sexual do filho, essa casa em que grande parte da história se desenvolve, exceto por 3 cenas externas. Dentro do contexto histórico da época isso é muito normal já que no século XIX, momento em que a teoria do evolucionismo de Charles Darwin é desenvolvida, as políticas higienistas, entre outras medidas, tinham a finalidade de sanar doenças e epidemias. No caso da história, a justificativa para a sua esposa aceitar Fräulein em sua casa é para evitar que o filho pegue sífilis na rua, sendo o lar um lugar mais seguro para ter relações sexuais.

A figura de Fräulein tem algumas características muito próprias, ela sente orgulho da sua profissão, (sim, ela é uma prostituta altamente racionalizada), é uma pequena burguesa, mulher culta e se sente um pouco superior que os demais empregados da família. É uma representante da ambiguidade da transição entre as classes popular e alta burguesia. Ela possuí traços semelhantes à figura do próprio Mário de Andrade, que tem um discurso nacionalista e o quadro idílico típico da Alemanha, literatura e a natureza. Uma curiosidade é que o título da obra seria “Fräulein”, mas o autor optou por “Amar, verbo intransitivo” o que subentende-se que é um amor que não espera ser amado de volta, que não é correspondido, em contraposição com o verbo amar que é transitivo (sim, Mário de Andrade ainda nos dá uma aula de gramática, rs)

Outro ponto que merece atenção é a língua, que começa a ficar instável ao longo da história, o autor utiliza o tupi e o português popular para se aproximar do “público” brasileiro (além de ser uma antecipação para o seu próximo livro “Macunaíma”), o alemão causa um efeito de estranhamento e o francês caracteriza o estilo burguês da cidade.

O livro é bem curto, mas não dá para considerá-lo com uma leitura fácil, eu pelo menos não achei, se não fosse pela aula vários pontos para mim teriam passado em branco. Eu achei a história interessante, mas não gostei tanto assim, por ter que “decifrar” alguns pontos para entender a ironia em algumas cenas e o significado também. A história possuí algumas reviravoltas e revelações que são muito curiosas e que óbvio não vou contar para gerar curiosidade em vocês!

Eu recomendo o livro da minha professora que é doutora e especialista na literatura brasileira e tem um livro que aborda uma análise mais profunda da leitura desta obra 😉

em busca do inespecífico

“Em busca do inespecífico, leitura de amar, verbo intransitivo de Mário de Andrade” (Priscila Figueiredo) 

Se por acaso já leram esse livro me digam nos comentários o que acharam! 😉

Até o próximo post!

Camila Melo 

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14 comentários em “Resenha | Amar, verbo intransitivo, Por Mário de Andrade

  1. Amei o seu post! Nunca estudei muito sobre a Literatura Brasileira, mas pretendo mudar isso em breve hahaha
    Super me interessei pelo livro e vou procurá-lo em algum sebo!
    Parabéns, cada parágrafo do seu post me fez querer ler o livro mais e mais. Principalmente por ele ter essa sequência em cenas e eu sou roteirista e amo cinema!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Beatriz que bom que você gostou, me relutei muito a fazer uma resenha sobre esse livro, rs 🙂 Sei que tem uma edição da Saraiva de Bolso que é mais em conta, mas peguei na biblioteca mesmo, rs! Que legal saber que você ama essa área de cinema, pq eu não entendo nada haha. Bjos da Cah! ❤

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    1. Ann tbm tenho essa insegurança, mas essa obra não tem muito disso não, pq foi inscrita em 1923, ou seja século XX, o que tem de diferente na linguagem, se comparada aos dias de hoje, é alguns termos em tupi e da fala brasileira, e alguns em alemão, mas dentro de citação de um poema. Pode ter certeza que essa não é uma barreira! Meu “problema” mesmo foi que não gostei muito das intromissões do narrador, isso sim 😉 Bjos da Cah

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  2. Que legal, vc também falou do narrador!! Gente, tinha horas que eu tinha vontade de bater nele!!! Em alguns momentos ele corta a cena e deixa a gente no vácuo!!!! Eu também li para a faculdade e confesso se não fosse isso, eu teria largado o livro…..Risos….Excelente resenha!! Parabéns!!! Bjs!

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